quarta-feira, 11 de março de 2015

'A arte existe porque a vida não basta' - Ferreira Gullar

'A arte existe porque a vida não basta', 
diz Ferreira Gullar


Escritor, que completa 80 anos, fez um balanço irreverente de sua carreira.
Poeta relembrou anos de exílio, criticou concretistas e falou do novo livro.


Luciano Trigo
Do G1, em Paraty
07/08/2010 19h14 - Atualizado em 26/08/2010 17h17

Fonte: http://g1.globo.com/pop-arte/flip/noticia/2010/08/arte-existe-porque-vida-nao-basta-diz-ferreira-gullar.html






Ferreira Gullar, o maior poeta brasileiro vivo, tinha três motivos para comemorar sua terceira passagem pela FLIP: o Prêmio Camões concedido há poucas semanas, o aniversário de 80 anos e o lançamento de um novo livro de poesias após um intervalo de 11 anos, “Em alguma parte alguma”.
No entanto, na conversa conduzida pelo editor Samuel Titan Jr. neste sábado (7), ele mostrou que não está satisfeito, que continua buscando alguma coisa. Permanece, enfim, fiel à sua trajetória como poeta e intelectual engajado.
Gullar começou lembrando o início de seu caminho poético. “Eu costumo dizer, brincando, que nasci em Macondo, a cidade de 'Cem anos de solidão' onde tudo acontecia um século depois. Na adolescência eu era um poeta parnasiano, que escrevia em versos metrificados, até falava em decassílabos", recordou. "Quando chegou a São Luiz a poesia moderna de Carlos Drummond de Andrade, eu, acostumado a ler Camões, levei um choque ao ler aqueles versos. Aí fui para a biblioteca pública da cidade ler outros poetas modernos, como Mario de Andrade, e comecei a entender o que era aquilo”, completou.

O poeta maranhense nascido em São Luís publicou seu primeiro livro aos 19 anos, “Um pouco acima do chão”, e em seguida começou a escrever uma poesia em que não havia nada previsto. Isso resultou em “A luta corporal - um livro em que a linguagem nasce com o poema".
“A linguagem é velha, e o poema é uma coisa nova, que acabei de descobrir. A implosão da linguagem feita nesse livro, com a destruição da sintaxe, acabou se tornando um pouco a matriz da poesia concreta, que é uma poesia sem discurso, com uma sintaxe visual. Os poetas paulistas Augusto e Haroldo de Campos e Decio Pignatari me procuraram, trocamos ideias, e nasceu a poesia concreta.Mais tarde eles optaram por uma poesia matemática e romperam comigo”.
Ferreira GullarFerreira Gullar (Foto: Walter Craveiro/Divulgação)





Gullar continuou lembrando seu convívio com Mario Pedrosa ao chegar no Rio de Janeiro, em 1951. “Pedrosa defendia a arte concreta e geométrica de artistas como Max Bill, premiado na primeira Bienal de São Paulo, o que representava uma ruptura muito grande com a figuração que predominava na arte modernista brasileira”, contou Gullar. "Vieram então a arte neoconcreta e o Manifesto do Não-Objeto, que implicam a entrada do corpo numa arte que era apenas ótica e visual".
"Publiquei o projeto de um 'Poema enterrado' [um cubo dentro de outros cubos, numa sala subterrânea, contendo a palavra ‘Rejuvenesça’], então o Helio Oiticica quis materializá-lo na casa do pai na Gávea Pequena, só que o pai dele não deixou. Depois, quando deixou, choveu e estragou tudo. Era o único poema com o endereço da poesia brasileira”.
Artes plásticas e literaturaIndagado sobre sua atividade como crítico de arte, Gullar disse que, antes de pensar em ser poeta, queria ser pintor. “Depois a poesia tomou conta, essas coisas a gente não governa. Mas continuo pintando e pensando sobre artes plásticas até hoje. Sobre poesia eu não penso, eu simplesmente faço: a minha poesia nasce do espanto. Qualquer coisa pode espantar um poeta, até um galo cantando no quintal. Arte é uma coisa imprevisível, é descoberta, é uma invenção da vida. E quem diz que fazer poesia é um sofrimento está mentindo: é bom, mesmo quando se escreve sobre uma coisa sofrida. A poesia transfigura as coisas, mesmo quando você está no abismo. A arte existe porque a vida não basta”.
Ferreira GullarFerreira Gullar (Foto: Walter Craveiro/Divulgação)





Gullar aproveitou então para criticar certa atitude que prevalece entre artistas. "A vanguarda é que nem o terrorismo, ninguém pode botar o galho dentro. Na Bienal de São Paulo, qualquer bobagem tem que ser aceita, porque quem fala mal é visto como sendo de retaguarda”.
O escritor  também falou sobre a poesia de cordel que escreveu na época da repressão política. “Comecei a entrar em crise com a poesia espacial que estava fazendo, porque sempre questiono o que faço. Li um livro de Jean-Yves Calvet e me engajei no marxismo e na luta política e participei do CPC da UNE. Mas era uma ação muito mais política que literária. No dia do golpe militar eu entrei para o Partido Comunista, numa reunião da casa do Carlinhos Lyra, porque queria participar da resistência contra o regime. Era uma coisa que tinha que ser feita, não havia bravura nisso”.
Veio então o Grupo Opinião, em Copacabana, que encenou diversos espetáculos num espaço improvisado em Copacabana. “O golpe nos mostrou o quanto é difícil transformar o mundo, e isso serviu também para a minha literatura. E, em seguida, com a radicalização política e o aumento da repressão, o exílio".
'Poema sujo'“Pessoas à minha volta eram presas e torturadas, e como eu era da direção do partido, tive que sair do país. Fui para a União Soviética, o Chile de Allende, depois a Argentina. Com a morte de Perón, voltei a ficar numa situação terrível, sem passaporte, e nessa situação escrevi 'Poema sujo', para registrar tudo o que me restava a dizer", relembrou Gullar.
Ferreira GullarFerreira Gullar (Foto: Walter Craveiro/Divulgação)





"Nessa época Vinicius de Moraes foi a Buenos Aires fazer um show, e n os reunimos com Augusto Boal, que também estava exilado em Buenos Aires. Boal falou sobre o 'Poema sujo' e eu o li para umas 20 pessoas, na casa do Boal.Vinicius gravou minha leitura e levou para o Brasil, e o poema foi sendo divulgado assim, clandestinamente, até que Enio Silveira, editor da Civilização Brasileira, quis publicá-lo, e fez uma noite de autógrafos sem o autor”.
Gullar leu então um trecho de 'Poema sujo' e foi aplaudido por mais de um minuto, num dos momentos mais intensos da FLIP 2010.
Em alguma parte alguma sucede os livros Barulhos (1987) e Muitas vozes (1999), o que dá uma média de um livro de poemas por década. “Eu escrevo muito pouco, sem espanto eu não escrevo. Às vezes passo meses sem escrever, não depende da minha vontade. Mas quando a poesia vem é muito gratificante”.

terça-feira, 10 de março de 2015

"Acordar é ter saída" Mia Couto - Aula Magna UFRGS - 2014

Acordo fora de mim
como há tempos não fazia
Acordo claro, de todo,
acordo com toda a vida,
com todos cinco sentidos
e sobretudo com a vista
que dentro desta prisão
para mim não existia.
Acordo fora de mim
como vida apodrecida.
Acordar não é de dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é reacordar-se
ao que em nosso redor gira.

JOÃO CABRAL DE MELO NETO
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Mia Couto - Aula Magna UFRGS - 2014
(trechos)

https://www.youtube.com/watch?v=IZtc11Bn0M0&feature=youtu.be&t=5m5s

"O importante não é onde moramos, mas onde em nós a casa mora"

"E o que restou deste encantamento que me roubava do mundo foi essa memória, que mesmo sendo ilusória, é a grande verdade que eu mantenho e na qual eu me converto em escritor:  Sou filho de imigrantes, mas sou sobretudo filho de histórias"

"De que vale ter memórias, se o que eu mais vivi foi o que nunca se passou?"


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Não vim aqui para lhes transmitir ideias sob uma posição professoral.

O que vou tentar fazer é transmitir vivências. Vivencias onde o tempo tomou posse de mim e eu vivi esses momentos como se o verbo viver, não fosse um verbo suficiente, não fosse bastante. Essas lembranças destes tempos habitam hoje como se fossem sonhos. Como se fossem os únicos sonhos a que eu tenho acesso. E aí, acho que cheguei a entender uma coisa: não somos nós que guardamos lembranças. É o contrário: as lembranças é que nos guardam.

Essas coisas que são as memórias, que parecem etéreas e fragmentadas, elas são uma costureira que constrói, que tece, essa totalidade que é a nossa alma.

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O que falamos dos nossos sonhos são reelaborações feitas ao mesmo tempo que revisitamos esses sonhos. Reescrevemos aquilo que pensamos ter sonhado; porque afinal, nenhum sonho pode ser descrito.

O sonho pede uma linguagem que não há; que é a linguagem dos sonhos.
E aí, só a poesia pode entreabrir essa porta...

Estou falando do sonho porque o sonho é um parente próximo, muito próximo, da memória.

Os sonhos só existem na impossível lembrança que temos deles. Ninguém se lembra exatamente do que sonhou, porque em grande parte todos nós sonhamos o que lembramos.

Tal como os sonhos, não existem fatos (como vulgarmente os chamamos).

Existem vivências, que criam uma ideia da realidade, que são como impressões digitais que inventam o resto do dedo. Os chamados "fatos" precisam se converter em histórias, para que a memória os adote como uma coisa sua. As memórias e as histórias são duas margens liquidas de um mesmo rio que é o nosso tempo interior.

Portanto, eu estou falando do tempo; de uma ideia de tempo, de um tempo que foi meu e em mim se semeou como uma certeza.

Nós somos muito amarrados a um tempo linear que não é o que se passa em Moçambique. Lá o futuro e o passado se enlaçam.

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Quando eu era menino, meu pai me dizia como uma profecia: "Estuda para ser alguém".

Era isso que meu pai me dizia quando eu era menino. Mas quando meu pai falava assim, ele não falava diretamente comigo, ele falava com o futuro.

E nesse tempo havia um futuro que escutava, um futuro que falava a nossa língua, e que estava ali a nossa disposição. Porque era um tempo em que o futuro era uma fé, uma espécie de aposta, de sacrifício, um valor de investimento...

Houve alguma coisa que se passou que nos roubou essa ideia do futuro como um aconchego familiar. Essa mesma coisa não só roubou o futuro, mas rasgou-nos do passado, como se o passado fosse uma coisa desvalida.

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Uma dia desses eu passeava com um dos meus netos, e derrepente uma cobra atravessou o nosso caminho. O menino não ficou muito assustado e disse-me uma coisa extraordinária... Apontou a cobra e disse: " Olha esse bicho que só tem pescoço!". Bom, isso é poesia né... isso é poesia pura.

Então, acho que o tempo é hoje um bicho que só tem pescoço: comeram-lhe a cabeça e arrancaram-lhe a cauda. E essa dupla amputação, foi praticada por isso que nós chamamos de "sociedade do efêmero". Nela, tudo o que nasce, já nasce transitório, já nasce morrendo, à espera da ultima versão, de algo mais leve, de algo mais veloz, mais atualizado. Nós estamos correndo uma espécie de corrida infrutífera para não ficarmos desatualizados. Então, vivemos nesse tempo em que tudo é simultâneo, tudo é imediato, tudo é voraz, tudo é volátil.

Mas, como isso aconteceu?
Eu acho que foi uma coisa que se chama de "mercado" (que é um nome terrível por não ter rosto). Esse mercado impôs-nos um outro tempo: um tempo do consumo, um tempo que se consome a si próprio e consome a nós mesmos.

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Nós lamentamos sempre que não temos tempo.

As vezes me perguntam "como é que você escreve?".
[ Porque eu trabalho,  e tenho horário de trabalho. ]

Mas eu acho que nós não precisamos de mais tempo. Nós precisamos de um tempo que seja nosso. Portanto não é uma questão de quantidade, é uma questão de soberania. E nesse tempo que seja nosso, nós temos que encontrar a intimidade com as coisas que nos sejam próximas. Com as pessoas que nós amamos. E isso pede uma lentidão, um tempo próprio.

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Hoje em dia há a impressão de que quando estamos vivendo almo muito intenso, em família por exemplo, a primeira preocupação não é viver isso de uma maneira completamente aberta e disponível, mas sim registrar o acontecimento em uma imagem, em uma fotografia, em um vídeo.

Quando eu estou em casa em família e acontece uma coisa extraordinária, há sempre uma voz que se levanta e diz: "Alguém está gravando isso?"

Eu não quero fazer apologia a uma espécie de regressão nostálgica. É obvio que estas tecnologias têm suas vantagens. Mas a questão é saber se nós continuamos a ser sujeitos, autores dessa narrativa que é a nossa própria vida.

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Essas lembranças que compartilhei aqui não são uma coisa do passado.  Foi nesse passado que eu carreguei minha alma do futuro, que eu investi. E falei desses episódios porque acho que neles estão um ideário, uma espécie de um programa que eu tenho naquilo que é a minha intervenção cívica. Porque eu lembro as histórias que meus pais contavam, a casa em que eu vivia, a cozinha em que eu fui menino e a rua em que eu fui mundo. E é como se isso me desse uma relação em que eu peço ao mundo que ele tenha sempre um rosto, um nome, uma voz.

Essas lembranças fazem pensar como é importante nós restituirmos essa presença corporal quando contamos histórias as crianças.

Eu não nego que as crianças tenham essa relação com a máquina que conta histórias, com a televisão, com o tablet, com o computador...

Mas essas máquinas não podem ser as únicas exclusivas contadoras de histórias. É preciso que regressemos e re-humanizemos esse momento em que nós estamos com a presença física, com esse afeto que só pode ser trazido com a presença corporal, e que torna esse momento mais único e irrepetível. (Com os nossos pais a gente não pode voltar a trás com o controle remoto...)  

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Eu acredito no poder das histórias. Eu acredito que as histórias não salvam o mundo, mas elas podem incutir o desejo da utopia e de um mundo em mudança.
A gente pensa que contar histórias é uma competência dos escritores, mas não é. Todos nós somos produtores e somos produtos de pequenas histórias. Essas histórias devolvem-nos o encantamento da infância, afastam o medo e reiniciam o mundo. E mais do que reiniciar o mundo, elas criam um mundo em estado de infância (um mundo que está ainda nascendo). E por isso, mais que tudo, o próprio passado pode estar ainda nascendo.

E a nós, compete cumprir aquilo que profetizou o poeta João Cabral de Melo Neto quando ele diz: é preciso acordar,

Acordar para ter saída, dentro e fora das nossas vidas.

domingo, 1 de março de 2015

O Caso do Vestido (ou) Fenomenologia Multirreferencial

O Caso do Vestido 

(ou) 

Fenomenologia Multirreferencial







Quais as cores do vestido da foto acima? Algumas pessoas dizem que é azul e preto. Outras juram que é branco e dourado. Há quem diga que olhou a foto pela primeira vez e viu azul e preto. Mais tarde, ao olhar novamente, viu um vestido branco e dourado!
Essa foto ficou famosa na internet entre ontem (quinta-feira) e hoje (sexta-feira). A usuária Skiwed do Tumblr publicou a imagem e logo as pessoas começaram a comentar sobre as cores da roupa. Mas os comentários não batiam! E criaram um verdadeiro paradoxo das cores. Não demorou muito para a foto se tornar o principal assunto nas redes.
Que cores você vê quando olha a imagem do vestido? Deixe o seu comentário aqui no blog.
Aproveito a polêmica para tentar dar uma explicação científica para o paradoxo das cores do vestido. Acompanhe o raciocínio a seguir.

A “leitura'' das cores na câmera fotográfica

Antes de tudo, uma foto é apenas uma “leitura muito particular'' que um equipamento (câmera fotográfica) faz da realidade. Antigamente era um filme fotográfico que registrava a imagem. Hoje em dia são sensores digitais baseados no efeito fotoelétrico .
Essa “leitura'' da realidade, seja feita por um filme ou por um sensor fotoelétrico, nem sempre é tão real. Todo mundo já deve ter tido a experiência de tirar uma foto e ela sair amarelada ou azulada demais. Nas câmeras digitais, a grande vantagem é que dá para ver a imagem capturada praticamente em tempo real e já compará-la com a realidade, sem precisar revelar o filme e imprimir a foto em papel.
Uma imagem fotografada depende de vários fatores, em especial da iluminação ambiente. É comum nas câmeras digitais a opção de escolher o tipo de luz ambiente. O software da câmera geralmente possui diferentes calibragens. Há, por exemplo, uma calibragem específica para a luz solar, também conhecida como luz branca real, aquela que é uma mistura de todas cores visíveis do vermelho ao violeta. Há outra calibragem para iluminação com lâmpadas fluorescentes que tendem a esfriar as cores, deixando-as azuladas. E assim por diante.
Em câmeras digitais com mais recursos, existe ainda a calibragem de branco. O fotógrafo mira uma superfície que tem certeza que é branca e faz uma amostra (captura). A amostra de branco pode sair amarelada, azulada, avermelhada… Mas o software da câmera é informado de que aquele padrão de amostra é o branco real. Pelo padrão de branco, o sistema faz uma recalibragem em todas as cores. A partir daí, as cores registradas passam a ser bem mais fiéis à realidade. Sem essa calibragem inicial, há sempre o risco de uma foto não ter muito a ver com aquilo que o fotógrafo estava vendo. Suspeito que a foto do vestido padeça desse problema. A informação é que o vestido, na realidade, tem faixas em azul escuro intercaladas com faixas em marrom escuro, quase preto. Certamente a captura tem problemas de “leitura'' de cores.

A “leitura'' das cores nos nossos olhos

No caso dos nossos olhos, são os cones e bastonetes, células nervosas que ficam na retina, no fundo do globo ocular, que fazem o registro da imagem. Os cones são especializados em detectar as diferentes cores. Já os bastonetes não diferenciam cores mas, capturando mais e mais luz (a rigor mais fótons), conseguem melhorar o brilho nas imagens.
Mas tem um detalhe importantíssimo: não vemos apenas com os olhos! Os olhos, pela córnea e pelo cristalino, as duas lentes convergentes que possuem, formam uma imagem sobre a retina que é registrada pelos cones e bastonetes. Impulsos nervosos levam informações dessa imagem para o cérebro. E é o cérebro quem vai tentar entender o que estamos vendo.
A imagem óptica no fundo do olho é bastante objetiva e de muito boa qualidade. O cérebro (e seu “software'') é quem pode mudar tudo. É que o cérebro sempre dá uma de sabidinho e tenta adivinhar as coisas. Mas numa dessas, como todo metido a sabidinho, pode dar suas bolas fora.
Quando vemos uma foto, como a do vestido, se o cérebro “entende'' que ela foi feita em baixas condições de iluminação, naturalmente tenta “clareá-la''. O cérebro dá brilho na imagem por conta própria. Mas o cérebro também pode “entender'' que a imagem foi feita com luz intensa. Nesse caso, vai no sentido oposto e tenta “escurecer'' a imagem.
Para quem olha a foto do vestido e acha que ele é azul e preto, é que o cérebro, por conta própria, deu uma escurecida na imagem. Já para quem vê um vestido branco e dourado, o cérebro deu uma clareada na imagem.
Para entender melhor como é isso, montei o infográfico abaixo. Tirei três amostras de algumas regiões do vestido da foto.  Na amostra da esquerda, marcada com um sinal (-), escureci a imagem, tirando brilho através de um software. A amostra do meio é a original, apenas um pedaço da foto, sem tratamento. Na amostra da direita, com um sinal (+), aumentei o brilho da imagem que ficou mais clara.

Note que o azul da imagem original, quando clareado, parece branco. Mas, quando escurecido, parece ser azul bem forte. Já o marrom original, escurecido, fica quase preto. Mas clareado lembra bastante um tom de dourado. O que eu fiz nas amostras acima, usando um software instalado no computador, é mais ou menos que o cérebro faz com a informação que recebe da retina via impulsos nervosos. O cérebro usa o próprio “software'' dele que, infelizmente, não vem com manual de instruções. E por isso mesmo nos prega peças!

Outra ilusão, e mais uma vez o cérebro nos enganando

A famosa ilusão de óptica abaixo mostra a silhueta de uma garota girando. Algumas pessoas juram que a garota gira no sentido horário. Outras, ao contrário, acreditam que o giro é no sentido anti-horário. Uma mesma pessoa, se desviar o olhar e voltar a olhar para a imagem, pode mudar de ideia!

O que o seu cérebro vê? Giro horário ou anti-horário?
A explicação é simples. Como se trata de uma silhueta, não conseguimos saber qual perna da garota (direita ou esquerda) está na frente . Essa informação é decisiva para sabermos se o giro é horário ou anti-horário. O cérebro, espertinho, sempre querendo saber e entender de tudo, arrisca uma resposta. E se baseia nela daí por diante.
No caso das cores do vestido, ao receber a imagem, na dúvida, o cérebro “chuta'' mais brilho ou menos brilho. Logo, a interpretação de diferentes pessoas para a mesma imagem, cada qual com o seu próprio cérebro, pode variar e criar um paradoxo!
Fonte: http://fisicanaveia.blogosfera.uol.com.br/2015/02/27/qual-e-a-cor-do-vestido/

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Carona no vestido

Fevereiro 27, 2015 § Deixe o seu comentário
Fonte: https://ciencianamidia.wordpress.com/2015/02/27/carona-no-vestido/

Achei a desculpa perfeita para tirar a poeira do blog: vou pegar carona no vestido de cor ambígua (se não sabe do que estou falando, veja aqui já com resultado da enquete sobre o que as pessoas enxergam). Não, esta não será mais uma tentativa de explicar o que acontece do ponto de vista da ciência. Já há ótimas (e complementares) explicações aqui, aqui e aqui. Se ficar com preguiça de ler os textos, a resposta curta é: quem enxerga é o cérebro, não os olhos. E isso pode causar alguma confusão… Este vídeo tem um ótimo resumo (outro um pouco mais detalhado aqui):
Mas a real dúvida é: por que isso virou uma febre na internet? Só achei uma boa reflexão a respeito, no blog do psiquiatra Daniel Barros. Tive a mesma dúvida que ele e concordo com tudo o que ele colocou. Mas para mim a dúvida ainda persiste. Por que esse caso específico “bombou”? Há tantas figuras de ilusão visual, como a usada no vídeo acima para comparador (que é o mesmo caso desta outra) ou as várias outras apontadas nos textos linkados acima. Por que o efeito de manada se manifestou com essa história do vestido? O que tinha de especial aí para um monte de gente resolver prestar atenção nisso com ênfase bem diferente do que prestaria (se prestasse) atenção nos outros casos similares, também divulgados na internet? Ou seja, o que explica um viral na internet, qual a lógica disso, se houver alguma? Psicólogos e publicitários, por favor nos esclareçam!
Atualização: mais ilusões visuais de um jeito muito divertido! Vamos viralizá-las
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THE SCIENCE OF WHY NO ONE AGREES ON THE COLOR OF THIS DRESS

Fonte: http://www.wired.com/2015/02/science-one-agrees-color-dress/

The original image is in the middle. At left, white-balanced as if the dress is white-gold. At right, white-balanced to blue-black.
The original image is in the middle. At left, white-balanced as if the dress is white-gold. At right, white-balanced to blue-black.  swiked
NOT SINCE MONICA Lewinsky was a White House intern has one blue dress been the source of so much consternation.

(And yes, it’s blue.)

The fact that a single image could polarize the entire Internet into two aggressive camps is, let’s face it, just another Thursday. But for the past half-day, people across social media have been arguing about whether a picture depicts a perfectly nice bodycon dress as blue with black lace fringe or white with gold lace fringe. And neither side will budge. This fight is about more than just social media—it’s about primal biology and the way human eyes and brains have evolved to see color in a sunlit world.

Light enters the eye through the lens—different wavelengths corresponding to different colors. The light hits the retina in the back of the eye where pigments fire up neural connections to the visual cortex, the part of the brain that processes those signals into an image. Critically, though, that first burst of light is made of whatever wavelengths are illuminating the world, reflecting off whatever you’re looking at. Without you having to worry about it, your brain figures out what color light is bouncing off the thing your eyes are looking at, and essentially subtracts that color from the “real” color of the object. “Our visual system is supposed to throw away information about the illuminant and extract information about the actual reflectance,” says Jay Neitz, a neuroscientist at the University of Washington. “But I’ve studied individual differences in color vision for 30 years, and this is one of the biggest individual differences I’ve ever seen.” (Neitz sees white-and-gold.)






Usually that system works just fine. This image, though, hits some kind of perceptual boundary. That might be because of how people are wired. Human beings evolved to see in daylight, but daylight changes color. That chromatic axis varies from the pinkish red of dawn, up through the blue-white of noontime, and then back down to reddish twilight. “What’s happening here is your visual system is looking at this thing, and you’re trying to discount the chromatic bias of the daylight axis,” says Bevil Conway, a neuroscientist who studies color and vision at Wellesley College. “So people either discount the blue side, in which case they end up seeing white and gold, or discount the gold side, in which case they end up with blue and black.” (Conway sees blue and orange, somehow.)

We asked our ace photo and design team to do a little work with the image in Photoshop, to uncover the actual red-green-blue composition of a few pixels. That, we figured, would answer the question definitively. And it came close.

In the image as presented on, say, BuzzFeed, Photoshop tells us that the places some people see as blue do indeed track as blue. But…that probably has more to do with the background than the actual color. “Look at your RGB values. R 93, G 76, B 50. If you just looked at those numbers and tried to predict what color that was, what would you say?” Conway asks.


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So…kind of orange-y?



“Right,” says Conway. “But you’re doing this very bad trick, which is projecting those patches on a white background. Show that same patch on a neutral black background and I bet it would appear orange.” He ran it through Photoshop, too, and now figures that the dress is actually blue and orange.

The point is, your brain tries to interpolate a kind of color context for the image, and then spits out an answer for the color of the dress. Even Neitz, with his weird white-and-gold thing, admits that the dress is probably blue. “I actually printed the picture out,” he says. “Then I cut a little piece out and looked at it, and completely out of context it’s about halfway in between, not this dark blue color. My brain attributes the blue to the illuminant. Other people attribute it to the dress.”

Even WIRED’s own photo team—driven briefly into existential spasms of despair by how many of them saw a white-and-gold dress—eventually came around to the contextual, color-constancy explanation. “I initially thought it was white and gold,” says Neil Harris, our senior photo editor. “When I attempted to white-balance the image based on that idea, though, it didn’t make any sense.” He saw blue in the highlights, telling him that the white he was seeing was blue, and the gold was black. And when Harris reversed the process, balancing to the darkest pixel in the image, the dress popped blue and black. “It became clear that the appropriate point in the image to balance from is the black point,” Harris says.

So when context varies, so will people’s visual perception. “Most people will see the blue on the white background as blue,” Conway says. “But on the black background some might see it as white.” He even speculated, perhaps jokingly, that the white-gold prejudice favors the idea of seeing the dress under strong daylight. “I bet night owls are more likely to see it as blue-black,” Conway says.

At least we can all agree on one thing: The people who see the dress as white are utterly, completely wrong.





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Caso do Vestido

Carlos Drummond de Andrade



Nossa mãe, o que é aquele
vestido, naquele prego?

Minhas filhas, é o vestido
de uma dona que passou.

Passou quando, nossa mãe?
Era nossa conhecida?

Minhas filhas, boca presa.
Vosso pai evém chegando.

Nossa mãe, dizei depressa
que vestido é esse vestido.

Minhas filhas, mas o corpo
ficou frio e não o veste.

O vestido, nesse prego,
está morto, sossegado.

Nossa mãe, esse vestido
tanta renda, esse segredo!

Minhas filhas, escutai
palavras de minha boca.

Era uma dona de longe,
vosso pai enamorou-se.

E ficou tão transtornado,
se perdeu tanto de nós,

se afastou de toda vida,
se fechou, se devorou,

chorou no prato de carne,
bebeu, brigou, me bateu,

me deixou com vosso berço,
foi para a dona de longe,

mas a dona não ligou.
Em vão o pai implorou.

Dava apólice, fazenda,
dava carro, dava ouro,

beberia seu sobejo,
lamberia seu sapato.

Mas a dona nem ligou.
Então vosso pai, irado,

me pediu que lhe pedisse,
a essa dona tão perversa,

que tivesse paciência
e fosse dormir com ele...

Nossa mãe, por que chorais?
Nosso lenço vos cedemos.

Minhas filhas, vosso pai
chega ao pátio.  Disfarcemos.

Nossa mãe, não escutamos
pisar de pé no degrau.

Minhas filhas, procurei
aquela mulher do demo.

E lhe roguei que aplacasse
de meu marido a vontade.

Eu não amo teu marido,
me falou ela se rindo.

Mas posso ficar com ele
se a senhora fizer gosto,

só pra lhe satisfazer,
não por mim, não quero homem.

Olhei para vosso pai,
os olhos dele pediam.

Olhei para a dona ruim,
os olhos dela gozavam.

O seu vestido de renda,
de colo mui devassado,

mais mostrava que escondia
as partes da pecadora.

Eu fiz meu pelo-sinal,
me curvei... disse que sim.

Sai pensando na morte,
mas a morte não chegava.

Andei pelas cinco ruas,
passei ponte, passei rio,

visitei vossos parentes,
não comia, não falava,

tive uma febre terçã,
mas a morte não chegava.

Fiquei fora de perigo,
fiquei de cabeça branca,

perdi meus dentes, meus olhos,
costurei, lavei, fiz doce,

minhas mãos se escalavraram,
meus anéis se dispersaram,

minha corrente de ouro
pagou conta de farmácia.

Vosso pais sumiu no mundo.
O mundo é grande e pequeno.

Um dia a dona soberba
me aparece já sem nada,

pobre, desfeita, mofina,
com sua trouxa na mão.

Dona, me disse baixinho,
não te dou vosso marido,

que não sei onde ele anda.
Mas te dou este vestido,

última peça de luxo
que guardei como lembrança

daquele dia de cobra,
da maior humilhação.

Eu não tinha amor por ele,
ao depois amor pegou.

Mas então ele enjoado
confessou que só gostava

de mim como eu era dantes.
Me joguei a suas plantas,

fiz toda sorte de dengo,
no chão rocei minha cara,

me puxei pelos cabelos,
me lancei na correnteza,

me cortei de canivete,
me atirei no sumidouro,

bebi fel e gasolina,
rezei duzentas novenas,

dona, de nada valeu:
vosso marido sumiu.

Aqui trago minha roupa
que recorda meu malfeito

de ofender dona casada
pisando no seu orgulho.

Recebei esse vestido
e me dai vosso perdão.

Olhei para a cara dela,
quede os olhos cintilantes?

quede graça de sorriso,
quede colo de camélia?

quede aquela cinturinha
delgada como jeitosa?

quede pezinhos calçados
com sandálias de cetim?

Olhei muito para ela,
boca não disse palavra.

Peguei o vestido, pus
nesse prego da parede.

Ela se foi de mansinho
e já na ponta da estrada

vosso pai aparecia.
Olhou pra mim em silêncio,

mal reparou no vestido
e disse apenas: — Mulher,

põe mais um prato na mesa.
Eu fiz, ele se assentou,

comeu, limpou o suor,
era sempre o mesmo homem,

comia meio de lado
e nem estava mais velho.

O barulho da comida
na boca, me acalentava,

me dava uma grande paz,
um sentimento esquisito

de que tudo foi um sonho,
vestido não há... nem nada.

Minhas filhas, eis que ouço
vosso pai subindo a escada.



+

Maurice Merleau-Ponty - (Fenomenologia da percepção)
Gaston Bachelard

Humberto Maturana

Jakob von Uexküll

Martin Heidegger

Jean‑Paul Sartre

Baruch Espinoza

Gilles Deleuze




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(O oposto)

Red Balloon by onetimeblind
https://www.youtube.com/watch?v=D2Flgdwlqz0



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Pusemo-nos a destrinchar o processo da vida com nossas tesouras de pesquisa. Fomos do organismo para o órgão, do órgão ao tecido, do tecido à célula, até chegarmos à molécula de DNA em seu ambiente celular. Continuamos a picotar. Decompusemos o DNA. Decompusemos o ambiente. Com surpresa, descobrimos que a vida desapareceu. Para onde ela foi?

Schwartz, 1992


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Contribuições epistemológicas da abordagem multirreferencial para a compreensão dos fenômenos educacionais João Batista Martins Universidade Estadual de Londrina, Departamento de Psicologia Social e Institucional
http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n26/n26a06.pdf



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Etnometodologia multirreferencial: contribuições teórico-epistemológicas para a formação do professor-pesquisador Sílvia Maria Costa Barbosa* Joaquim Gonçalves Barbosa**

O objetivo do presente texto é debater a importância da abordagem multirreferencial no contexto da pesquisa na educação e da formação do professor-pesquisador. Trata-se de uma proposição instigante e audaciosa ao romper com os modelos positivistas de realizar pesquisa nas ciências humanas e sociais. De um lado, consideramos Jacques Ardoino, criador dessa abordagem, que assume “a hipótese da complexidade, e até da hipercomplexidade, da realidade a respeito da qual nos questionamos”; de outro, somamos com as contribuições da etnometodologia, numa perspectiva denominada etnopesquisa-crítica por Roberto Macedo, com vistas a contribuir para a formação do professor-pesquisador de modo a não engessá-lo em rígidas posições teóricas e encaminhamentos metodológicos que o destituem da condição de sujeito diante da prática na qual se encontra imerso. 


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Corpo, percepção e conhecimento em Merleau-Ponty 
Terezinha Petrucia da Nóbrega Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Com base nos estudos da ciência da sua época, Merleau-Ponty interroga a respeito das análises sobre o sistema nervoso e os postulados clássicos sobre a condução do impulso elétrico, sobre o circuito reflexo, envolvendo estimulação e reação, sobre o campo perceptivo e sobre a questão da localização cerebral, sendo insuficiente a correspondência pontual, própria da tradição atomista, entre o excitante, o mapa cerebral e a reação. Essa revisão conduz a uma nova compreensão da percepção que se aproxima das ciências cognitivas contemporâneas. Este artigo, fruto de um estudo teórico sobre a fenomenologia de Merleau-Ponty, tem como objetivo apresentar essa revisão conceitual sobre a percepção, o diálogo com a arte e a ciência, configurando noções e conceitos em torno de uma fenomenologia do conhecimento.

http://www.scielo.br/pdf/epsic/v13n2/06.pdf

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Contribuições de Merleau-Ponty para a Psicologia em “Fenomenologia da percepção”
Maria Virginia Filomena Cremasco

Universidade Federal do Paraná
Apresenta sucintamente algumas contribuições para a Psicologia da tese de Doutorado de Merleau-Ponty de 1945, intitulada “Fenomenologia da Percepção”. Merleau-Ponty se propõe a descobrir as significações originárias como uma trajetória em direção à compreensão humana. Na sua proposta, a racionalidade é trazida à ciência, preservando o sujeito e o objeto, ou seja, encontrando no mundo de fato o que ele é e quais percepções podem ser confirmadas ou negadas. Merleau-Ponty recoloca a questão transcendental de Husserl, pois a partir do natural e do social, descobrimos a ambiguidade da vida, de estar ‘no’ mundo e sermos ‘do’ mundo; solicitados por ele e livre para escolhermos. Aponta-se contribuições para a psicologia baseadas na visão de Merleau-Ponty sobre a organização do campo perspectivo efetuada pelo corpo-sujeito em situação.
Palavras-chave: Fenomenologia; Psicologia; Crise das ciências.

Este ensaio consiste na prova teórica da autora para o Concurso para Professor Adjunto do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Paraná, em junho de 2002. 



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A SUBJETIVIDADE COMO CORPOREIDADE: o corpo na fenomenologia de Merleau-Ponty

Alice Casanova dos Reis

A partir da constatação de que o homem está corporalmente inserido no mundo, ou seja, de que suas relações com as outras pessoas e com os objetos são mediadas primordialmente pelo corpo, o presente trabalho tem como objetivo refletir sobre as possíveis relações entre o corpo e a subjetividade, baseando-se na fenomenologia de Merleau-Ponty. Para tanto, baseia-se principalmente nas idéias do autor acerca do corpo que se encontram na sua obra de maior repercussão: a Fenomenologia da Percepção. São analisados os conceitos de corpo-vivido, motricidade do corpo, corpo como expressão e corpo como obra de arte, articulando-os à questão da subjetividade. Conclui-se que a concepção de corpo em Merleau-Ponty desloca a subjetividade da interioridade para a corporeidade, instigando-nos a repensar a subjetividade como um processo aberto que se concretiza no corpo, a partir das suas vivências, seus movimentos, suas percepções, suas expressões e suas criações. Palavras-chave: subjetividade, corpo, Merleau-Ponty.

http://www.cchla.ufrn.br/Vivencia/sumarios/37/PDF%20para%20INTERNET_37/02_Alice%20Casanova%20dos%20Reis.pdf

No se puede vivir a través de la experiencia de los otros - Carta de Khalil Gibrán a Mary Haskell

Carta de Khalil Gibrán a Mary Haskell

Para vivir es necesario coraje. Tanto la semilla intacta como la que rompe su cáscara tienen las mismas propiedades. Sin embargo, sólo la que rompe su cáscara es capaz de lanzarse a la aventura de la vida. Esta aventura requiere una única osadía: descubrir que no se puede vivir a través de la experiencia de los otros, y estar dispuesto a entregarse. No se puede tener los ojos de uno, los oídos de otro, para saber de antemano lo que va a ocurrir; cada existencia es diferente de la otra. 

No importa lo que me espera, yo deseo estar con el corazón abierto para recibir. Que yo no tenga miedo de poner mi brazo en el hombro de alguien, hasta que me lo corten. Que yo no tema hacer algo que nadie hizo antes. Déjenme ser tonto hoy, porque la tontería es todo lo que tengo para dar esta mañana; me pueden reprender por eso, pero no tiene importancia. Mañana, quién sabe, yo seré menos tonto. 

Cuando dos personas se encuentran, deben ser como dos lirios acuáticos, que se abren de lado a lado cada una mostrando su corazón dorado, y reflejando el lago, las nubes y los cielos. No logro entender por qué un encuentro genera siempre lo contrario de esto: Corazones cerrados y temor a los sufrimientos.

Cada vez que estamos juntos, conversamos durante varias horas seguidas. Si pretendemos pasar juntos todo ese tiempo, es importante no tratar de esconder nada... y mantener los pétalos bien abiertos.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

(Anti) autoajuda


Antiautoajuda: Neste mundo, sentir-se mal é sinônimo de excelente saúde mental


Fonte: http://www.contioutra.com/antiautoajuda-neste-mundo-sentir-se-mal-e-sinonimo-de-excelente-saude-mental/
“É no cinema e na literatura que nos enternecemos e derrubamos nossas lágrimas ao testemunhar as sutilezas que esquecemos de enxergar ou não somos capazes de enxergar nos nossos dias de autômatos. Os personagens da ficção têm mais carne que nós, precisamos deles para nos lembrar de quem somos. Os robôs já estão aí, temos agora de reinventar os humanos.” Eliane Brum em A delicadeza dos dias

NOTA da CONTI outra: É com a frase acima que a jornalista e escritora Eliane Brum define no artigoA delicadeza dos dias a fuga que, muitos de nós, ainda encontramos no mundo das artes. Busca-se algo com o quem se identificar, onde aliviar o mal estar constante que, dia a dia, mina o encanto pela vida e pela existência.
É assustador que, ao contrário de inspirar, a arte tenha se tornado rota de fuga existencial. No texto que transcrevo abaixo, a autora segue na construção do raciocínio sobre o mal estar geral da humanidade com outra crítica relevante, a necessidade da antiautoajuda e do enfrentamento do mal estar no sentido de impacto com a realidade.
As ilustrações que selecionamos para acompanhar o texto são de John Holcroft e falam por si.
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Antiautoajuda para 2015

Por Eliane Brum
Em defesa do mal-estar para nos salvar de uma vida morta e de um planeta hostil. Chega de viver no modo avião
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Não tenho certeza se esse ano vai acabar. Tenho uma convicção crescente de que os anos não acabam mais. Não há mais aquela zona de transição e a troca de calendário, assim como de agendas, é só mais uma convenção que, se é que um dia teve sentido, reencena-se agora apenas como gesto esvaziado. Menos a celebração de uma vida que se repactua, individual e coletivamente, mais como farsa. E talvez, pelo menos no Brasil, poderíamos já afirmar que 2013 começou em junho e não em janeiro, junto com as manifestações, e continua até hoje. Mas esse é um tema para outra coluna, ainda por ser escrita. O que me interessa aqui é que nossos rituais de fim e começo giram cada vez mais em falso, e não apenas porque há muito foram apropriados pelo mercado. Há algo maior, menos fácil de perceber, mas nem por isso menos dolorosamente presente. Algo que pressentimos, mas temos dificuldade de nomear. Algo que nos assusta, ou pelo menos assusta a muitos. E, por nos assustar, em vez de nos despertar, anestesia. Talvez para uma época de anos que, de tão acelerados, não terminam mais, o mais indicado seja não resoluções de ano-novo nem manuais sobre ser feliz ou bem sucedido, mas antiautoajuda.
Quando as pessoas dizem que se sentem mal, que é cada vez mais difícil levantar da cama pela manhã, que passam o dia com raiva ou com vontade de chorar, que sofrem com ansiedade e que à noite têm dificuldade para dormir, não me parece que essas pessoas estão doentes ou expressam qualquer tipo de anomalia. Ao contrário. Neste mundo, sentir-se mal pode ser um sinal claro de excelente saúde mental. Quem está feliz e saltitante como um carneiro de desenho animado é que talvez tenha sérios problemas. É com estes que deveria soar uma sirene e por estes que os psiquiatras maníacos por medicação deveriam se mobilizar, disparando não pílulas, mas joelhaços como os do Analista de Bagé, do tipo “acorda e se liga”. É preciso se desconectar totalmente da realidade para não ser afetado por esse mundo que ajudamos a criar e que nos violenta. Não acho que os felizes e saltitantes sejam mais reais do que o Papai Noel e todas as suas renas, mas, se existissem, seriam estes os alienados mentais do nosso tempo.
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John Holcroft’s work
Olho ao redor e não todos, mas quase, usam algum tipo de medicamento psíquico. Para dormir, para acordar, para ficar menos ansioso, para chorar menos, para conseguir trabalhar, para ser “produtivo”. “Para dar conta” é uma expressão usual. Mas será que temos de dar conta do que não é possível dar conta? Será que somos obrigados a nos submeter a uma vida que vaza e a uma lógica que nos coisifica porque nos deixamos coisificar? Será que não dar conta é justamente o que precisa ser escutado, é nossa porção ainda viva gritando que algo está muito errado no nosso cotidiano de zumbi? E que é preciso romper e não se adequar a um tempo cada vez mais acelerado e a uma vida não humana, pela qual nos arrastamos com nossos olhos mortos, consumindo pílulas de regulação do humor e engolindo diagnósticos de patologias cada vez mais mirabolantes? E consumindo e engolindo produtos e imagens, produtos e imagens, produtos e imagens?
A resposta não está dada. Se estivesse, não seria uma resposta, mas um dogma. Mas, se a resposta é uma construção de cada um, talvez nesse momento seja também uma construção coletiva, na medida em que parece ser um fenômeno de massa. Ou, para os que medem tudo pela inscrição na saúde, uma das marcas da nossa época, estaríamos diante de uma pandemia de mal-estar. Quero aqui defender o mal-estar. Não como se ele fosse um vírus, um alienígena, um algo que não deveria estar ali, e portanto tornar-se-ia imperativo silenciá-lo. Defendo o mal-estar – o seu, o meu, o nosso – como aquilo que desde as cavernas nos mantém vivos e fez do homo sapiens uma espécie altamente adaptada – ainda que destrutiva e, nos últimos séculos, também autodestrutiva. É o mal-estar que nos diz que algo está errado e é preciso se mover. Não como um gesto fácil, um preceito de autoajuda, mas como uma troca de posição, o que custa, demora e exige os nossos melhores esforços. Exige que, pela manhã, a gente não apenas acorde, mas desperte.
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John Holcroft’s work
Anos atrás eu escreveria, como escrevi algumas vezes, que o mal-estar desta época, que me parece diferente do mal-estar de outras épocas históricas, se dá por várias razões relacionadas à modernidade e a suas criações concretas e simbólicas. Se dá inclusive por suas ilusões de potência e fantasias de superação de limites. Mas em especial pela nossa redução de pessoas a consumidores, pela subjugação de nossos corpos – e almas – ao mercado e pela danação de viver num tempo acelerado.
Sobre essa particularidade, a psicanalista Maria Rita Kehl escreveu um livro muito interessante, chamado O Tempo e o Cão (Boitempo), em que reflete de forma original sobre o que as depressões expressam sobre o nosso mundo também como sintoma social. Logo no início, ela conta a experiência pessoal de atropelar um cachorro na estrada – e a experiência aqui não é uma escolha aleatória de palavra. Kehl viu o cachorro, mas a velocidade em que estava a impedia de parar ou desviar completamente dele. Conseguiu apenas não matá-lo. Logo, o animal, cambaleando rumo ao acostamento, ficou para trás no espelho retrovisor. É isso o que acontece com as nossas experiências na velocidade ditada por essa época em que o tempo foi rebaixado a dinheiro – uma brutalidade que permitimos, reproduzimos e com a qual compactuamos sem perceber o quanto de morte há nessa conversão.
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John Holcroft’s work
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Sobre a aceleração, diz a psicanalista: “Mal nos damos conta dela, a banal velocidade da vida, até que algum mau encontro venha revelar a sua face mortífera. Mortífera não apenas contra a vida do corpo, em casos extremos, mas também contra a delicadeza inegociável da vida psíquica. (…) Seu esquecimento (do cão) se somaria ao apagamento de milhares de outras percepções instantâneas às quais nos limitamos a reagir rapidamente para em seguida, com igual rapidez, esquecê-las. (…) Do mau encontro, que poderia ter acabado com a vida daquele cão, resultou uma ligeira mancha escura no meu para-choque. (…) O acidente da estrada me fez refletir a respeito da relação entre as depressões e a experiência do tempo, que na contemporaneidade praticamente se resume à experiência da velocidade”. O que acontece com as manchas escuras, com o sangue deixado para trás, dentro e fora de nós? Não são elas que nos assombram nas noites em que ofegamos antes de engolir um comprimido? Como viver humanamente num tempo não humano? E como aceitamos ser submetidos à bestialidade de uma vida não viva?
Hoje me parece que algo novo se impõe, intimamente relacionado a tudo isso, mas que empresta uma concretude esmagadora e um sentido de urgência exponencial a todas as questões da existência. E, apenas nesse sentido, algo fascinante. A mudança climática, um fato ainda muito mais explícito na mente de cientistas e ambientalistas do que da sociedade em geral é esse algo. A evidência de que aquele que possivelmente seja o maior desafio de toda a história humana ainda não tenha se tornado a preocupação maior do que se chama de “cidadão comum” é não uma mostra de sua insignificância na vida cotidiana, mas uma prova de sua enormidade na vida cotidiana. É tão grande que nos tornamos cegos e surdos.
John Holcroft’s work
John Holcroft’s work
Em uma entrevista recente, aqui publicada como “Diálogos sobre o fim do mundo”, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro evoca o pensador alemão Günther Anders (1902-1992) para explicar essa alienação. Anders afirmava que a arma nuclear era uma prova de que algo tinha acontecido com a humanidade no momento em que se mostrou incapaz de imaginar os efeitos daquilo que se tornou capaz de fazer. Reproduzo aqui esse trecho da entrevista: “É uma situação antiutópica. O que é um utopista? Um utopista é uma pessoa que consegue imaginar um mundo melhor, mas não consegue fazer, não conhece os meios nem sabe como. E nós estamos virando o contrário. Nós somos capazes tecnicamente de fazer coisas que não somos nem capazes de imaginar. A gente sabe fazer a bomba atômica, mas não sabe pensar a bomba atômica. O Günther Anders usa uma imagem interessante, a de que existe essa ideia em biologia da percepção de fenômenos subliminares, abaixo da linha de percepção. Tem aquela coisa que é tão baixinha, que você ouve mas não sabe que ouviu; você vê, mas não sabe que viu; como pequenas distinções de cores. São fenômenos literalmente subliminares, abaixo do limite da sua percepção. Nós, segundo ele, estamos criando uma outra coisa agora que não existia, o supraliminar. Ou seja, é tão grande, que você não consegue ver nem imaginar. A crise climática é uma dessas coisas. Como é que você vai imaginar um troço que depende de milhares de parâmetros, que é um transatlântico que está andando e tem uma massa inercial gigantesca? As pessoas ficam paralisadas, dá uma espécie de paralisia cognitiva”.
O fato de se alienar – ou, como fazem alguns, chamar aqueles que apontam para o óbvio de “ecochatos”, a piada ruim e agora também velha – nem impede a corrosão acelerada do planeta nem a corrosão acelerada da vida cotidiana e interna de cada um. O que quero dizer é que, como todos os nossos gritos existenciais, o fato de negá-los não impede que façam estragos dentro de nós. Acredito que o mal-estar atual – talvez um novo mal-estar da civilização – é hoje visceralmente ligado ao que acontece com o planeta. E que nenhuma investigação da alma humana desse momento histórico, em qualquer campo do conhecimento, possa prescindir de analisar o impacto da mudança climática em curso.
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John Holcroft’s work
De certo modo, na acepção popular do termo “clima”, referindo-se ao estado de espírito de um grupo ou pessoa, há também uma “mudança climática”. Mesmo que a maioria não consiga nomear o mal-estar, desconfio que a fera sem nome abra seus olhos dentro de nós nas noites escuras, como o restante dos pesadelos que só temos quando acordados. Há esse bicho que ainda nos habita que pressente, mesmo que tenha medo de sentir no nível mais consciente e siga empurrando o que o apavora para dentro, num esforço quase comovente por ignorância e anestesia. E a maior prova, de novo, é a enormidade da negação, inclusive pelo doping por drogas compradas em farmácias e “autorizadas” pelo médico, a grande autoridade desse curioso momento em que o que é doença está invertido.
São Paulo é, no Brasil, a vitrine mais impressionante dessa monumental alienação. A maior cidade do país vem se tornando há anos, décadas, um cenário de distopia em que as pessoas evoluem lentamente entre carros e poluição, encurraladas e cada vez mais violentas nos mínimos atos do dia a dia. No último ano, a seca e a crise da água acentuaram e aceleraram a corrosão da vida, mas nem por isso a mudança climática e todas as questões socioambientais relacionadas a ela tiveram qualquer impacto ou a mínima relevância na eleição estadual e principalmente na eleição presidencial. Nada. A maioria, incluindo os governantes, sequer parece perceber que a catástrofe paulista, que atinge a capital e várias cidades do interior, é ligada também à devastação da Amazônia. O tal “mundo como o conhecemos” ruindo e os zumbis evolucionando por ruas incompatíveis com a vida sem qualquer espanto. Nem por isso, ouso acreditar, deixam sequer por um momento de ser roídos por dentro pela exterioridade de sua condição. A vida ainda resiste dentro de nós, mesmo na Zumbilândia. E é o mal-estar que acusa o que resta de humano em nossos corpos.
É de um cientista, Antonio Nobre, um texto fundamental. Ler “O futuro climático da Amazônia” não é uma opção. Faça um favor a si mesmo e reserve uma hora ou duas do seu dia, o tempo de um filme, entre na internet e leia as 40 páginas escritas numa linguagem acessível, que faz pontes com vários campos do conhecimento. Há trechos de grande beleza sobre a maior floresta tropical do planeta, território concreto e simbólico sobre o qual o senso comum, no Brasil alimentado pela propaganda da ditadura civil-militar, construiu uma ideia de exploração e de nacionalismos que só vigora até hoje por total desconhecimento. É também por ignorância nossa que o atual governo, reeleito para mais um mandato, comanda na Amazônia seu projeto megalômano de grandes hidrelétricas com escassa resistência. E causa, agora, neste momento, um desastre ambiental de proporções não mensuradas em vários rios amazônicos e o etnocídio dos povos indígenas da bacia do Xingu.
John Holcroft’s work
John Holcroft’s work
Antonio Nobre mostra como uma floresta com um papel – insubstituível – na regulação do clima do Brasil e do planeta teve, nos últimos 40 anos, 762.979 quilômetros quadrados desmatados: o equivalente a três estados de São Paulo ou duas Alemanhas. Ou o equivalente a mais de 12 mil campos de futebol desmatados por dia, mais de 500 por hora, quase nove por minuto. Somando-se a área de desmatamento corte raso com a área degradada, alcançamos a estimativa aterradora de que, até 2013, 47% da floresta amazônica pode ter sido impactada diretamente por atividade humana desestabilizadora do clima. “A floresta sobreviveu por mais de 50 milhões de anos a vulcanismos, glaciações, meteoros, deriva do continente”, escreve Nobre. “Mas em menos de 50 anos está ameaçada pela ação de humanos.” A Amazônia dá forma ao momento da História em que a humanidade deixa de temer a catástrofe para se tornar a catástrofe.
Como é possível que isso aconteça bem aqui, agora, e tão poucos se importem? Se não despertarmos do nosso torpor assustado, nossos filhos e netos poderão viver e morrer não com a Amazônia transformada em savana, mas sim em deserto, com gigantesco impacto sobre o clima do planeta e a vida de todas as espécies. Para se ter uma ideia da magnitude do que estamos fazendo, por ação ou por omissão, por alienação, anestesia ou automatismo, alguns dados. Uma árvore grande transpira mais de mil litros de água por dia. A cada 24 horas a floresta amazônica lança na atmosfera, pela transpiração, 20 bilhões de toneladas de água – ou 20 trilhões de litros de água. Para se ter uma ideia comparativa, o rio Amazonas lança menos que isso – cerca de 17 bilhões de toneladas de água por dia– no oceano Atlântico. Não é preciso ser um cientista para imaginar o que acontecerá com o planeta sem a floresta.
John Holcroft’s work
John Holcroft’s work
Nobre defende que já não basta zerar o desmatamento. Alcançamos um nível de destruição em que é preciso regenerar a Amazônia. A floresta não é o “pulmão do mundo”, ela é muito mais do que isso: é o seu coração. Não como uma frase ultrapassada e clichê, mas como um fato científico. É o mundo e não só o Brasil que precisa se engajar nessa luta: o cientista defende que, se não quisermos alcançar o ponto de não retorno, deveríamos empreender – já, agora – um esforço de guerra: começando por uma guerra contra a ignorância. Fazer uma campanha tão forte e eficaz como aquela contra o tabaco. Isso, claro, se quisermos continuar a viver.
Nessa época de tanta conexão, em que a maioria passa quase todo o tempo de vigília conectado na internet, há essa desconexão mortífera com a realidade do planeta – e de si. Como cidadão, a maioria no máximo recicla o seu lixo, achando que está fazendo um enorme esforço, mas não se informa nem participa dos debates e das decisões sobre as questões do clima, da Amazônia e do meio ambiente. Neste e em vários sentidos, é como existir no “modo avião” do celular. Um estar pela metade, o suficiente apenas para cumprir o mínimo e não se desligar por completo. Um contato sem contato, um toque que não toca nem se deixa tocar. Um viver sem vida.
É preciso sentir o mal-estar. Sentir mesmo – e não silenciá-lo das mais variadas maneiras, inclusive com medicação. Ou, como diz a pensadora americana Donna Haraway: “É preciso viver com terror e alegria”.
Só o mal-estar pode nos salvar.
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Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas.