terça-feira, 17 de maio de 2016

A MATERNAGEM NA PSICOSE – LINGUAGEM E PSICANÁLISE



A MATERNAGEM NA PSICOSE – POR UMA RELAÇÃO ENTRE LINGUAGEM E PSICANÁLISE: ESTUDO DO DIZER DE UMA MÃE PSICÓTICA[1]

WalKer Douglas PinceratiIEL/UNICAMPpincerati@gmail.com

Resumo
Com este trabalho, baseado na afirmação da psicanálise lacaniana de que na psicose há primazia do significante, trago uma breve análise do corpus coletado, por meio de entrevista gravadas, de R.C., paciente diagnosticada psiquiatricamente como psicótica. R.C. sustenta uma certeza em relação ao saber de seu filho, certeza esta que desfaz, porque há efeito neológico, todas as possibilidades de instauração da dimensão da interpretação no seu dizer, dimensão esta extremamente seminal para que oinfans se estruture e se subjetive “saudavelmente” no simbólico. Pela análise do corpus, análise produzida numa relação de afetação entre estudos lingüísticos e teoria psicanalítica lacaniana, observa-se que há uma relação fusional fantasística com o Real do corpo do bebê, relação esta que não admite falhas, não admite falta; falta esta fundamental para que ele se posicione na linguagem como um sujeito.
Palavras-chave: dizer psicótico, maternagem, psicanálise.

INTRODUÇÃO
Neste trabalho, trago alguns pontos desenvolvidos na pesquisa que desenvolvi na minha iniciação científica[2]. Com a finalidade de verificar e analisar como uma mãe diagnosticada psiquiatricamente como psicótica constrói significações sobre seu filho, realizei, no segundo semestre de 2005, entrevistas, que foram gravadas, com R.C.[3], no Centro de Atenção Psicossocial Antonio da Costa Santos, Sr. de Saúde “Dr. Cândido Ferreira” – CAPS Sul[4]-. R.C.; no período das entrevistas, é casada, não trabalha e mora com o marido e seus dois filhos menores[5]: Raul, de cinco anos, e Renan, nascido em 02/06/2005.
A análise se baseia no que, na teoria psicanalítica, Jacques Lacan (1955-56) chama de um dizer psicótico, que é “uma linguagem onde certas palavras ganham um destaque especial, uma densidade que se manifesta algumas vezes na própria forma do significante, dando-lhe esse caráter indiscutivelmente neológico tão surpreendente nas produções da paranóia” (p.42)
Tendo em vista a afirmação de Nina Leite (2002), de que a mãe (ou agente maternante), com o seu discurso (materno), enquanto aquilo que tece uma comensurabilidade possível entre materialidades heterogêneas (significante e o real do organismo), enlaça o infans ao Outro pelo objeto voz – constituindo o corpolinguagem -, portanto, possibilitando a inseminação do simbólico no seu filho, temos que a maternagem - que é entendida por Ângela Vorcaro (2002) como funcionamento significante mínimo implantado no organismo do neonato, “fazendo o leito para o posterior funcionamento da língua por meio da relação temporal que pode ser chamada de embalar andante” (idem, p.71) -, tem incidência seminal no modo como o maternado, o infans (ou a criança a vir-a-ser falante), vai habitar o simbólico, uma vez que há aí uma relação de determinação entre linguagem e as formações do inconsciente.
Verificamos que na psicose, conforme teorizou Vorcaro (2003), o agente maternante, o Outro maternante, que dá conta de todas as funções e dá corpo à criança, não pode conduzir seu filho à demanda, ao jogo do gozo, à antecipação diante do espelho, que lhe dá posse a um corpo e a uma posição: “não há, portanto, constituição de um corpo unificante, na psicose” (idem, p.214).

A ESTRUTURA PSICÓTICA
Este trabalho se desenvolveu no âmbito da teoria lingüística em uma relação de afetação com a teoria psicanalítica (cf. Pincerati, 2006). Tendo em vista que a maior parte das produções na área da lingüística opera com base nas produções lingüístico-discursivas do sujeito neurótico – normal[6] -, elegi a teoria psicanalítica, pois ela coloca uma questão ética: afinal, o que é que se escuta na psicose? Quero saber o que ele disse ou o que ele quis dizer? Vê-se, com essas perguntas, que o problema da transcrição de fala torna-se central. Ora, diz Lacan (1955-56), “o que é falso, é conceber que o sentido de que se trata é aquele que se compreende [...] (p.14). É a partir daí que nasce a ilusão [...] (p.31). Isso se exprime em geral com toda a ingenuidade na fórmula – O sujeito quis dizer isso. O que vocês sabem a respeito? O que há de certo é que ele não o disse(idem).”
A teoria psicanalítica lacaniana diz da constituição do sujeito como materialidade significante (Picardi, 1997, p.4), e considera que nessa psicopatologia o sujeito habita uma outra estrutura: a psicótica.
Na psicose, o dizer[7] produzido por um sujeito é realizado de uma maneira diferente do produzido por um sujeito neurótico, pois, ao falar, o sujeito psicótico desvela toda a opacidade que a linguagem tem, implodindo toda a previsibilidade da língua constituída imaginariamente como transparente, regular, estratificada e calculável. No âmbito do discurso, percebe-se que o sujeito fala de um lugar que não é o da ordem do discurso (conforme pensado pela Análise do Discurso). A relação do psicótico com a língua é diferente: ele estabelece uma relação mais erotizada com a língua (no caso Schreber (1903) este fato nos salta aos olhos)[8].
É a partir da observação erótica que caracteriza a fala na psicose, que Lacan vai propor a definição de “dizer psicótico”, a qual nos permite vislumbra que na psicose há um efeito de sentido com estatuto diferente daquele que funciona dominantemente na neurose: o efeito neológico.
Defino o efeito neológico como um efeito de sentido produzido pelo (e não no) dizer psicótico, contrário ao efeito metafórico, produzindo naquele que escuta a fala do psicótico uma frustração dos sentidos prometidos. A partir de então, tenho concebido que os neologismos, tais como pensados na Psicanálise[9], que aparecem na fala do psicótico, são produtos do efeito neológico, tendo em vista que só se pode vislumbrá-los pela discordância do delírio com a linguagem comum. Ou seja, o efeito neológico está no registro do funcionamento da linguagem, registro este pensando em referência ao trabalho de Gustave Guillaume (cf. Valin, 1973), o qual, se perguntando da construção sintagmática do subjuntivo em francês, percebe que o sentido do subjuntivo em francês só advém do efeito de remanejamento (effect de ramener) do atual para o virtual no campo da hipótese, deslocamentos estes produzidos e marcados lingüisticamente. Desse effect de ramener, podemos depreender que a posição dos elementos lingüísticos no sintagma revela que o sentido só emerge pela incidência dos recobrimentos da hipótese que o sujeito faz no arranjo dos elementos lingüísticos, ou seja, na incidência e emergência do sujeito na cadeia significante. Trata-se de uma posição estrutural, aproximando este trabalho aos trabalhos de Claudia de Lemos (cf. artigo de 2002).
Não se trata, pois, de um distúrbio no eixo metafórico privilegiando o funcionamento do eixo metonímico, eixos estes que caracterizam o funcionamento da linguagem, pois se há sujeito há linguagem. Portanto, na psicose verificamos uma diferença estrutural, que diz, conforme Calligaris (1989), da amarragem ou não dos significantes na função paterna (função organizadora do Nome-do-pai) no saber do sujeito. Esse nó, essa amarragem fixa, segundo esse autor, não se dá na psicose, pois, diferentemente da neurose, cujo saber é estruturado por o neurótico ter que lidar com a demanda imaginária do Outro (tesouro dos significantes – a língua materna enquanto instância paterna, por exemplo), portanto um saber no qual há um sujeito suposto – conseqüência da amarragem fixa dos significantes na função central da metáfora paterna, por isso eles vem falar no registro simbólico -, o saber do psicótico é sem sujeito: os significantes não estão amarrados em uma função central tal como numa metáfora neurótica – a metáfora paterna: o neurótico aposta (sabe) que há “ao menos um” que sabe lidar com a demanda do Outro - , então eles se dispões em uma rede total e idealmente completa. Na crise, provocada por uma injunção a se referir a função paterna, o saber do psicótico entra num estado crepuscular (muito bem descrito por Schreber (1903)), produzindo alucinações auditivas, com a vinda no Real dos significantes, e visuais, com a vinda no Real da função foracluída - por isso a colocação de Lacan (1955-56, p.153) de que o psicótico é um testemunho aberto do inconsciente. Diz Calligaris (1989, p.46), “o delírio é um ersatz[10], um substituto da metáfora paterna”, é uma metáfora fracassada, uma metáfora pseudo-paterna, pois é a tentativa do sujeito se estruturar como neurótico, em resposta à injunção (cf. Calligaris, 1989).
Do outro lado, temos o neologismo de forma que é produto da vinda no Real da função paterna, da função organizadora do nome-do-pai (metáfora paterna), que na psicose está foracluída. No registro da metáfora delirante, algumas palavras ganham uma dimensão especial, que algumas vezes, como coloca Lacan (1955-56, p.42), manifesta-se na forma de um significante no dizer do psicótico; portanto, dizem de alguma significação especial, que não se confunde, como na neurose, a qual ganha forma no registro da língua.
Isso pode ser observado a partir do trabalho de Carolina Tost (2006), no qual observa que, na sua grande maioria, os neologismos produzidos na psicose respeitam as regras de formação da língua. Mas, acrescenta a autora, é possível encontrar outros processos que não estão previstos pelas regras de formação de palavras da/na língua portuguesa do Brasil (idem, p.414)[11].
A partir desse estudo, acrescento que, no nível dos domínios da Morfologia, só se pode vislumbrar esses outros processos de produção de neologismos na psicose, não previstos pelas regras de formação neológica da língua portuguesa, se se leva em consideração a afirmação psicanalítica de que na estrutura psicótica há primazia do significante. Tendo isso em vista, podemos ver mais claramente que os neologismos de forma não explicados pela teoria morfológica de formação dos neologismos são perfeitamente explicados pela observação do encadeamento de significantes na unidade lexical enunciada, processos estes que correspondem aos chistes, lapsos de língua, etc (cf. Freud, 1901). Com isso, podemos perceber que o neologismo morfológico diz, no registro da língua, de uma subjetividade: diz de um sujeito constituído na metáfora delirante, que não é sem significação. Nas palavras de Calligaris (1989, p.62), trata-se de uma metáfora original, viva, delirante, que testemunha o fato de que ela é uma invenção trabalhosa do sujeito lidando com um agente Real da metáfora – o Pai. Portanto, o neologismo de forma é também produto do efeito neológico.
Trazendo essas elaborações para o domínio deste trabalho, percebemos que só podemos visualizar a diferença estrutural que é evidenciada no dizer de R.C. (mas que é sentida por todos aqueles que escutam a fala de alguns[12] psicóticos) se admitirmos que na psicose há efeito neológico; que há uma significação outra que não diz respeito aos sentidos compartilhados no discurso comum. Assim, verificamos que o “discurso maternante” de R.C. comporta uma falta: falta da dimensão da hipótese que caracteriza o saber do neurótico, como veremos abaixo.

A MATERNAGEM NA PSICOSE
Para dizer da maternagem na psicose, torna-se interessante ilustrar a maternagem na “normalidade”.
Com Cavalcante (2001) e Ferreira (1990) depreende-se que uma mãe normal eleva seu filho na posição de interlocutor. Mostram as autoras, que inicialmente mãe e filho ficam num jogo do gozo, no qual a linguagem maternante é essencial, pois é ela que marca e constitui a relação dos interactantes. O interessante é observar no trabalho das autoras que ao longo da relação, à medida que a criança vai assumindo um papel mais ativo nas suas ações e reações (não-verbais e pré-linguísticas), a mãe vai se distanciando e começa a falar menos pelo filho. Nesse distanciamento, a linguagem maternante, o manhês, ‘sai de cena’ gradativamente e a fala da mãe vai se caracterizando e assumindo, nas palavras de Cavalcante (2001), uma estrutura prosódica normal.
As estruturas prosódico-sintáticas que caracterizam o funcionamento da língua vão com o tempo impondo no infansinterdições que o vão subjetivando, estruturando-o enquanto sujeito da linguagem na linguagem (da mãe), e é a linguagem maternante quem faz o leito para o funcionamento da língua (cf. Vorcaro, 2002), pois é ela quem possibilita que mãe e bebê entre no jogo do gozo - estatutos diferenciados que o funcionamento da linguagem maternante e da língua materna vão tomando ao longo do processo de criança no seu vir-a-ser falante (cf. Cavalcante, 2001, e Ferreira, 1990) –, assim como é pelo funcionamento dele, e nele, que o infans é levado, pela mãe, diante do espelho – primeiramente ocupando a posição na fala da mãe, sendo inteiramente interpretado por ela, depois se elevando à posição de interlocutor ativo na interação reagindo à interpretação materna, e em seguida tomando consciência de seus atos e interpretando-os.
Todo esse processo só é possível pois a mãe faz a suposição de que o bebê é um sujeito, suposição esta que põe em funcionamento a operação de interpretações maternas de todos os comportamentos que o neonato venha manifestar. Por isso tudo, é legitimo a afirmação de Vorcaro (2005, p.124) de que “... a língua materna é a língua na qual, para aquele que a articula, a linguagem maternante foi interditada.”

Em R.C verificamos que isso não acontece. Veja o exemplo:
Entr.:
Como que é, assim, você e o Renan? Como que é?
16R.C.:
Eu e o Renan? Ah! É uma paz enorme. Porque ele... eu... eu pego ele, ele..., ele fica olhando sério assim pra mim, sabe? Ele fica olhando sério pra mim e fa... “mamãe, mamãe”, ele faz. E dá risada. Eu brinco com ele. Tá tomando remedinho, que tá muito resfriado. Tem que dar na ampola assim pra ele, né?
Entr.:
Quantos aninhos ele tem?
17R.C.:
Ele tem 5 meses.
Entr.:
E quando ele fala..., aquela coisa que você disse que ele fala com você...
18R.C.:
Ele fala.
Entr.:
Como que você se sente? Como que é?
19R.C.:
Ah!, é uma paz muito grande!, saber que ele tá bem, né? É o amor, o afeto, né? Afeto de mãe e pai é dife... Mãe é uma coisa, pai é outra! Pai foi feito pra corrigir (...) e mãe foi feita pra agradar, pra sorri, pra brinca. Não que o homem não possa, ele pode. Mas, se bobia.... Homem tem que ser mais prudente, né? Ser mais rígido.
Entr.:
E ele fica..., e o Renan, então, ele chega a falar algumas coisinhas com você?
20R.C.:
Ele fala! Eu vejo a boquinha dele assim, o que ele tá pensando, né? E, eu acerto todas! O que eu falo pra ele é o que ele tá pensando, tá analisando, né? Nenezinho, nenezinho analisa a vida!!! Eles sabem mais que a gente, sabia?
Entr.:
Jura! Por quê?
21R.C.:
Eles sabem!
Entr.:
Conta pra mim então. Como que é isso?
22R.C
Ce tá com um problema de salário, né? Fazendo serviço, mas ce tá com aquele problema. Aí você... o Raul chega ne mim e fala: “Que! ... é isso isso isso e mais isso”, tá entendendo? (...) As vezes, cê tá guardando aquilo pra você, né? (...) Eles sabem!

Num primeiro momento, diante dessa fala podemos pensar que R.C. interpreta, mas logo percebemos pela insistência do verbo “saber” que trata-se de uma ‘interpretação’ radical: não há dúvidas – “Eles sabem!” Entendendo a interpretação como um discurso ou texto que se caracteriza pela suposição, pela hipótese que um sujeito faz de um saber no outro sujeito, vemos que o dizer de R.C. não opera no campo da suposição, só há certezas. Essa certeza é evidenciada no fragmento 20R.C., no qual ela diz que o que ela fala é o que ele está pensando e analisando. A evidência máxima da densidade da certeza de R.C. se dá quando ela diz que ele, o Renan, tem 5 meses (17R.C.) e que ele fala (18R.C). Pois o que ela quis dizer com isso?
Percebemos na análise desses fragmentos que R.C. sustenta um saber total, radical, e que a evidência máxima é do uso da palavra “fala”, que pode ser concebida, tendo em vista o efeito neológico, como um neologismo. A falta de um sujeito suposto no saber de R.C. coloca em suspenso qualquer possibilidade de interpretação. A implosão dos sentidos, a ação do efeito neológico, nos faz ver que entre R.C. e seu bebê o estatuto de língua muda: que língua é essa que ele fala? (Vemos no corpus de Ferreira, 1990, e Cavalcante, 2001, que o bebê fala com a mãe pela mãe, em R.C. o bebê fala para ela dele e dela. Disso vislumbra-se o desmanchar de muitos fenômenos que caracterizam a maternagem, como, por exemplo, o do transitivismo)
Vale a pena ressaltar a diferença estrutural que caracteriza estas duas frases: “Ele fala!” e “Eles sabem!” Num primeiro momento dá pra se pensar que “eles” são os filhos, como se ela dissesse: “Os filhos, seja de quem for, sabem!”. Mas, sabendo que se tratar de um delírio (“eu vejo a boquinha dele assim”), e tendo em vista que essas duas frases ocorrem num mesmo fragmento (20R.C), nos perguntamos: há mais de um Renan? Vislumbramos aqui o descarrilhar dos significantes que se “rearranjar” na metáfora delirante: “Ele fala! Eles sabem!”. Vemos, então, o aparecimento de neologismos, que dizem da relação especial que R.C. estabelece com a língua, uma língua particular que ele fala (e ela escuta). Portanto, referem-se a uma subjetividade e a uma significação que diz da relação de R.C. com linguagem, na linguagem, e que R.C. tem em relação ao seu corpo e ao corpo de seu bebê.
Vejamos outros exemplos:
Entr.:
Aí, me conta como você se sente mãe ... Como que é?
02R.C.:
Ah! Eu me sinto muito bem. Eu me sinto muito bem. Eu acho que meus filhos, assim, são... são tudo pra mim. Tudo! Tudo de mais importante é eles. (...) Tudo o que eu vô fazer eu penso neles, né? As vezes eu vô pra cidade, fazer compra ..., que acabo comprando tudo pra eles.
(risos)
Sério!!! Ah!, eu não preciso de nada não. Compro isso, compro aquilo, compro aqui ... Aí, chego em casa, o meu esposo fala: “mas você não comprô nada pra você.”
Eu fico imaginando, sabe, ele com aquela ropinha, como ele vai fica uma gracinha, né? Eu acabo comprando. Mas, ele tem a Rita, minha irmã, que o Lucas é ... já é mocinho, e ela guardô tudo que era do Lucas pra ele: brinquedo, vídeo game. Ele... troca de video game... com muita facilidade, sabe? Já teve vários. Ele gosta de estar sempre com o melhor, né?
Entr:
Aí você compra pra ele.
03R.C.:
Eu não, tadinha de mim, quem compra é o pai dele (...) ‘Quem compra...’(baixinho).Na realidade, é pai porque registro. Mas o pai dele é boiad... é peão de boiadero.Muito bonito é o pai dele. Ele é a cara do pai. Eu tava grávida quando casei. Viu que eu sou muito sortuda. (risos) Eu tava assim, oh ...  Eu tava expondo, aí o Sidneichegô e falô assim: “eu posso ficar aqui um pouquinho com você?” “Ah!, fique a vontade”, mas pensando: “Nossa!, esse cara deve ter muita grana. Bonito assim, né?” Conversei com ele. Aí depois..., eu falei: “oh, onde cê vai?” Ele falô: “daqui cê vai pra onde?” Falei: “Ai, vô subi lá pro setor, lá pra cima rolando um biarte”, tinha vendido pouco, falei: “vô manguear lá pra cima.” Aí ele subiu comigo, ficamô até onze hora, conversando, no Scub. Se acredita que eu acabei casando com o cara? (Risos)
Entr.:
Grávida?
04R.C:
Grávida.
Entr.:
E como foi isso?
05R.C.:
Eu falei onde eu morava. Ele falô: “olha, sábado eu vô tá em casa, cê não que ir lá?” Eu falei: “Ai..., vai você na minha casa.” Fiquei inibida, porque eu tava grávida, né? Aí ele foi me busca. Marcamô perto da... (rs) do ponto do ônibus e ele me levô na casa dele. Aí a irmã dele ficou: “Ai, bebê!!!” Ela adora bebê, né? “Ai ela vai ganhar bebê. Cês tem que casa. Foram feito um pro outro (rindo). Não sei que tem...” Ai .... Acabamos casando, você acredita?
Agora, ele tem o Renan, né? Eu ti... eu dei um filho pra ele. Porque eu falei ... Se eu falar isso perto dele, ele fala que eu tô loca, que o Renan é filho dele, né?Mas não é, porque o Renan é moreno como você. O menino já pergunta, ele pergunta: “quem é meu pai?” Aí ele explica pra ele, né? (...) Explica pra ele que eu tava gravida, que eu era amiga dele. Ele explicô pra ele. Ele falô: “pai, eu sei que você não é meu pai, eu sô neguinho cê é cê é branco.” Ele falô. Mas é pai, faz tudo pra ele... Gosta muito dele.

Me contanto de um episódio com a sobrinha:
115R.C.:
Tá. Tá boazinha já. (...) Aquela menininha dá um trabalho.
Então, e o Renan... O Renan gosta muito do pai dele. Gosta! Gosta muito do pai dele! (...) Ele presta atenção nas coisas, sabe? Ele vê o Raul, o que ele tem, aí ele fica todo alegre porque ele vai ter também, né?
(rindo) Eu presto muito atenção. Minha mãe fala que eu (rindo) presto atenção até demais. Eu falo... mas eu não falo essas coisas pra ela, entendeu? Eu não falo! Tô falando aqui pra (rindo) você. Ele: “Oia lá o irmãozinho como tá lindo!!!” Aí ele olha. Ele olha! Aí ele fica todo alegre, sabe? (rindo) É! Imaginando que ele vai ter também, né?
Entr.:
Que ele vai ter o quê? Assim o.... o....
116R.C.:
Ropa, sapato, brinquedo. Ele já tá espertinho. Tá bem espertinho ele. (rs)
Entr.:
Que gracinha!
117R.C.:
Ele é bonitinho. Ruivinho! Cabelo vermelinho, sabe? Bem ruivinho!

Nesses fragmentos observamos a tentativa de constituição de uma metáfora delirante, para dar conta da questão da paternidade (que não quer dizer que esta seja a metáfora paterna). Veja como é fugidia qualquer interpretação que tentemos atribuir à fala de R.C. E o que ela diz? Primeiramente, depois desse fragmento, e de muitos outros, ficamos com a sensação muito forte de que esse filho talvez não exista, de que R.C está delirando (mas existe, como afirmei no começo do texto): “o Renan é moreno como você” x “Ele é bonitinho. Ruivinho! Cabelo vermelinho, sabe? Bem ruivinho!”. Portanto, ao lado do Renan real há um Renan imaginário/fantasístico (vale a pena evidenciar a incerteza, colocando os fragmentos citados no próximo parágrafo em confronto com estes, mais o fato de que na verdade não sabemos quem é o “ele” que constantemente aparece).
Os sentidos são frustrados há todo momento pelo descarrilhar dos significantes, que se põe a falar no Real: “é pai” x “é pai porque registrou” x “Ele é a cara do pai” x “eu dei um filho pra ele” x “se eu falar isso perto dele” x ‘o Renan não é filho dele’ x “ele explicô pra ele”... É muito interessante verificar a impossibilidade de se construir um elemento de referência pelo uso freqüente de ele, o pai, o Renan. Mas essa referência fica destruída principalmente por nos faltar a imagem de um filho e de um pai. R.C. nos joga no delírio dela (efeito neológico). Mas, o interessante é que há algo que ela quer me dizer, e ela formular o seguinte: “Se eu falar isto perto dele, ele fala que eu tô loca, que o Renan é filho dele, né? Mas não é, porque o Renan é moreno como você.” Quem é esse ele? E por que ele é moreno como eu, sendo que dias depois ele é ruivinho como R.C. (pois R.C é ruiva)? Ela certamente estabeleceu uma relação comigo, e me comunica algo (seria eu nesse momento o pai da criança?). Vemos, portanto, a falta da referência paterna; e, o delírio dela é justamente no plural: delírios, R.C. faz tentativas constantes de construção de uma metáfora delirante. Isso se explica, na teoria psicanalítica, quando Calligaris (1989, p.59) diz que o esquizofrênico (tipo de psicose de R.C.) é caracterizado pelas tentativas permanente de constituição de uma metáfora delírante.
Para tentar laçar luz sobre esse deliro de Renan ser ruivo, vejamos este exemplo:
Entr.:
Então seu relacionamento com o Renan é?
57R.C.:
 É muito bom nosso relacionamento. Porque ele..., tem hora que ele invoca com a ropinha, que não quer por aquela ropinha. Eu percebo. Ele tem uma cômoda entupetada de ropinha! Entupetada de ropinha. Aí eu tiro: “Tá bom!” Tem hora que a criança não tá com paciência, né? E ele tem vômito, sabe? Vomita muito. Então toda hora eu tenho que limpa ele.
Entr.:
O... o...
58R.C.:
O Renan. Toda hora tem que troca de ropa. E tem hora que ele se irrita, que ele não quer que mexe nele.
Entr.:
E aí? Que é que você faz?
59R.C.
Ah! Eu troco mesmo (rs) assim. Chorando ... Ele nada!
Entr.:
Ah é!
60R.C.:
Eu ponho a banheira, assim, com água, tô segurando ele assim, daqui a pouco ele tá do outro lado fazendo assim... pá pá... Porque eu não ponho muita água na banheira, né? Mas ele nada. Ele fica assim molinho, sabe? Eu percebo que ele tá nadando. Ele nada. Bonitinho pra caramba.
Entr.:
E como é que...
61R.C.:
Acabo aqui? (mostrando o gravador)
Entr.:
Não! Ele só virô. Será que acabô? Não, não acabô...
62R.C.:
E agora vai começa “papa”?
Entr.:
Hum! Tá falando papa?
63R.C.:
Não! Ele não sabe que ele vai papa.
Entr.:
Ah! Tá.
64R.C.:
Mas, daqui um mês eu vô fala pra ele: “você vai papa! Tá na hora do papa! Mamãe vai dá papinha!” Ai ele já sabe. Falando pra ele, ele já sabe.
O nenê é um... órgão!... é um... evento por Deus, ... abençoado. Ele tá ligado à mãe! Ele sabe tudo o que eu sinto e eu sei tudo o que ele sente. Eu sei tudo o que ele quer e ele sabe que que eu quero. O filho é um evento abençoado por Deus. (...) É sim (baixinho).

Nesse exemplo, vemos que o delírio se constitui em outra direção. A referência paterna em relação ao filho se estrutura de maneira diferente daquela que vimos nos fragmentos anteriores: agora ele é ruivinho. Quem é o pai agora? Mas, talvez, um indício, e é só um indício pois nada sabemos disso, pode ser depreendido desse exemplo: mãe e filho estão ligados.
 No fragmento 57R.C vemos a ausência da interpretação dos sinais do corpo do bebê: ela percebe que ele se irrita; ela percebe que ele nada. Não há interpretação. Ela então diz: ele está ligado a ela; o nenê é um órgão! Trata-se de uma relação fusional onde a separação não é possível. A criança e ela são um só: eles sabem! Ele sabe tudo sobre ela e ela sabe tudo sobre ele! É uma relação absoluta!
Essa relação de forte ligação manifesta ao longo de toda a fala de R.C., destacando-se este, o que considero o significante exemplar da fala de R.C: “O nenê é um órgão!”. Mãe e filho estão intimamente relacionados, a ponto de um saber e sentir tudo o que o outro sabe e sente. Vemos aqui uma denúncia clara da ausência da castração simbólica (foraclusão da função paterna), da interdição da instância paterna na linguagem maternante, que possui um estatuto absolutamente diferenciado na psicose: pela análise desses fragmentos podemos dizer que não há maternagem[13], não há o que ser interditado, pois R.C. e seu bebê (isto é o que ela diz) são o próprio tesouro dos significantes, eles sabem! Não comporta, este dizer, um sujeito suposto que sabe, é R.C. quem sustenta o saber. Portanto, R.C. não é capaz de levar seu filho ao jogo do gozo, pois só há gozo entre R.C e seu nenê; ela não é capaz de levar seu filho diante do espelho, pois não há linguagem maternante.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com esta pesquisa, conclui, por meio de uma análise na qual se privilegiou a primazia do significante, que o dizer de uma mãe psicótica é total: não comporta a dimensão da interpretação. Sendo esta a componente essencial para que uma mãe (ou agente maternante) coloque em funcionamento a antecipação do funcionamento corporal, fazendo projeções de ordem imaginária e simbólica que possibilitam a constituição da criança em sujeito, como mostram os trabalhos de Cavalcante (2001) e Ferreira (1990), concluo que R.C. não é capaz de atribuir uma posição de sujeito para o seu filho, pois seu bebê assume no seu dizer a posição de órgão ligado a ela, assim como a significação que emerge de seu dizer é total, só há certezas: não há lugar para a instauração da falta, lugar este onde o bebê se posicionaria para formular sua demanda. Trata-se de uma relação fusional, que coloca o bebê em situação de risco. Essa situação, segundo Camarotti (1997), prejudica o desenvolvimento psíquico do bebê. Em outros termos, prejudica a entrada e a constituição do infans no simbólico, pois no Outro maternante não há falta de algo com a qual o bebê se identificaria; e R.C. diz (168R.C.):
Agora o Renan, o Renan ele chama eu sabia? Mã mã mã!, ele fala. Minha vó pega ele, ele gruda no cabelo dela e fala: “Mã mã mã”. Ele quer eu! Ele não quer nem saber, porque eu ponho fi... CD pra toca, danço com ele, nossa! E ele quer eu de todo jeito. Minha mãe... Ontem eu cheguei lá minha mãe falô: “Mas esse menino chorô tanto, mas chorô tanto”. Aí eu conversei com ele: “A mamãe tem que sair de casa”. Aí ele fez assim com a cabecinha (risos). Mas é tão bonitinho, ele entende tudo que a gente fala pra ele. Entende tudo que a gente fala pra ele. Agora o Raul, o Raul fica apertando ele, sabe assim?


BIBLIOGRAFIA
CALLIGARIS, Contardo (1989). Introdução a uma clínica diferencial das psicoses. Porto Alegre: Artes Médicas.
CAMAROTTI, Maria do Carmo (1997). Observação terapêutica de um bebê de pais psicóticos; in: Palavras em torno do berço(Daniele Wanderley, org.). Salvador: Ágalma, 2ª. ed., pp.107 – 118.
CAVALCANTE, Marianne (2001). Melodias maternas – um movimento interpretativo na dialogia mãe-bebê; in: Atendimento ao bebê: uma abordagem interdisciplinar (Maria do Carmo Camarotti, org.). São Paulo: Casa do Psicólogo, pp. 79 – 95.
DE LEMOS, Claudia (2002). Das vicissitudes da fala da criança e de sua investigação; in: Cadernos de Estudos Lingüísticos 42. Campinas: IEL/UNICAMP, pp.41 – 69.
FERREIRA, Silvia (1990). A interação mãe-bebê: os primeiros passos. Dissertação de Mestrado, Programa de Mestrado em Letras e Lingüística da UFPE.
FREUD, Sigmund (1901 [1987]). Sobre a psicopatologia da vida cotidiana. Rio de Janeiro: Imago.
LACAN, Jacques (1955-56 [2002]). O Seminário 3: as psicoses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2a. ed..
LEITE, Nina (2002). Sema-soma; in: O bebê e a modernidade: abordagens teórico-clínicas (Leda Bernardino e Cláudia Rohenkohl, orgs). São Paulo: Casa do Psicólogo, pp. 85 – 90.
PICARDI, Fernanda (1997). Linguagem e Esquizofrenia: na fronteira do sentido. Dissertação de Mestrado, Departamento de Lingüística do IEL/UNICAMP.
PINCERATI, WalKer (2006). O que é língua se o psicótico existe; in: 3º. Seminário de Pesquisas da Graduação – Língua, literatura e ensino. Campinas: Unicamp, Publicações IEL, pp.301 – 306.
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________________ (2005). Incorporação do organismo na música do Outro desejante; in: Corpolinguagem:a est-ética do desejo (Nina Leite, org.). Campinas: Mercado de Letras/FAEP-UNICAMP, pp. 115 – 125.



[1] Este artigo é a versão completa (com pequenas modificações) do trabalho apresentado no XVII FALE, na USP de São Paulo, 2006. Uma versão alterada e resumida está para ser publicada no terceiro número da Revista da ANPGL – Cadernos de Pesquisa na Graduação em Letras (ISSN 1807-507X).
[2] Este trabalho é fruto do projeto de iniciação científica “Um estudo do dizer da mãe psicótica”, financiado pelo PIBIC/CNPQ, sob a orientação da profa. Dra. Nina Virgínia de Araújo Leite, do Departamento de Lingüística do IEL/UNICAMP.
[3] Paciente que realiza tratamento do CAPS e que me “emprestou” sua fala para realização da pesquisa, e para a qual devo esta pesquisa e minha consideração. o da pesquisa, e para a qual devo esta pesquisa e minhas sinceras consideraça falaodem  parte deles respeitam as regras de form
[4] Agradeço o sincero apoio de toda a equipe do CAPS e, principalmente, de Maria André Derbli Pinto e de Ricardo Pacheco, os quais abriram as portas desta instituição para mim.
[5] R.C. possui mais dois filhos que não moram com ela.
[6] No escopo do projeto, tomamos o sujeito neurótico como o sinônimo de normal, uma vez que é estruturado como subjetividade na referência a uma normatividade edípica.
[7] Esta palavra “dizer” refere-se à posição que o sujeito psicótico está subjetiva(n)do(-se) e estrutura(n)do (-se) na linguagem. Sua fala é produzida de igual maneira que a produzida pela neurótico, mas o lugar de onde ele fala é diferente: ele “fala literalmente com o seu eu, e é como se um terceiro, seu substituto de reserva, falasse e comentasse sua atividade” (Lacan, 1955-56, p.305).
[8] É interessante observar que até R.C. testemunho isso, quando afirma que seu bebê fala. Ora, em que língua ele fala? (ver fragmentos da página 6, neste trabalho)
[9] O neologismo na Psicanálise é pensado no nível do significante.
[10] O termo alemão ersatz significa substituição; compensação. É interessante observar que ao pé da letra er + satz = pron. poss. ele + frase, oração (não desconsiderando que er é um prefixo não separável).
[11] Tost lista, a partir das produções de L.C (cf. Picardi, 1997), os seguintes neologismo: sobrepaliência, oniposência, enebrecida, plasmoglinfos. Somando a estes, coloco aqueles que R.C produziu: popuação e papagéoloice (cf. Pincerati, 2006).
[12] Pois, alerta Calligaris (1989, p.57), há psicótico que não são loucos.
[13] Gostaria de ressaltar que é com base nessa pequena análise que concluo que não há maternagem. Em verdade, minha concepção é de que há maternagem sim, mas com outro estatuto, devido a alteração do vetor transitivista, um fenômeno característico do processo maternante. Logo, minha afirmação é de que não há maternagem no sentido ‘normal’, neurótico.


Fonte: http://www.unicamp.br/iel/site/alunos/publicacoes/textos/m00021.htm

Ética, ciência e mercado - EDUARDO GIANNETTI

https://www.facebook.com/caetanodable/posts/10206729664303279

O mercado tem méritos e defeitos, mas ele não tem o dom de transformar os seres humanos em anjos ou libertinos, Wittgensteins ou Genghis Khans. O que ele faz -e para isso ele existe- é registrar, processar e refletir o que as pessoas são.
Se os homens são seres insaciáveis e se eles rejeitam o juízo platônico de que "a pobreza resulta do aumento dos desejos do homem e não da redução das suas posses", então a única coisa que se pode esperar do mercado é que ele coordene as ações desses homens, ou seja, que ele impeça que o entrechoque dos egoísmos descambe para uma babel destrutiva e que ele canalize essa sede insaciável de ganho para a criação de riqueza.
É muito, embora seja pouco. O mercado, como a ciência, está entre as mais extraordinárias realizações da humanidade. O erro é imaginar que eles possam prescindir da ética ou substituí-la.

Ética, ciência e mercado - EDUARDO GIANNETTI (o texto todo é sensacional!)
in http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq18069820.htm

Polifonia bakhtiniana é ouvir Richard Wagner misturado com Turma do Pagode

https://www.facebook.com/caetanodable/posts/10206727189321406


Polifonia é ouvir Richard Wagner na sala misturado com Turma do Pagode vindo do boteco em frente... Emoticon tongue
O bizarro é que ouvir "Lancinho" e "Tristão e Isolda" ao mesmo tempo é algo que faz pensar...! Emoticon confused_rev
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Lancinho da Turma do Pagode
www.youtube.com/watch?v=S_SXl-ETXRI
Tristão & Isolda do Wagner
www.youtube.com/watch?v=L44Ml8K_mDg
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Desenvolvimento do conceito bakhtiniano de polifonia
Resumo:
O dialogismo, essência da teoria bakhtiniana do discurso, reitera a presença do sujeito na comunicação, que não é vista apenas como uma simples transmissão de informação, mas como uma interação verbal ou não verbal. Os sujeitos se constituem na e pela interação. O discurso, construído a partir do discurso do outro, nunca está concluso. Então, todo texto é composto de várias vozes que, na polifonia, têm de ser equipolentes. Segundo Bakhtin, a polifonia é parte essencial de toda enunciação, já que em um mesmo texto ocorrem diferentes vozes que se expressam, e que todo discurso é formado por diversos discursos. Só compreendemos enunciados quando reagimos às palavras que despertam em nós ressonâncias ideológicas e/ou concernentes à nossa vida. A realidade do signo é objetiva e passível de um estudo metodologicamente unitário. Bakhtin chama esse estudo do discurso bivocal, que inevitavelmente surge sob as condições de comunicação dialógica e ultrapassa os limites da linguística, de metalinguística.
Na música, o termo polifonia é usado desde há muito
para designar um tipo de composição musical em que
várias vozes, ou várias melodias, sobrepõem-se em
simultâneo. Em oposição à polifonia, está a monodia,
ou homofonia, na qual as vozes executam o mesmo movimento
melódico, seguindo um mesmo padrão rítmico.
Ou, então, uma determinada melodia se sobrepõe às
outras vozes, que se subordinam, adquirindo um mero
papel de acompanhamento.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O herói a si assiste, vário e inconsciente... [Fernando Pessoa]

Todo começo é involuntário. 
Deus é o agente. 
O herói a si assiste, vário 
E inconsciente. 
À espada em tuas mãos achada 
Teu olhar desce. 
«Que farei eu com esta espada?» 
Ergueste-a, e fez-se.

- - -
Fernando Pessoa



= = = 

BELLUM SINE BELLO é um ideal português de paz a que hoje se convencionou chamar "brandos costumes". 

"Guerra sem combate" é o poder associado à recusa consciente da violência, recusa essa que enobrece o poder. A divisa poderia igualmente ser "A Paz dos fortes" embora, claro, lhe faltasse então a subtileza da epígrafe escolhida por Fernando Pessoa!

Uma outra explicação da epígrafe poder-se-ia basear na tradução alternativa "Guerra sem armas". Neste caso a divisa representaria um ideal de conquista espiritual e humana (pela difusão da cultura portuguesa e não apenas da religião) que foi no passado um importante vector da expansão portuguesa e seria no futuro, presumivelmente, a via para o Quinto Império.

A cultura é, afinal, o único remanescente da colonização que não é efémero...


A epígrafe não é só um sentido enigmático proposto, mas também uma matriz retórica.


Fonte: http://www.rc.unesp.br/igce/saepeig/Evento/evento.html


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I - Primeira Parte: Brasão

Bellum sine bello.

I. OS CAMPOS PRIMEIRO / O DOS CASTELOS
A Europa jaz, posta nos cotovelos:
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.
O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.
Fita, com olhar sphyngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.
O rosto com que fita é Portugal.

SEGUNDO / O DAS QUINAS

Os Deuses vendem quando dão.
Comprase a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são
Só o que passa! Baste a quem baste o que Ihe basta
O bastante de Ihe bastar!
A vida é breve, a alma é vasta:
Ter é tardar. Foi com desgraça e com vileza
Que Deus ao Cristo definiu:
Assim o opôs à Natureza
E Filho o ungiu.

II. OS CASTELOS

PRIMEIRO / ULISSES

O mytho é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo —-
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo. Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou. Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.

SEGUNDO / VIRIATO

Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.
Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste —
Assim se Portugal formou.
Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é ja o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.

TERCEIRO / O CONDE D. HENRIOUE
Todo começo é involuntáario.
Deus é o agente.
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»
Ergueste-a, e fez-se.

QUARTO / D. TAREJA
As naçôes todas são mystérios.
Cada uma é todo o mundo a sós.
Ó mãe de reis e avó de impérios,
Vela por nós! Teu seio augusto amamentou
Com bruta e natural certeza
O que, imprevisto, Deus fadou.
Por ele reza! Dê tua prece outro destino
A quem fadou o instinto teu!
O homem que foi o teu menino
Envelheceu. Mas todo vivo é eterno infante
Onde estás e não há o dia.
No antigo seio, vigilante,
De novo o cria!

QUINTO / D. AFONSO HENRIQUES

Pai, foste cavaleiro.
Hoje a vigília é nossa.
Dá-nos o exemplo inteiro
E a tua inteira força! Dá, contra a hora em que, errada,
Novos infiéis vençam,
A bênção como espada,
A espada como benção!

SEXTO / D. DINIS

Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver,
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

SÉTIMO (I) / D. JOÃO O PRIMEIRO

O homem e a hora são um só
Quando Deus faz e a história é feita.
O mais é carne, cujo pó
A terra espreita. Mestre, sem o saber, do Templo
Que Portugal foi feito ser,
Que houveste a glória e deste o exemplo
De o defender. Teu nome, eleito em sua fama,
É, na ara da nossa alma interna,
A que repele, eterna chama,
A sombra eterna.

SÉTIMO (II) / D. FILIPA DE LENCASTRE

Que enigma havia em teu seio
Que só gênios concebia?
Que arcanjo teus sonhos veio
Velar, maternos, um dia? Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal,
Humano ventre do Império,
Madrinha de Portugal!

III. AS QUINAS PRIMEIRA / D. DUARTE, REI DE PORTUGAL

Meu dever fez-me, como Deus ao mundo.
A regra de ser Rei almou meu ser,
Em dia e letra escrupuloso e fundo. Firme em minha tristeza, tal vivi.
Cumpri contra o Destino o meu dever.
Inutilmente? Não, porque o cumpri.

SEGUNDA / D. FERNANDO, INFANTE DE PORTUGAL

Deu-me Deus o seu gládio, porque eu faça
A sua santa guerra.
Sagrou-me seu em honra e em desgraça,
Às horas em que um frio vento passa
Por sobre a fria terra.
Pôs-me as mãos sobre os ombros e doirou-me
A fronte com o olhar;
E esta febre de Além, que me consome,
E este querer grandeza são seu nome
Dentro em mim a vibrar.
E eu vou, e a luz do gládio erguido dá
Em minha face calma.
Cheio de Deus, não temo o que virá,
Pois venha o que vier, nunca será
Maior do que a minha alma.

TERCEIRA / D. PEDRO, REGENTE DE PORTUGAL

Claro em pensar, e claro no sentir,
É claro no querer;
Indiferente ao que há em conseguir
Que seja só obter;
Dúplice dono, sem me dividir,
De dever e de ser —
Não me podia a Sorte dar guarida
Por não ser eu dos seus.
Assim vivi, assim morri, a vida,
Calmo sob mudos céus,
Fiel à palavra dada e à idéia tida.
Tudo o mais é com Deus!

QUARTA / D. JOÃO, INFANTE DE PORTUGAL

Não fui alguém. Minha alma estava estreita
Entre tão grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada; Porque é do português, pai de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita —
O todo, ou o seu nada.

QUINTA / D. SEBASTIÃO, REI DE PORTUGAL

Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.
Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

IV. A COROA NUN'ÁLVARES PEREIRA

Que auréola te cerca?
É a espada que, volteando.
Faz que o ar alto perca
Seu azul negro e brando.
Mas que espada é que, erguida,
Faz esse halo no céu?
É Excalibur, a ungida,
Que o Rei Artur te deu. 'Sperança consumada,
S. Portugal em ser,
Ergue a luz da tua espada
Para a estrada se ver!

V. O TIMBRE A CABEÇA DO GRIFO / O INFANTE D. HENRIOUE

Em seu trono entre o brilho das esferas,
Com seu manto de noite e solidão,
Tem aos pés o mar novo e as mortas eras —
O único imperador que tem, deveras,
O globo mundo em sua mão.

UMA ASA DO GRIFO / D. JOÃO O SEGUNDO

Braços cruzados, fita além do mar.
Parece em promontório uma alta serra —
O limite da terra a dominar
O mar que possa haver além da terra.
Seu formidavel vulto solitário
Enche de estar presente o mar e o céu
E parece temer o mundo vário
Que ele abra os braços e lhe rasgue o véu.

A OUTRA ASA DO GRIFO / AFONSO DE ALBUQUEROUE

De pé, sobre os países conquistados
Desce os olhos cansados
De ver o mundo e a injustiça e a sorte.
Não pensa em vida ou morte
Tão poderoso que não quer o quanto
Pode, que o querer tanto
Calcara mais do que o submisso mundo
Sob o seu passo fundo.
Três impérios do chão lhe a Sorte apanha.
Criou-os como quem desdenha.

"Interpretar o mundo – Mudar o mundo" Chomsky em Lisboa [2015]



Interpretar o mundo – Mudar o mundo

Chomsky em Lisboa [2015]




A fila começa no átrio e prolonga-se pela escadaria até ao andar de baixo. Dezenas de pessoas esperam para saber se vão conseguir entrar no auditório ou se terão de ficar a ver o conferencista que se segue num ecrã instalado cá fora.

O que levou tantos jovens e menos jovens, estudantes, cientistas e público em geral à Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, nesta sexta-feira à tarde?

A perspectiva de ouvirem ao vivo e em directo um dos mais famosos cientistas do mundo, o linguista Noam Chomsky.

De pé perante uma sala à cunha, Chomsky, com 86 anos de idade, fez uma espécie de aula-relâmpago, recheada de referências a pensadores mais e menos conhecidos, sobre a evolução do pensamento científico, filosófico e político do Renascimento até à modernidade. E assim fazendo, falou também do seu envolvimento, ao longo de várias décadas, por estas três áreas do conhecimento.

Da linguística às ciências cognitivas, da física ao darwinismo, das lutas sociais às desigualdades crescentes na sociedade actual, Chomsky abordou uma série de temas, numa espécie de síntese – talvez não totalmente clara para uma parte do seu auditório – da evolução do seu próprio pensamento. E apesar de não ter apresentado nenhum PowerPoint e ter lido o seu texto – numa voz algo monótona e com aparente cansaço – do início ao fim, foi brindado com um aplauso entusiasta quando concluiu a sua intervenção.

A conferência de Chomsky intitulada "
Interpretar o mundo – Mudar o mundo" estava inserida no congresso "No coração do mundo – Ciências em rede no mundo global", organizada pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (UNL) e pelas faculdades de Letras das universidades de Lisboa, Coimbra e Porto.

Interpretar o mundo é “uma meta muito mais modesta do que conhecer e perceber o mundo”, começou por dizer Chomsky. Isto porque hoje temos de reconhecer que “a nossa compreensão do mundo nunca poderá estar à altura do que pretendiam os pais da ciência moderna" – Galileu, Descartes, Newton... “A natureza tem segredos que ficarão para sempre na escuridão”, acrescentou, dando como exemplo, entre outros, a incerteza inerente à física quântica, que “só serviu para revelar ainda mais os limites da nossa compreensão do mundo”.

Existem, isso sim, “ilhas de conhecimento”– e uma delas foi a redescoberta, nas últimas décadas, de que os estados mentais são fenómenos naturais, causados pela actividade de redes de neurónios no cérebro. Uma “redescoberta” e não uma descoberta, diz Chomsky, porque a ideia de que “o pensamento é uma propriedade da matéria organizada” remonta a finais do século XVIII. Mas apesar disso, a nossa “utilização criativa” da linguagem, essa capacidade exclusivamente humana de inventar um sem-fim de frases a partir de um número limitado de componentes, “permanece misteriosa”.

“Chomsky é considerado o ‘pai’ da linguística moderna porque foi ele que inseriu a linguística nas ciências cognitivas”, explicou ao PÚBLICO João Costa, do Centro de Linguística da UNL (que convidou Chomsky a participar no congresso), a seguir à conferência. “E ao dizer que a linguagem é uma componente biológica autónoma do nosso organismo, ele causou uma ruptura de paradigma que nos deu a capacidade de estudar a linguagem de forma pura.” Ou seja, de criar frases no laboratório para estudar o “comportamento” da língua como se de um organismo vivo se tratasse.

Na segunda parte da sua palestra, Chomsky passou sem transição para uma reflexão sobre como mudar o mundo para reduzir as desigualdades sociais, sobre “como organizar a sociedade para garantir o bem comum” – isto é, uma vida decente para todos e o respeito dos direitos humanos.
Primeiro, evocou pensadores do Século das Luzes como Adam Smith, que pensavam que os seres humanos eram intrinsecamente generosos e que, por isso, os mais ricos iriam distribuir a sua riqueza pelos mais necessitados – “algo que não correu exactamente como previsto”, ironizou.
Falou dos Estados Unidos, “o país mais poderoso e mais livre da história do mundo e ao mesmo tempo um dos mais retrógrados em termos do acesso à saúde, a par da Turquia e do México”; e ainda da “globalização neoliberal, que pretende limitar o desenvolvimento humano”. 

E terminou defendendo uma “forma razoável de aproximação ao bem comum”: as ideias libertárias. 

“Em meados do século XIX nos EUA, os trabalhadores não faziam greve apenas para ter pão, mas também pelos seus direitos enquanto homens e mulheres livres”, rematou. (público)


Fontes: 

http://www.publico.pt/ciencia/noticia/noam-chomsky-linguista-filosofo-activista-politico-fez-casa-cheia-em-lisboa-1695026

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http://leitor.expresso.pt/#library/expressodiario/13-05-2015/caderno-1/temas-principais/nao-existe-qualquer-razao-para-a-populacao-pagar-a-divida


http://expresso.sapo.pt/dossies/diario/2015-05-13-Noam-Chomsky.-Ha-uma-diferenca-entre-condenar-o-ataque-ao-Charlie-Hebdo-e-ser-a-favor-das-vitimas

https://www.facebook.com/catarinapombonabais/posts/10208720445426527?comment_id=10208723270737158&reply_comment_id=10208723402700457&notif_t=feed_comment_reply&notif_id=1462998521860017







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"Problemas do Conhecimento e da Liberdade" 
– 
by Noam Chomsky (2008)

Originalmente apresentado em Cambridge no ano de 1971. num ciclo de palestras dedicadas a Bertrand Russell. Problemas Do Conhecimento E Da Liberdade é uma síntese do pensamento de Noam Chomsky a respeito de lingüística e filosofia moral. Dividido em duas partes. o livro expõe também suas veementes críticas políticas acerca da guerra travada pelos Estados Unidos no Vietnã. Em "Interpretar o mundo". artigo que abre o livro. Chomsky retoma o trabalho da vida de Russell - a incansável busca pelos princípios empíricos da compreensão humana - para traçar um panorama filosófico geral. com referências a David Hume. Ludwig Wittgenstein. Wilhelm von Humboldt e outros. a cujos comentários acrescenta importantes observações. No segundo artigo. apropriadamente intitulado "Mudar o mundo". Chomsky aplica esses conceitos aos temas que ocupariam a maior parte de seus trabalhos sobre política nesse período: crítica aos confrontos na Indochina e à ideologia da Guerra Fria por trás deles; desaprovação ao Pentágono como centro único de tomada de decisões nos Estados Unidos e à crescente influência de corporações multinacionais nesses círculos; censura à politização das universidades americanas durante os anos do pós-guerra. Além disso. Chomsky apresenta uma análise contundente da crise dos mísseis cubanos e da política externa de Richard Nixon. Prefaciado pela escritora indiana Arundhati Roy. Problemas do conhecimento e da liberdade é um livro lúcido e estimulante. o primeiro de Chomsky a reunir seu trabalho como lingüista e pensador político. É também uma de suas primeiras obras publicadas. na qual se antevê com clareza uma trajetória genial.

Fonte: http://www.amazon.com/Problemas-Conhecimento-Liberdade-Portuguese-Brasil/dp/8501071110





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A programa��o neuroling��stica (PNL), t�cnica que surgiu na d�cada de 70 nos Estados Unidos, tem sido cada vez mais utilizada em tratamentos psicoterap�uticos, cursos de treinamento em gest�o e lideran�a e at� em disciplinas acad�micas, alcan�ando altos �ndices de satisfa��o pelos resultados r�pidos que proporciona. A PNL se prop�e a mostrar como a linguagem pode interferir nos nossos padr�es de comportamento e como � poss�vel "reprogramar" o c�rebro atrav�s das palavras, para que algo que se deseja - mudar ou alcan�ar - seja conquistado 
A t�cnica foi criada pelo psic�logo Richard Bandler e pelo ling�ista John Grinder, americanos que aliaram as teorias da neuroling��stica (movimento iniciado no s�culo XIX que estuda a elabora��o cerebral da linguagem) � gram�tica transformacional de Noam Chomsky (que associa a palavra � interpreta��o) e �s linhas de psicoterapia gestalt e behaviorista. A PNL foi trazida ao Brasil na d�cada de 80 por alguns psic�logos interessados em inseri-la nas sess�es de terapia, mas perdeu credibilidade nos anos 90, ap�s ser pasteurizada como uma "solu��o para todos os males". "Alguns marqueteiros fizeram um curso de fim de semana nos Estados Unidos e voltaram ao Brasil cheios de promessas milagrosas. Transformaram a PNL em mercadoria e cobravam fortunas nas palestras para empresas", critica a psic�loga Cl� Guilhermina, uma das pioneiras no Brasil e fundadora do Instituto de Programa��o Neuroling��stica Aplicada, o primeiro a ser validado pelo Conselho Regional de Psicologia de S�o Paulo. Nos �ltimos anos, ap�s a iniciativa de pesquisadores em validar cientificamente a t�cnica no meio acad�mico, ela voltou a ser respeitada. Em maio do ano passado, foi reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia como uma pr�tica da psicoterapia.

http://www.terra.com.br/istoe-temp/edicoes/2024/imprime99166.htm