sábado, 9 de maio de 2015

A saga do homem do campo

A saga do homem do campo

Publicado em 18/03/2014
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Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/blogues/bussola/2014/03/a-saga-do-homem-do-campo/?searchterm=A+saga+do+homem+do+campo
Caminhão-museu que percorre o Brasil com exposição itinerante sobre a história dluta pela terra no nosso país chega ao Rio de Janeiro.
A saga do homem do campo
A valorização do homem do campo é um dos temas da exposição itinerante Sentimentos da terra, que ficará aberta ao público até sexta-feira (21/03) naFundação Oswaldo Cruz. (foto: Bruno Figueiredo)
Há um Brasil que muitos não veem: é o país dos conflitos agrários; das mortes violentas no campo; do sangue derramado em nome do direito à terra. Soa como o datado papo esquerdista doanos 1980, é verdade. O problema é que a questão agrária – um dos mais profundos dramas históricos de nosso país – continua mal resolvida.
Abordagens as mais variadas fornecem ao visitante uma visão crítica da complexarealidade fundiáriabrasileira
A velha discussão ganha novo fôlego. Um museu itinerante – montado na carroceria de um caminhão – percorre o Brasil há um ano e leva consigo a história dos conflitos de terraem nosso país. É a exposição Sentimentos daterra.
Abordagens as mais variadas, que vão dasartes à geografia, fornecem ao visitante umavisão crítica da complexa realidade fundiáriabrasileira – do século 16 aos dias de hoje.
O espaço tem um monitor interativo, seis computadores com acesso à internet e umabiblioteca especializada – além de duas salas de cinema, onde são exibidos 11 vídeo-documentários, cuja narração fica por conta doartistas Chico Buarque, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caio Blat, Dira Paes, José Wilker, Letícia Sabatella, Marcos Palmeira, Regina Casé, Vera Holtz e Wagner Moura.
Sala de exibição de documentários
Duas salas de exibição mostram 11 documentários sobre a história dos conflitos de terra no Brasil. (foto: Bruno Figueiredo)
Vale lembrar: a questão agrária, no Brasil, foi tomada por um estigma. Pois a luta pelaterra – a despeito de fazer parte de nossa história há tantos séculos – é comumente reduzida e simplificada à militância de movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e a Via Campesina. “Um dos objetivos da exposição é ressignificaa discussão sobre a reforma agrária e desvinculá-la desses preconceitos”, diz a historiadora Pauliane Braga, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Elaé uma das coordenadorado projeto, e ressalta que a exposição Sentimentos da terranão é militância; é pura pesquisa histórica. “Não temos nenhum caráter ideológico ou partidário.”

Na estrada

Nesta semana, o caminhão-museu está no Rio de Janeiro (RJ). Entre hoje (18/03) e sexta-feira (21/03), a exposição – que é gratuita – fica aberta à visitação na Fundação Oswaldo Cruz, ao lado do Museu da Vida.
A próxima parada é incerta. “Mas, ainda no primeiro semestre, pretendemos levaaexposição para o Norte e para o Nordeste do Brasil”, diz BragaA cidade de Brasília (DF) também é parte do itinerário.
Exposição Sentimentos da terra
Biblioteca, monitor interativo e computadores com acesso à internet foram instalados no caminhão-museu Sentimentos da terra. (foto: Bruno Figueiredo)
Desde que começou sua jornada, em 2013, a exposição itinerante Sentimentos da terrajá percorreu boa parte do sudeste brasileiro: Belo Horizonte (MG), Jequitibá (MG), PousoAlegre (MG), Diamantina (MG), Poços de Caldas (MG), Goiânia (GO), São Paulo (SP), Limeira (SP) e Araçoiaba da Serra (SP).
A iniciativa é resultado de uma parceria entre o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e o Projeto República, da UFMG.
Na sua cidade
A rota do caminhão-museu Sentimentos da terra pode ser acompanhada pelainternet. Interessados em solicitar uma visita a sua cidade podem entrar em contato pelo endereço eletrônico: sentimentosdaterra@gmail.com ou pelo telefone (31) 3409-6498.

História de luta

Os infindáveis conflitos de terra do Brasil contemporâneo têm sua gênese no modelo de ocupação territorial adotado no século 16 pela Coroa portuguesa. Foi o marco inicial daconcentração fundiária.
Hoje, o termo ‘conflitos territoriais’ adquiriu um significado muito mais amplo. Ele se refere não apenaaos tradicionais embates, por vezes deveras violentos, entre campesinos e latifundiários, ou entre militantes sem-terra e forças repressorado Estado. O conceito engloba desde impasses demarcatórios de terras indígenaaté deslocamentos populacionais em função de megaprojetos governamentais, como, por exemplo, construções de grandes usinas hidrelétricas.
Dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) – órgão que monitora anualmente aevolução dos conflitos territoriais no Brasil – mostram uma realidade violenta ainda longedo que se poderia consideraaceitável em um país cuja economia está entre as dez mais pujantes da cena internacional.

Confira, no gráfico interativo abaixo, a evolução dos conflitos por terrano Brasil ao longo da última década


Em números absolutos, o número de conflitos tem-se mantido em patamares altos. E o número de assassinatos em nome da terra permanece pouco alterado ao longo dadécada.
Por trás desses dados, há um cenário crítico: a concentração de terras no Brasil ainda é uma das maiores do mundo. E, segundo muitos estudiosos, nossa realidade fundiária faz vista grossa à própria Constituição Federal – que, no artigo 186, define o princípio dafunção social da terra. De acordo com a carta magna, uma propriedade rural deve, entre outras coisas, zelar pela preservação do meio ambiente e dos recursos naturais; epromover justas relações de trabalho.

Confira abaixo vídeo sobre a exposição itinerante Sentimentos da terra

https://www.youtube.com/watch?v=-VqiOQNtUCE


Henrique Kugler
Ciência Hoje On-line

Ensaios de interpretação do Brasil

Ensaios de interpretação do Brasil

A reedição de 'Retratos do Brasil', livro clássico de Paulo Prado, nos leva a indagar sobre a possível atualidade desse gênero. Será que ainda há espaço, hoje, para ensaios desse tipo? Os sociólogos Renan Springer de Freitas e Leopoldo Waizbort respondem a essa pergunta no 'sobreCultura 9', suplemento trimestral da CH.
Por: Renan Springer de Freitas e Leopoldo Waizbort
Publicado em 11/08/2012 | Atualizado em 08/10/2012

Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2012/293/ensaios-de-interpretacao-do-brasil
Ensaios de interpretação do Brasil
Além de e 'Retratos do Brasil', 'Raízes do Brasil', de Sérgio Buarque de Holanda, e 'Casa-grande & senzala', de Gilberto Freyre, são exemplos de livros que no passado tentaram interpretar o país. (foto: Breno Peck/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)

Mórbido exercício de ajustar contas com o passado

por Renan Springer de Freitas
Receio que o tempo dos ‘ensaios de interpretação do Brasil’ já tenha ficado para trás. Claro, ninguém pode ser impedido de se mover nessa direção, da mesma forma que ninguém pode ser impedido de escrever um poema épico, mas duvido muito que qualquer desses caminhos possa se revelar promissor. Na verdade, essa analogia não é muito feliz porque os poemas épicos têm uma grandeza que os ditos ‘ensaios de interpretação do Brasil’ jamais tiveram.
Receio que o tempo dos ‘ensaios de interpretação do Brasil’ já tenha ficado para trás
Tomemos o caso de Casa-grande & senzala – para muitos, o que de melhor já se produziu no gênero. Nesse livro, Gilberto Freyre se empenha em mostrar que o nosso passado colonial imprimiu sua marca sobre a ‘nossa’ maneira (especial) de ser. Como tantos estudiosos de sua geração, Freyre se deixou seduzir pela ideia de converter a ‘singularidade brasileira’ em objeto de reflexão sociológica e, na medida em que o fez, sua obra capital pode mesmo ser considerada um ‘ensaio de interpretação do Brasil’. 
No meu entendimento, entretanto, a grandeza do livro nada tem a ver com isso. Ela reside, antes, na prosa incomparável e no extraordinário talento etnográfico do autor. São os registros etnográficos, muito mais que as considerações a respeito das raízes socioculturais do ‘modo brasileiro de ser’ ou das características distintivas do ‘brasileiro’, que fazem de Casa-grande & senzala o monumento que é.
Em Sobrados e mocambos, publicado poucos anos depois, já não há vestígio daquela preocupação em interpretar o Brasil. O desafio, agora, está em reconstruir o processo de transformação pelo qual passou a sociedade brasileira entre os séculos 18 e 19. Limito-me a um exemplo: até o século 18, as mulheres dos sobrados eram confinadas à cozinha. Freyre mostra como isso vai gradativamente se alterando; como as mulheres vão pouco a pouco conquistando os novos cômodos dos sobrados, até ganharem as janelas. 
Uma etnografia dessa natureza, cuja riqueza chega ao ponto de incluir uma descrição do modo como o corpo das mulheres se altera com o tempo, nada tem de ‘ensaio interpretativo’: não se busca, aqui, especular sobre as raízes das características distintivas da sociedade brasileira. Talvez seja conveniente esclarecer que nada vejo de errado em discorrer sobre este ou aquele traço característico dos brasileiros. Crônicas inspiradas podem ser produzidas por meio desse exercício. Mas ‘crônica inspirada’ não se confunde com etnografia e muito menos com a erudita e laboriosa reconstrução de processos históricos feita por historiadores. 
Capa, Raízes do Brasil
O que acabo de dizer não é novidade para os leitores do historiador Evaldo Cabral de Mello. Para ele, Raízes do Brasilé o livro menos importante de Sérgio Buarque de Holanda (embora o mais conhecido) exatamente por reverberar o “vezo entre mórbido e narcísico de ajustar contas com o passado nacional” peculiar à literatura ensaística da década de 1930. 
A literatura sobre o Brasil que se produziu nessa época, esclarece Evaldo Cabral no posfácio a Raízes do Brasil, “constituiu uma moda intelectual que, da península Ibérica, transmitiu-se ao Brasil e América hispânica. Sintomaticamente, este gênero de ensaio não frutificou nem na Europa nem nos Estados Unidos, como se, através de uma cadeia de mediações complexas, ele cristalizasse a própria marginalização histórica a que Espanha e Portugal se viam relegados e, com eles, as suas ex-colônias americanas”. 
Posteriormente, em 1998, em entrevista à revista Veja, Evaldo acrescentou que esforços em produzir interpretações sobre o próprio país, como se vê, por exemplo, em Retrato do Brasil, de Paulo Prado, foram uma moda peculiar aos países europeus que, no século 19, padeciam (em razão de sua condição periférica) de uma “angústia de identidade”.
Não precisamos proceder como se vivêssemos com um furúnculo latejante a nos atormentar...
Curiosamente, há um sociólogo alemão cujos escritos conduzem à mesma conclusão. Refiro-me a Norbert Elias (1897-1990). Não tenho conhecimento de sociólogo americano que tenha se interessado em ‘interpretar’ os Estados Unidos, nem de sociólogo inglês em ‘interpretar’ a Inglaterra ou francês em ‘interpretar’ a França. Mas Elias escreveuStudienüber die Deutschen (Os alemães, na tradução brasileira). Há uma razão óbvia para isso: a ascensão do nazismo se deu na Alemanha e isso levantou a questão de saber o que havia de errado em relação aos alemães. O mórbido exercício de ajuste de contas com o passado tornou-se imperativo nesse caso. Como escreve Elias pouco antes de morrer: “Tem-se frequentemente a impressão de que o furúnculo Hitler ainda não estourou. Lateja, mas o pus ainda não saiu. Os estudos que se seguem estão primordialmente interessados em problemas do passado alemão”. 
Elias se pôs, então, a discutir o modo como o “passado alemão” imprimiu sua marca no modo de ser ou, como ele diz, no habitus alemão. Mas é ele próprio quem ressalva: “encontramo-nos hoje num ponto de mutação em que muitos dos problemas, incluindo os de habitus, estão perdendo sua pertinência, e novas tarefas para as quais não existem paralelos históricos estão surgindo de todos os lados”. Mais de 20 anos se passaram desde que Elias escreveu essas palavras. Muita coisa mudou. O furúnculo Hitler (assim quero crer!) já estourou; o mórbido exercício de prestação de contas em relação ao passado para descobrir “o que significa ser alemão” perdeu sua razão de ser. O “problema do habitus”, que então apenas “perdia sua pertinência”, já a perdeu (assim espero!) completamente. O mesmo vale para o Brasil. Não precisamos proceder como se vivêssemos com um furúnculo latejante a nos atormentar...

Renan Springer de Freitas é professor de sociologia da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais
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O voo grandioso da síntese

por Leopoldo Waizbort
Ainda há espaço para ensaios de interpretação do Brasil? Eis aí um problema. Aponto algumas de suas faces. Os ‘ensaios’ são tentativas de uma síntese acerca do que seria o Brasil – o ‘povo’, a ‘nação’, a ‘história’, a ‘raça’, ou ainda alguma característica sua peculiar e potencialmente definidora. Uma síntese que fosse capaz de dizer algo de substantivo acerca de um ser, de algo que é: precisamente o que ele é, e como é. Ocasionalmente, de seu devir. E não se trata somente de síntese, mas, em mesma medida, de afirmação. Exige que se descubram os elementos a sintetizar, que se descubra a fórmula mágica da síntese, que se descubra o sentido da afirmação, que se revele por meio de tudo isso o verdadeiro ser.
Hoje as humanidades, o terreno dos ‘ensaios de interpretação do Brasil’, são muito diferenciadas e diversas. Diferenciadas disciplinar e institucionalmente; diversificadas conceitual, analítica e metodologicamente. Um conjunto de diferenças que torna, cada vez mais, as sínteses inalcançáveis, pois falta um chão comum e uma perspectiva que vislumbre por inteiro seu objeto. O resultado já se antevê: fragmento na perspectiva de abordagem e especialização como campo de decolagem (e pouso?). Seria possível um ‘ensaio’ nessas condições? Creio que aqui a resposta ‘não’ encontra argumentos fortes.
As sínteses oferecidas no passado foram sempre marcadas por uma subjetividade forte, que dobrava a objetividade do conhecido
E onde se poderia encontrar argumentos para um ‘sim’? Antes de tudo, na vontade daqueles que não querem abrir mão dessa modalidade de expressão cognitiva acerca do Brasil. Eles laboram perscrutando a história do gênero, escrevendo-a, reescrevendo-a e ensinando-nos a respeito do assunto. Conhecendo mais e melhor, ganhamos uma outra perspectiva, que se não é a que permite a síntese, ao menos a situa histórica e socialmente. Ao fazer isso, começamos a criar um chão comum em meio à diversidade. Em virtude da diversidade, tentativas de síntese só podem brotar sob a sombra de campos disciplinares e especializações determinadas, sem potencial analítico e metodológico para alçar o voo grandioso da síntese. Guarnecida pelo avanço do conhecimento, a visada restrita precisa abarcar já tanto – em virtude do processo de acumulação infindo das humanidades – que nos faltam maratonistas de fôlego. 
Não há dúvida de que sínteses são importantes. Elas, contudo, nas condições atuais do conhecimento, mal atingem a altura de uma perspectiva globalizante dentro da especialidade. Os balanços disciplinares estão aí para mostrar o tamanho da encrenca.Talvez grupos de pesquisa, no molde das novas formas de organização e gestão do conhecimento, possam criar espaços de síntese, mas vai faltar sempre o coração pulsante e apaixonado que possibilitava e orientava os antigos mestres. As sínteses que ofereceram no passado foram sempre marcadas por uma subjetividade forte, que dobrava a objetividade do conhecido. 
Não há dúvida de que sínteses são importantes. Elas, contudo, nas condições atuais do conhecimento, mal atingem a altura de uma perspectiva globalizante dentro da especialidade
Hoje, essa dobra, além de mais complexa, corre o risco de não ser aceita pela comunidade leitora potencial, que se afina evidentemente com os padrões historicamente desenvolvidos de análise, método,  conceito e exposição. A isso se soma a velocidade acelerada do processo do conhecimento, que não quer saber do tempo de construção da síntese, de maturação lenta.
Após os surtos de formação da universidade moderna no século 19, de especialização da universidade pós-moderna no século 20 e em meio ao atual surto de diplomação da universidade de massas contemporânea, não há mais lugar social para a concepção e execução desses ‘ensaios’; mas eles continuam ao alcance das mãos, para leitura e reflexão.

Leopoldo Waizbort é professor de sociologia na Universidade de São Paulo e pesquisador do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico 

Compreensão mútua entre o Ocidente e o mundo muçulmano

Aproximação pelo diálogo

A religião islâmica tem sido constantemente associada ao terrorismo. Em entrevista à CH, o cientista político brasileiro Hussein Kalout fala sobre causas e efeitos dessa visão deturpada e ressalta a necessidade de compreensão mútua entre o Ocidente e o mundo muçulmano.
Por: Alicia Ivanissevich, Ciência Hoje/ RJ; e Henrique Kugler, especial para Ciência Hoje/ RJ
Publicado em 27/04/2015 | Atualizado em 27/04/2015

Fonte: http://cienciahoje.uol.com.br/revista-ch/2015/324/aproximacao-pelo-dialogo
Aproximação pelo diálogo
Para o cientista político Hussein Kalout, é preciso abrir uma janela de diálogo urgente entre o Ocidente e o mundo muçulmano para superar a discriminação contra as populações que professam a fé islâmica. (foto: Flickr/ digitalpimp. – CC BY-ND 2.0)
Uma das principais arenas da geopolítica internacional atual, o Oriente Médio e o mundo árabe são mais conhecidos hoje no Ocidente pelos atos terroristas praticados por grupos religiosos extremistas do que por suas contribuições sociais, científicas e culturais. Segundo o cientista político brasileiro Hussein Kalout, esse lapso de comunicação – ou declínio do diálogo – entre o Ocidente e o mundo muçulmano tem origem em três axiomas: o colonialismo europeu perpetrado a partir do século 19, o alinhamento euro-americano ao Estado de Israel no conflito com os palestinos desde 1947, e as sucessivas e recentes intervenções militares e políticas em vários países islâmicos.
Para restaurar esses laços, Kalout, pesquisador do Centro Weatherhead de Relações Internacionais da Universidade Harvard (EUA), sugere construir pontes de compreensão mútua. Ele acredita que, em vez de tapar os olhos e acreditar no ódio deliberado de muçulmanos contra o mundo liberal ocidental, seria importante se debruçar sobre o axioma de causa e efeito da islamofobia. E adverte: “Sem políticas públicas para reduzir a marginalização, a exclusão e a xenofobia contra as populações que professam a fé islâmica, o problema persistirá”.
Nesta entrevista, Kalout fala sobre o Islã, terrorismo, discriminação e a necessidade urgente de diálogo.

Hussein KaloutÉ correto pensar que o terrorismo é uma deturpação total dos princípios da religião islâmica?
A religião muçulmana é orientada sob os princípios da paz, da temperança e da tolerância. O radicalismo religioso não é comum entre os adeptos da fé muçulmana, mas uma chaga que contamina, também, fiéis de outras religiões. Organizações terroristas como Al Qaeda, Jabhat Al-Nusra, Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL) e Boko Haram deturpam de forma grotesca os princípios do Islã, cometendo atos de extrema barbárie e negligenciando a mensagem real do islamismo para acomodar seus interesses criminosos.
Em Estados não teocráticos, as doutrinas religiosas do Islã servem mais como parâmetros espirituais, éticos e morais de conduta do que efetivamente como eixos regulatórios de funcionamento da sociedade.

Então, podemos dizer que o radicalismo islâmico deriva muito mais de um conjunto de variáveis sociais e políticas do que de uma doutrina religiosa?
A causa e o efeito do extremismo islâmico não estão vinculados apenas ao hábitat cultural ou a arcabouços políticos, mas, preponderantemente, a condicionamentos sociais, como a marginalização, a ignorância e o desemprego.
A causa e o efeito do extremismo islâmico não estão vinculados apenas ao hábitat cultural ou a arcabouços políticos, mas, preponderantemente, a condicionamentos sociais, como a marginalização, a ignorância e o desemprego
O extremismo islâmico atinge, antes de qualquer outro arcabouço social, o próprio sistema socio-organizacional muçulmano. O Islã tem sido surrupiado, lamentavelmente, e usado como instrumento de manipulação pelos mercadores da religião – alguns destes, no entanto, estão a serviço de alguns países.
O Islã consciente e qualificado entende a mensagem divina como complemento às religiões monoteístas: o judaísmo e o cristianismo. Os cânones do islamismo não propõem a substituição e tampouco a revogação das doutrinas das demais religiões abraâmicas. No Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, os judeus e os cristãos fazem parte de Ahlul Kitab (os povos dos livros TorahBíblia). Isso se aplica a outras crenças ou cultos também.

O senhor escreveu recentemente que a hostilidade entre o mundo islâmico e o ‘Ocidente’ começou a partir do final do século 19. Por quê?Na era contemporânea, o declínio do diálogo entre o Ocidente e o mundo muçulmano pode ser descrito à luz de três axiomas temporais importantes: o colonialismo europeu no mundo árabe e islâmico entre o século 19 e meados do 20; o inarredável alinhamento euro-americano ao Estado de Israel no conflito com os palestinos desde 1947 aos dias atuais; as sucessivas intervenções militares e políticas em vários países, como Iraque, Síria, Irã, Paquistão, Afeganistão e Líbia.
Para a sociedade árabe e islâmica, o colonialismo europeu não apenas buscava a exploração de suas riquezas, mas, sobretudo, pretendia descaracterizar o equilíbrio de seu arcabouço político, de seus costumes culturais e de sua organização social. Na psiquê islâmica, as potências ocidentais não compreenderam a universalidade da sociedade muçulmana e ignoraram a sua dinâmica uma vez que, pela força, buscaram impor modelos incompatíveis de governança, ou modelos pendulares de governança política. Ora apoiavam regimes ditatoriais, ora grupos políticos ultraconservadores afinados aos seus interesses, como a Irmandade Muçulmana, por exemplo.

Como as narrativas sociais são traduzidas em movimentos em diversas danças



Tô aqui pensando como as narrativas sociais são traduzidas em movimentos em diversas danças...
Isso costuma ser mais falado quando se fala do simbolismo presente nas danças folclóricas, mas nunca li nada que apontasse o ballet russo como uma iconografia da estrutura social da russia imperial (o que deve ter ficado meio óbvio depois daquela cena aos 30 min no filme da Anna Karenina... Emoticon tongue )
Anna Karenina (2012).Dancing Scene
www.youtube.com/watch?v=TOwsZ6bDqJU
Porque as representações iconográficas da elite são até hj entendidas como "arte" e as dos povos\populações dominados\periféricos como "folclore" ?!?
Porque as valsas do Strauus são "elegantes" para se tocar em uma festa de casamento e um baião do Luiz Gonzaga não?!? Isso não faz o menos sentido!!!!
Identificar nosso cotidiano com a musica popular brasileira é infinitamente mais natural do que com uma valsa alemã!!!!
Sério... qual o problema das pessoas em ficar sempre se desvalorizando em uma esquizofrenia de hierarquização cultural???
Strauss é do caralho e o Gonzaga idem! Porque um tem que ser lido como mais "elegante" que o outro? Acho completamente sem sentido isso...
Preguiça da porra dessa cultura que se classifica hierarquicamente baseada na ignorância da própria recursividade! ¬¬
Mas voltando ao que tava falando no início, o que parece ser estrategicamente não assumido é a presença de uma narrativa de símbolos elitizados na fronteira criativa do pensamento (seja em que área for)

Ora pois, uma língua bem brasileira

Ora pois, uma língua bem brasileira

Análise de textos antigos e de entrevistas expõe as marcas próprias do idioma no país, o alcance do R caipira e os lugares que preservam modos antigos de falar
CARLOS FIORAVANTI | ED. 230 | ABRIL 2015

Fonte: http://revistapesquisa.fapesp.br/2015/04/08/ora-pois-uma-lingua-bem-brasileira/

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© REPRODUÇÃO: ISABELLA MATHEUS
Estudo para Partida da monção, 1897, de Almeida Júnior (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). Os bandeirantes saíam de Porto Feliz rumo ao Centro-Oeste
Estudo para Partida da monção, 1897, de Almeida Júnior (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). Os bandeirantes saíam de Porto Feliz rumo ao Centro-Oeste
A possibilidade de ser simples, dispensar elementos gramaticais teoricamente essenciais e responder “sim, comprei”, quando alguém pergunta “você comprou o carro?”, é uma das características que conferem flexibilidade e identidade ao português brasileiro. A análise de documentos antigos e de entrevistas de campo ao longo dos últimos 30 anos está mostrando que o português brasileiro já pode ser considerado único, diferente do português europeu, do mesmo modo que o inglês americano é distinto do inglês britânico. O português brasileiro ainda não é, porém, uma língua autônoma: talvez seja – na previsão de especialistas, em cerca de 200 anos – quando acumular peculiaridades que nos impeçam de entender inteiramente o que um nativo de Portugal diz.
A expansão do português no Brasil, as variações regionais com suas possíveis explicações, que fazem o urubu de São Paulo ser chamado de corvo no Sul do país, e as raízes das inovações da linguagem estão emergindo por meio do trabalho de cerca de 200 linguistas. De acordo com estudos da Universidade de São Paulo (USP), uma inovação do português brasileiro, por enquanto sem equivalente em Portugal, é o Rcaipira, às vezes tão intenso que parece valer por dois ou três, como em porrrta oucarrrne.
Associar o R caipira apenas ao interior paulista, porém, é uma imprecisão geográfica e histórica, embora o R desavergonhado tenha sido uma das marcas do estilo matuto do ator Amácio Mazzaropi em seus 32 filmes, produzidos de 1952 a 1980. Seguindo as rotas dos bandeirantes paulistas em busca de ouro, os linguistas encontraram o Rsupostamente típico de São Paulo em cidades de Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e oeste de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, formando um modo de falar similar ao português do século XVIII. Quem tiver paciência e ouvido apurado poderá encontrar também na região central do Brasil – e em cidades do litoral – o S chiado, uma característica hoje típica do falar carioca que veio com os portugueses em 1808 e era um sinal de prestígio por representar o falar da Corte. Mesmo os portugueses não eram originais: os especialistas argumentam que o Schiado, que faz da esquina uma shquina, veio dos nobres franceses, que os portugueses admiravam.
A história da língua portuguesa no Brasil está trazendo à tona as características preservadas do português, como a troca do L pelo R, resultando em pranta em vez deplanta. Camões registrou essa troca em Os lusíadas – lá está um frautas no lugar deflautas – e o cantor e compositor paulista Adoniran Barbosa a deixou registrada em diversas composições, em frases como “frechada do teu olhar”, do samba Tiro ao Álvaro. Em levantamentos de campo, pesquisadores da USP observaram que moradores do interior tanto do Brasil quanto de Portugal, principalmente os menos escolarizados, ainda falam desse modo. Outro sinal de preservação da língua identificado por especialistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, dessa vez em documentos antigos, foi a gente ou as gentes como sinônimo de “nós” e hoje uma das marcas próprias do português brasileiro.
Célia Lopes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), encontrou registros dea gente em documentos do século XVI e, com mais frequência, a partir do século XIX. Era uma forma de indicar a primeira pessoa do plural, no sentido de todo mundo com a inclusão necessária do eu. Segundo ela, o emprego de a gente pode passar descompromisso e indefinição: quem diz a gente em geral não deixa claro se pretende se comprometer com o que está falando ou se se vê como parte do grupo, como em “a gente precisa fazer”. Já o pronome nós, como em “nós precisamos fazer”, expressa responsabilidade e compromisso. Nos últimos 30 anos, ela notou, a gente instalou-se nos espaços antes ocupados pelo nós e se tornou um recurso bastante usado por todas as idades e classes sociais no país inteiro, embora nos livros de gramática permaneça na marginalidade.
Linguistas de vários estados do país estão desenterrando as raízes do português brasileiro ao examinar cartas pessoais e administrativas, testamentos, relatos de viagens, processos judiciais, cartas de leitores e anúncios de jornais desde o século XVI, coletados em instituições como a Biblioteca Nacional e o Arquivo Público do Estado de São Paulo. A equipe de Célia Lopes tem encontrado também na feira de antiguidades do sábado da Praça XV de Novembro, no centro do Rio, cartas antigas e outros tesouros linguísticos, nem sempre valorizados. “Um estudante me trouxe cartas maravilhosas encontradas no lixo”, ela contou.
© REPRODUÇÃO ISABELLA MATHEUS
Sem título da série Estudo para bandeirantes, sem data, de Henrique Bernardelli, (Acervo Pinacoteca do Estado de SP) paulistas expandiram a língua portuguesa conquistando  outras regiões
Sem título da série Estudo para bandeirantes, sem data, de Henrique Bernardelli, (Acervo Pinacoteca do Estado de SP) paulistas expandiram a língua portuguesa conquistando outras regiões
De vossa mercê para Os documentos antigos evidenciam que o português falado no Brasil começou a se diferenciar do europeu há pelo menos quatro séculos. Uma indicação dessa separação é o Memórias para a história da capitania de São Vicente, de 1793, escrito por frei Gaspar da Madre de Deus, nascido em São Vicente, e depois reescrito pelo português Marcelino Pereira Cleto, que foi juiz em Santos. Comparando as duas versões, José Simões, da USP, encontrou 30 diferenças entre o português brasileiro e o europeu. Uma delas é encontrada ainda hoje: como usuários do português brasileiro, preferimos explicitar os sujeitos das frases, como em “o rapaz me vendeu o carro, depois ele saiu correndo e ao atravessar a rua ele foi atropelado”. Em português europeu, seria mais natural omitir o sujeito, já definido pelo tempo verbal – “o rapaz vendeu-me o carro, depois saiu a correr…” –, resultando em uma construção gramaticalmente impecável, embora nos soe um pouco estranha.
Um morador de Portugal, se lhe perguntarem se comprou um carro, responderá com naturalidade “sim, comprei-o”, explicitando o complemento do verbo, “mesmo entre falantes pouco escolarizados”, observa Simões. Ele nota que os portugueses usam mesóclise – “dar-lhe-ei um carro, com certeza!” –, que soaria pernóstica no Brasil. Outra diferença é a distância entre a língua falada e a escrita no Brasil. Ninguém falamuito, mas muinto. O pronome você, que já é uma redução de vossa mercê e devosmecê, encolheu ainda mais, para , e grudou no verbo: cevai?
“A língua que falamos não é a que escrevemos”, diz Simões, com base em exemplos como esses. “O português escrito e o falado em Portugal são mais próximos, embora também existam diferenças regionais.” Simões complementa as análises textuais com suas andanças por Portugal. “Há 10 anos meus parentes de Portugal diziam que não entendiam o que eu dizia”, ele observa. “Hoje, provavelmente por causa da influência das novelas brasileiras na televisão, dizem que já estou falando um português mais correto.”
“Conservamos o ritmo da fala, enquanto os europeus começaram a falar mais rápido a partir do século XVIII”, observa Ataliba Castilho, professor emérito da USP, que, nos últimos 40 anos, planejou e coordenou vários projetos de pesquisa sobre o português falado e a história do português do Brasil. “Até o século XVI”, diz ele, “o português brasileiro e o europeu eram como o espanhol, com um corte silábico duro. A palavra falada era muito próxima da escrita”. Célia Lopes acrescenta outra diferença: o português brasileiro conserva a maioria das vogais, enquanto os europeus em geral as omitem, ressaltando as consoantes, e diriam tulfón para se referir ao telefone.
Há também muitas palavras com sentidos diferentes de um lado e de outro do Atlântico. Os estudantes das universidades privadas não pagam mensalidade, mas propina. Bolsista é bolseiro. Como os europeus não adotaram algumas palavras usadas no Brasil, a exemplo de bunda, de origem africana, podem surgir situações embaraçosas. Vanderci Aguilera, professora sênior da Universidade Estadual de Londrina (Uel) e uma das linguistas empenhadas no resgate da história do português brasileiro, levou uma amiga portuguesa a uma loja. Para ver se um vestido que acabava de experimentar caía bem às costas, a amiga lhe perguntou: “O que achas do meu rabo?”.
016-023_CAPA_Portugues_230O soldado e a filha do fazendeiroNo acervo de documentos sobre a evolução do português paulista, está uma carta de 1807, escrita pelo soldado Manoel Coelho, que teria seduzido a filha de um fazendeiro. Quando soube, o pai da moça, enfurecido, forçou o rapaz a se casar com ela. O soldado, porém, bateu o pé: não se casaria, como ele escreveu, “nem por bem nem por mar”. Simões estranhou a citação ao mar, já que o quiproquó se passava na então vila de São Paulo, mas depois percebeu: “Olha o Rcaipira! Ele quis dizer ‘nem por bem nem por mal!’”. O soldado escrevia como falava, não se sabe se casou com a filha do fazendeiro, mas deixou uma prova valiosa de como se falava no início do século XIX.
“O R caipira era uma das características da língua falada na vila de São Paulo, que aos poucos, com a crescente urbanização e a chegada de imigrantes europeus, foi expulsa para a periferia ou para outras cidades”, diz Simões. “Era a língua dos bandeirantes.” Os especialistas acreditam que os primeiros moradores da vila de São Paulo, além deporrta, pulavam consoantes no meio das palavras, falando muié em vez de mulher, por exemplo. Para aprisionar índios e, mais tarde, para encontrar ouro, os bandeirantes conquistaram inicialmente o interior paulista, levando seu vocabulário e seu modo de falar. O R exagerado ainda pode ser ouvido nas cidades do chamado Médio Tietê como Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Sorocaba, Itu, Tietê, Porto Feliz e Piracicaba, cujos moradores, principalmente os do campo, o pintor ituano José Ferraz de Almeida Júnior retratou, até ser assassinado pelo marido de sua amante em Piracicaba. Os bandeirantes seguiram depois para outras matas da imensa Capitania de São Paulo, constituída em 1709 com os territórios dos atuais estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia, Tocantins, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina (ver mapa).
Manoel Mourivaldo Almeida, também da USP, encontrou sinais do português paulista antigo em Cuiabá, a capital de Mato Grosso, que permaneceu com relativamente pouca interação linguística e cultural com outras cidades depois do fim do auge da mineração de ouro, há dois séculos. “O português culto dos séculos XVI ao XVII tinha um Schiado”, conclui Almeida. “Os paulistas, quando foram para o Centro-Oeste, falavam como os cariocas hoje!” O ator e diretor teatral cuiabano Justino Astrevo de Aguiar reconhece a herança paulista e carioca, mas considera um traço mais evidente do falar local o hábito de acrescentar um J ou um T antes ou no meio das palavras, como emdjeitocadju ou tchuva, uma característica da pronúncia típica do século XVII, que Almeida identificou também entre moradores de Goiás, Minas Gerais, Maranhão e na região da Galícia, na Espanha.
Almeida apurou o ouvido para as variações do português no Brasil por conta de sua própria história. Filho de portugueses, nasceu em Piritiba, interior da Bahia, saiu de lá aos 7 anos, morou em Jaciara, interior de Mato Grosso, e depois 25 anos em Cuiabá, foi professor da universidade federal e se mudou para São Paulo em 2003. Ele reconhece que fala como paulista nos momentos mais formais – embora prefira falar éxtra em vez de êxtra como os paulistas –, mas quando descontrai assume o ritmo de falar baiano e o vocabulário matogrossense. Ele estuda o modo de falar cuiabano desde 1991, por sugestão de um colega professor, Leônidas Querubim Avelino, especialista em Camões, que havia verificado sinais do português arcaico por lá. Avelino lhe contou que um roceiro cego de Livramento, a 30 quilômetros de Cuiabá, comentou que ele estava “andando pusilo”, no sentido de fraco. Avelino reconheceu uma forma reduzida depusilânime, que não era mais usada em Portugal.
“Os moradores de Cuiabá e de algumas outras cidades, como Cáceres e Barão de Melgado, em Mato Grosso, e Corumbá, em Mato Grosso do Sul, preservam o português paulista do século XVIII mais do que os próprios paulistas. Paulistas do interior e também da capital hoje falam dia, com um d seco, enquanto na maior parte do Brasil se diz djia”, observou Almeida. “O modo de falar pode mudar dependendo do acesso à cultura, da motivação e da capacidade de perceber e articular sons de modo diferente. Quem procurar nos lugares mais distantes dos grandes centros urbanos vai encontrar sinais de preservação do português antigo.”
© REPRODUÇÃO ISABELLA MATHEUS
Rua 25 de março, 1894, de Antonio Ferrigno (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). A cidade de São Paulo tinha um sotaque próprio
Rua 25 de março, 1894, de Antonio Ferrigno (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). A cidade de São Paulo tinha um sotaque próprio
De 1998 a 2003, uma equipe coordenada por Heitor Megale, da USP, seguiu a rota das bandeiras do século XVI em busca de traços da língua portuguesa antiga que tenham permanecido ao longo de quatro séculos. As entrevistas com moradores com 60 anos a 90 anos de quase 40 cidades ou povoados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso trouxeram à tona termos esquecidos como mamparra(fingimento) e mensonha (mentira), uma palavra de um dos poemas de Francisco de Sá de Miranda do século XV, treição, usada no interior de Goiás no sentido de surpresa, e termos da linguagem popular ainda usados em Portugal, como despoispercisão etristura, comuns no sul de Minas. O que parecia anacronismo ganhou valor. Dizersancristia em vez de sacristia não era um erro, “mas uma influência preservada do passado, quando a pronúncia era assim”, relatou o Jornal da Manhã, de Paracatu, Minas, em 20 de dezembro de 2001.
Ao norte, a língua portuguesa expandiu-se para o interior a partir da cidade de Salvador, que foi a capital do Brasil Colônia durante três séculos. Salvador era também um centro de fermentação da língua, por receber multidões de escravos africanos, que aprendiam o português como língua estrangeira, mas também ofereciam seu vocabulário, ao qual já haviam se somado as palavras indígenas.
Para impedir que a língua de Camões se desfigurasse ao cruzar com os dialetos nativos, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, secretário de Estado do reino, resolveu agir. Em 1757, Pombal expulsou os jesuítas, entre outras razões de ordem política, porque estavam ensinando a doutrina cristã em língua indígena, e, por decreto, fez do português a língua oficial do Brasil. O português se impôs sobre as línguas nativas e ainda hoje é a língua oficial, embora os linguistas alertem que não possa ser chamada de nacional por causa das 180 línguas indígenas faladas no país (eram 1.200, estima-se, quando os portugueses chegaram). A miscigenação linguística, que reflete a mistura de povos formadores do país, explica em boa parte as variações regionais de vocabulário e de ritmos, sintetizadas em um mapa dos falares do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. É fácil encontrar variações em um mesmo estado: os moradores do norte de Minas falam como os baianos, os da região central mantêm o autêntico mineirês, no sul a influência paulista é intensa e a leste o modo de falar assemelha-se ao sotaque carioca.
A pandorga e o bigatoHá 10 anos um grupo de linguistas estuda um dos resultados da miscigenação linguística: os diferentes nomes com que um mesmo objeto pode ser chamado, registrados por meio de entrevistas com 1.100 pessoas em 250 localidades. Brasil afora, o brinquedo feito de papel e varetas que se empina ao vento por meio de uma linha é chamado de papagaio, pipa, raia ou pandorga – ou ainda coruja em Natal e João Pessoa –, de acordo com o primeiro volume do Atlas linguístico do Brasil, publicado em outubro de 2014 com os resultados das entrevistas nas capitais (Editora UEL). Já o aparelho com luzes vermelha, amarela e verde usado em cruzamentos de ruas para regular o trânsito é chamado apenas de sinal no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte e também de semáforo nas capitais do Norte e Nordeste. Goiânia registrou os quatro nomes para o mesmo objeto: sinal, semáforo, sinaleiro e farol.
Começa agora a busca de explicações para essas diferenças. “Onde nasci, em Sertanópolis, a 42 quilômetros de Londrina”, disse Vanderci Aguilera, uma das coordenadoras do Atlas, “chamamos bicho de goiaba de bigato por influência dos colonizadores, que eram imigrantes italianos vindos do interior paulista”. Segundo ela, os moradores dos três estados do Sul chamam urubu de corvo por influência dos europeus, enquanto os do Sudeste mantiveram o nome tupi, urubu.
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Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, 1891, de Almeida Júnior (Acervo Pinacoteca do Estado de SP).No final do século XIX o pronome você já era mais formal que o tu
Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, 1891, de Almeida Júnior (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). No final do século XIX o pronome você já era mais formal que o tu
Cada estado – ou região – tem seu próprio patrimônio linguístico, que deve ser respeitado, enfatizam os especialistas. Os professores de português, alerta Vanderci, não deveriam repreender os alunos por chamarem beija-flor de cuitelo, como é comum no interior do Paraná, nem recriminar os que dizem carochurascoou baranco, como é comum entre os descendentes de poloneses e alemães no Sul, mas ensinar outras formas de falar e deixar a meninada se expressar como quiser quando estiver com a família ou com os amigos. “Ninguém fala errado”, ela enfatiza. “Todo mundo fala de acordo com sua história de vida, com o que foi transmitido pelos pais e depois modificado pela escola. Nossa fala é nossa identidade, não temos por que nos envergonhar.”
A diversidade do português brasileiro é tão grande que, apesar do empenho dos locutores de telejornais de alcance nacional em tentar criar uma língua neutra, despida de sotaques locais, “não há um padrão nacional”, assegura Castilho. “Há diferenças de vocabulário, gramática, sintaxe e pronúncia mesmo entre pessoas que adotam a norma culta”, diz ele. Insatisfeito com as teorias importadas, Castilho criou a abordagem multissistêmica da linguagem, segundo a qual qualquer expressão linguística mobiliza simultaneamente quatro planos (léxico, semântica, discurso e gramática), que deveriam ser vistos de modo integrado e não mais separadamente. Ao lado de Verena Kewitz, da USP, ele tem debatido essa abordagem com estudantes de pós-graduação e com outros especialistas do Brasil e no exterior.
Também está claro que o português brasileiro se refaz continuamente. As palavras podem morrer ou ganhar novos sentidos. Almeida contou que Celciane Vasconcelos, uma das estudantes de seu grupo, verificou que somente os moradores mais antigos do litoral paranaense conheciam a palavra sumaca, um tipo de barco antes comum, que hoje não se constrói mais, tirando a antiga serventia da palavra que hoje nomeia uma praia em Paraty (RJ). Os modos antigos de falar podem ressurgir. O R caipira, asseguram os linguistas, está voltando, até mesmo em São Paulo, e readquirindo status, na esteira dos cantores de música sertaneja. “Hoje ser caipira é chique”, assegura Vanderci. Ou ao menos é aceitável e parte do estilo pessoal, como o da apresentadora de TV Sabrina Sato.
Bilhetes de amorOs linguistas têm notado a expansão do tratamento informal. “Tenho 78 anos e devia ser tratado por senhor, mas meus alunos mais jovens me tratam por você”, diz Castilho, aparentemente sem se incomodar com a informalidade, inconcebível em seus tempos de estudante. O você, porém, não reinará sozinho. Célia Lopes, com sua equipe da UFRJ, verificou que o tu predomina em Porto Alegre e convive com o você no Rio de Janeiro e em Recife, enquanto você é o tratamento predominante em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Salvador. O tu já era mais próximo e menos formal que vocênas quase 500 cartas do acervo on-line da UFRJ, quase todas de poetas, políticos e outras personalidades do final do século XIX e início do XX.
Como ainda faltava a expressão do falar das pessoas comuns, Célia e sua equipe exultaram ao encontrar 13 bilhetes escritos em 1908 por Robertina de Souza para seu amante e para seu marido. Esse material era parte de um processo-crime movido contra o marido, que expulsou de sua casa um amigo e a própria mulher ao saber que tinham tido um caso extraconjungal e depois matou o ex-amigo. Em um dos 11 bilhetes para o amante, Álvaro Mattos, Robertina, que assinava como Chininha, escreveu: “Eu te adoro te amo até a morte sou tua só tu é meu só o meu coracao e teu e o teu coracao é meu. Chininha e todinha tua ate a morte”. Já o marido, Arthur Noronha, que recebeu apenas dois bilhetes, ela tratava de modo mais formal: “Eu rezo pedindo a Deus para você me perdoar, mas creio que voce não tem coragem de ver morrer um filho o filha”. E mais adiante: “Não posso me separar de voce e do meu filho a não ser com a morte”. Não se sabe se ela voltou para casa, mas o marido foi absolvido, por alegar que matou o outro homem em defesa da honra.
Outro sinal da evolução do português brasileiro são as construções híbridas, com um verbo que não concorda mais com o pronome, do tipo tu não sabe?, e a mistura dos pronomes de tratamento você e tu, como em “se você precisar, vou te ajudar”. Os portugueses europeus poderiam alegar que se trata de mais uma prova de nossa capacidade de desfigurar a língua lusitana, mas talvez não tenham tanta razão para se queixar. Célia Lopes encontrou a mistura de pronomes de tratamento, que ela e outros linguistas não consideram mais um erro, em cartas do marquês do Lavradio, que foi vice-rei do Brasil de 1769 a 1796, e, mais de dois séculos depois, em uma entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.
ProjetoProjeto de história do português paulista (PHPP – Projeto Caipira) (nº 11/51787-5);Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Manoel Mourivaldo Santiago Almeida(USP); Investimento R$ 87.372,10 (FAPESP).