quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Capitalismo em crise... Quem paga o pato?


Devemos lutar pelas pessoas pobres que estão pagando pela crise do capitalismo


Quero me concentrar nas mães e crianças em particular. Há uma lacuna inaceitável entre ricos e pobres. Uma mulher em um país pobre tem uma em cada dez chances de morrer no parto. Um total de 35% das mortes de crianças no mundo são devidas à desnutrição.

O que estamos fazendo sobre isso? Muito pouco. O comércio não é, infelizmente, mencionado na Declaração do Rio. A subnutrição está relacionada com acordos de livre comércio. Países do norte subsidiam sua agricultura e alimentos à exportação para países pobres, inundando seus mercados. Por exemplo, o Japão subsidia a sua indústria de laticínios, no montante de US$ 2.600 por ano por vaca. Por que uma vaca japonesa desfruta de uma “renda” anual cinco vezes maior do que a de um cidadão africano que ganha em média US$ 500 por ano? E isso leva à insegurança alimentar. Por que não estamos falando sobre essas coisas?

O que o Unicef está fazendo sobre isso? Está transportando Plumpy’nut [pasta à base de amendoim, com invólucro plástico, usada no tratamento da desnutrição severa, de fabricação francesa, pela empresa Nutriset] da França para a África para tratar a desnutrição. Isto medicaliza o problema e desvia a atenção do fato de que os países africanos importam alimentos e vendem terras a empresas transnacionais de alimentos. Etiópia, o maior receptor de Plumpy’nut, também recebe 700 mil toneladas de ajuda alimentar por ano. E acaba de vender 3 milhões de hectares de terra privilegiada para uma corporação.

Este é o contexto do problema e não o estamos abordando. No caso das doenças não transmissíveis, uma vez mais o comércio é a questão. África do Sul é o país mais gordo do terceiro mundo, e a importação e produção de produtos alimentares transformados e de soro de leite, um ingrediente de snacks, subiram exponencialmente. Como vamos controlar a desnutrição sem regular o comércio?

Além disso, não há referência na Declaração do Rio para o comércio desleal de pessoal de Saúde. África e Ásia foram esvaziados de pessoal de Saúde, contribuindo para um aumento da mortalidade materna, entre outras coisas, uma vez que profissionais qualificados são essenciais para reduzir essa tragédia. Estimou-se há vários anos pela Unctad [Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento] que os EUA economizam US$ 184 mil em custos de treinamento para cada profissional importado. No total, isso se traduz em centenas de bilhões de dólares. Novamente aqui é o Sul subsidiando o Norte. Precisamos de compensação para o que os ministros africanos de Saúde há alguns anos chamaram de roubo de cérebros — e não um código voluntário, como o presente código da OMS sobre recrutamento, que não tem quem force sua aplicação.

Eu também sou membro do Movimento de Saúde dos Povos (People’s Health Movement), um movimento global ativo em cerca de 70 países, com várias organizações filiadas. Nós temos uma posição de apoio incondicional, mas crítico, às agências da ONU. Embora sejam imperfeitos, eles representam os pontos de vista dos Estados membros. No entanto, eles foram enfraquecidos substancialmente porque os países não os financiam como deveriam. Eles também devem ser reforçados e devem ser mais ousados. Mas iniciativas privadas como a Fundação Gates são grandes financiadoras e, em grande medida, estão influenciando essas agências.

Como Bob Dylan disse, o dinheiro não fala, ele jura. Precisamos falar sobre crise financeira, crise alimentar e crise climática (e o clima não é mencionado na Declaração do Rio). A crise financeira é uma crise do capitalismo. Há uma declaração do Rio alternativa elaborada pela sociedade civil, com dez exigências muito claras, incluindo um imposto Tobin [tributo sobre as movimentações financeiras internacionais de caráter especulativo]. Por que não são as agências das Nações Unidas que pedem isso? Não se trata de algo radical, é um imposto sobre a economia de cassino. Neste momento, as pessoas pobres em todos os lugares, inclusive no Sul da Europa, estão pagando pela crise. Devemos lutar por elas.


por David Sanders
professor e diretor fundador da Escola de Saúde Pública da Universidade de Western Cape, África do Sul, membro fundador e coordenador do Conselho Global do Movimento Saúde dos Povos (PHM). Presidente do PHM da África do Sul. Tradução da palestra que proferiu na Conferência Mundial de Determinantes Sociais da Saúde, em outubro de 2011. Disponível em http://cmdss2011.org(leia também a íntegra da declaração alternativa do Rio, citada pelo autor, no site do RADIS:www.ensp.fiocruz.br/radis)


Fonte:
http://www6.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/113/pos_tudo/devemos-lutar-pelas-pessoas-pobres-que-estao-pagando-pela-crise-do-capita

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