sábado, 28 de novembro de 2015

A questão da neutralidade em Max Weber

É possível isentar-se dos valores construídos socialmente e elaborar, por sua vez, um conhecimento autêntico?

Em que medida e circunstâncias a neutralidade/ imparcialidade não passa (e limita-se) a uma utopia científica?
Para chegar à neutralidade axiológica Weber utiliza um recurso metodológico: os tipos ideais. De forma resumida, os tipos ideais representam, basicamente, a construção teórica de causas irreais para se chegar às causas prontamente reais. A partir desse procedimento – a saber, a delimitação dos tipos ideais – é possível detectar, no plano erigido pelo cientista, o que é e, do mesmo modo, o que não deve ser.
Desse modo, os tipos ideais são um recurso metodológico que o cientista se utiliza em determinado momento, mas que, de início, representam somente um modelo abstratoNão constituem, de maneira alguma, uma etapa final do processo de investigação, mas apenas um meio. No tocante à neutralidade axiológica, os tipos ideais são considerados para Weber uma ferramenta útil. Não representam a realidade, mas apenas indícios da mesma e podem ser utilizados pelos cientistas sociais. A partir desse procedimento, segundo o autor, é possível flexibilizar a pesquisa científica e alcançar, de forma cognoscível, um conhecimento objetivo.
Nesse sentido, a figura de Weber é central, uma vez que, tentando superar as limitações da neutralidade axiológica de sua época pretendeu, com suas formulações e estudos, atingir um nível mais elaborado do conhecimento objetivo.
De forma sucinta, ao analisar as implicações em torno da neutralidade axiológica em Max Weber, evidentemente, muitas questões saltam aos nossos olhos e mostram-se altamente pertinentes. É incontestável a contribuição de Weber para as ciências da cultura. Entretanto, é difícil escamotear que o processo de investigação científica seja carregado por valores subjetivos. 

Dessa forma, a busca pela clássica objetiva não exclui, de maneira absoluta, por assim dizer, sua amiga: a subjetividade. Ao contrário, 
é no contato – e na fronteira – entre esses dois elementos que surge, efetivamente, o caráter ideológico do conhecimento científico na sociedade capitalista.

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A questão da neutralidade em Max Weber

O tema da neutralidade (axiológica ou, numa acepção mais comum, a imparcialidade) é, sem dúvida, um assunto que levanta discussões e atrai, como uma fruta saborosa e convidativa, os intelectuais (desde jornalistas até empresários) comprometidos com um saber ou decisões – aparentemente – “científicas e objetivas”. O tratamento rigoroso de determinadas questões, assim como os elementos teórico-metodológicos, fazem parte de um repertório que busca constantemente, à sua maneira, a utilização correta dos procedimentos científicos com o objetivo de elaborar resultados plausíveis e, sobretudo, objetivos.
Do ponto de vista social e histórico, a neutralidade é um procedimento exequível, em outras palavras: é possível isentar-se dos valores construídos socialmente e elaborar, por sua vez, um conhecimento autêntico? Em que medida e circunstâncias a neutralidade/ imparcialidade não passa (e limita-se) a uma utopia científica? Parafraseando o historiador Febvre (1989), a cidade da objetividade pode, realmente, vigiar e expulsar, de vez, o cavalo de Tróia da subjetividade? Essas questões, embora sucintas, nos ajudam a pensar, de fato, as características do saber científico e, com isso, também nos ajudam a esquivar de um emaranhado de armadilhas e ideias sem fundamentação.
Dentro desse contexto, a figura do barbudinho e sociólogo Max Weber é referência obrigatória, por um lado, ao desenvolver um método específico para as ciências sociais – ou seja, o método compreensivo – e, por outro lado, por conferir legitimidade às ciências sociais e elevá-la, diretamente, ao estatuto de ciência. Na obra de Weber e, por conseguinte, na sua vida individual, a “neutralidade axiológica” ou precisamente a “isenção de valores” (Wertfreiheit) assume um papel fundamental – e, por sinal, onipresente – em seus postulados teóricos.
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De início, duas questões são válidas e esclarecedoras para nossa discussão: em primeiro lugar, é fundamental contextualizar que a palavra “objetividade”, em contraposição à palavra “subjetividade”, era uma aspiração intelectual que, na época de Weber e no campo do positivismo do século XIX, significava a independência completa dos valores e posições de um indivíduo. Por outro lado, a palavra “objetividade” denotava, basicamente, a análise pura – isto é, sem intermediários – de um objeto.
Desse modo, a compreensão dos fenômenos sociais e políticos, em termos científicos, só teriam validade a partir do momento que oWEBER_02-300x300 cientista abnegasse seus valores e concepções pessoais e, finalmente, realizasse uma análise precisa sem mediações e ideologias. Outra questão fundamental é, ademais, o conceito de axiologia. O que é axiologia? Para muitos – e seguindo a etimologia da palavra – é considerada “ciência dos valores” ou, mais adiante, um ramo científico que, para além das questões valorativas, preocupa-se em elaborar um conhecimento, por assim dizer, objetivo.  Se analisarmos a axiologia do ponto de vista prático e não somente teórico, conclui-se, de fato, que é uma proposta de difícil aplicação.
Dentro desse contexto, qual seria, aliás, a concepção de Max Weber ao desenvolver – em seus escritos – a idéia de neutralidade axiológica? Teria esse autor, como os demais de sua época, caído na idéia ingênua de acreditar na neutralidade como um campo isento de qualquer concepção ideológica ou subjetiva? Ademais, qual procedimento torna possível uma efetiva neutralidade em que o indivíduo é capaz de produzir, a seu modo, um conhecimento (totalmente) puro? Para responder essas questões, além de uma análise pontual e concisa das principais idéias e procedimentos desenvolvidos pelo respectivo autor em estudo, é necessário recorrer à própria trajetória intelectual de Weber.
A preocupação de Weber com a objetividade nas ciências sociais – ou mais precisamente, com as ciências da cultura – é resultado, de um lado, do contexto histórico-social da República de Weimar na Alemanha, instaurado logo após a I Guerra Mundial e ligado, diretamente, à legitimação das ciências humanas num contexto marcado, sobretudo, pelas ideias de cientificidade e a emergência de um método contingente e plausível para as ciências humanas, já que, em decorrência da hegemonia das ciências naturais e do positivismo, a disputa entre as duas tendências no âmbito estritamente científico eram, de fato, conflituosas.
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Naquela conjuntura, e durante a existência de Weber, em determinadas passagens de suas obras é possível perceber, de modo categórico, a exposição de problemas enfrentados pelas universidades alemãs, impregnadas de ideologias – profissão de fé em relação à política e à religião.  Nota-se que em sua trajetória intelectual e teórica a busca da neutralidade axiológica resultou, dentre outros fatores, no abandono da Associação para a Política Social (Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik) e, mais adiante, da Sociedade Alemã de Sociologia.
É, portanto, nesse contexto que Weber buscou valorizar um conhecimento objetivo, longe de juízos de valores e o comprometimento com a realidade concreta (em outras palavras, a busca pela neutralidade científica). O título de seu trabalho A “objetividade” do conhecimento nas ciências sociais não é escolhido aleatoriamente, ou seja, é interessante observar em nossa discussão que Weber coloca a palavra “objetividade” entre aspas. Isso mostra, certamente, que o respectivo autor não tratará de forma simplista o tema da objetividade como algo dado, pronto e acabado.
 Ao contrário: Weber problematiza a idéia de objetividade e a coloca, portanto, em discussão. Naturalmente, essa preocupação com os termos além de representar, em certa medida, o avanço intelectual de Weber é, na verdade, uma tentativa – aparentemente exitosa e plausível – mas certamente cheia de falhas e lacunas teórico-metodológicos – de abnegar à ingenuidade e malogro de outros autores (especialmente Durkheim) que defenderam a isenção de valores. No entanto, a um só tempo Weber pretende justificar, no campo teórico, a possibilidade da neutralidade axiológica.
Segundo a perspectiva weberiana, o procedimento científico deve ser realizado com objetivo de apreender a realidade concreta. No entanto, antes de tudo isso é necessário que o cientista da cultura mantenha uma neutralidade científica para desviar-se das ideias e valores humanos que, no processo de investigação, apareceram como um prato convidativo cheio de iguarias. Com o objetivo de explicar suas ideias a respeito da neutralidade axiológica, em termos práticos, Weber propõe a separação rigorosa entre juízo de fato (o que é) e juízo de valor (o que deve ser).
 A partir da tensão e o contato desses elementos, pode-se, categoricamente, rastrear o epicentro da teoria de Weber: o conhecimento objetivo (juízo de fato) e, em contraposição, o conhecimento valorativo (juízo de valor). Conforme o próprio nome, o juízo de valor é, para Weber, um conjunto de crenças pessoais, sentimentos: enfim, todos os elementos subjetivos que não podem oferecer, cientificamente, um conhecimento coerente. Dessa forma, segundo o próprio autor “juízos de valor não deveriam ser extraídos de maneira nenhuma da análise científica, devido ao fato de derivarem (…) de determinados ideais, e de por isso terem origens ‘subjetivas’” (WEBER, 2006, p. 109). Em outras palavras: o conhecimento guiado por valores pessoais não contribuiu, como também esconde, em sua análise, alguns elementos da realidade. Como conseqüência, o juízo de valor é responsável por camuflar e ao mesmo tempo restringir o campo de análise.
De maneira sistemática e, talvez forçosamente, Weber, à sua maneira, nos mostra que fazer ciência não implica abandonar (totalmente, aliás) o juízo de valor. Ou seja: o juízo está presente desde o começo da pesquisa e perpassa, basicamente, os elementos a priori da investigação científica (Weber, 2005). Após esses primeiros passos, como a delimitação do tema de pesquisa, as fontes e métodos são, portanto, escolhidos pelo cientista da cultura e obedecem, obviamente, suas predileções individuais.
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Em seus argumentos, Weber defende a neutralidade axiológica afirmando, quase sempre, que o abandono dos valores pessoais é factível no âmbito científico. Em geral, seus argumentos giram em torno da ideia de que o cientista da cultura, utilizando-se, por sua vez, da interpretação, é um atribuidor de significados. Destarte, sua própria condição é perpassada por valores culturais. As perguntas da investigação são, verdadeiramente, oriundas da perspectiva do pesquisador, mas as respostas devem constituir-se livres de julgamentos ideológicos. Para Weber, cabe ao pesquisador refrear, no processo de análise de dados, os julgamentos valorativos e, por conseguinte, elaborar um conhecimento objetivo.
Para chegar à neutralidade axiológica Weber utiliza um recurso metodológico: os tipos ideais. De forma resumida, os tipos ideais representam, basicamente, a construção teórica de causas irreais para se chegar às causas prontamente reais. A partir desse procedimento – a saber, a delimitação dos tipos ideais – é possível detectar, no plano erigido pelo cientista, o que é e, do mesmo modo, o que não deve ser.
Desse modo, os tipos ideais são um recurso metodológico que o cientista se utiliza em determinado momento, mas que, de início, representam somente um modelo abstrato. Não constituem, de maneira alguma, uma etapa final do processo de investigação, mas apenas um meio. No tocante à neutralidade axiológica, os tipos ideais são considerados para Weber uma ferramenta útil. Não representam a realidade, mas apenas indícios da mesma e podem ser utilizados pelos cientistas sociais. A partir desse procedimento, segundo o autor, é possível flexibilizar a pesquisa científica e alcançar, de forma cognoscível, um conhecimento objetivo.
Nesse sentido, a figura de Weber é central, uma vez que, tentando superar as limitações da neutralidade axiológica de sua época pretendeu, com suas formulações e estudos, atingir um nível mais elaborado do conhecimento objetivo.
De forma sucinta, ao analisar as implicações em torno da neutralidade axiológica em Max Weber, evidentemente, muitas questões saltam aos nossos olhos e mostram-se altamente pertinentes. É incontestável a contribuição de Weber para as ciências da cultura. Entretanto, é difícil escamotear que o processo de investigação científica seja carregado por valores subjetivos. 

Dessa forma, a busca pela clássica objetiva não exclui, de maneira absoluta, por assim dizer, sua amiga: a subjetividade. Ao contrário,
é no contato – e na fronteira – entre esses dois elementos que surge, efetivamente, o caráter ideológico do conhecimento científico na sociedade capitalista.

Texto adaptado para o Causas Perdidas. Publicado originalmente na Revista Espaço Livre.
PEREIRA, Alan Ricardo Duarte. A neutralidade axiológica em Max Weber: crítica e convergência de uma debate.  Revista Espaço Livre.Vol. 08 num. 15 jan/jul 2013. Disponível para leitura onlinehttp://revistaespacolivre.net/el15.pdf.

Revisado por Bruno Oliveira – https://www.facebook.com/bru.know









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Fonte: http://causasperdidas.literatortura.com/2013/09/06/questao-neutralidade-max-weber/