sábado, 23 de novembro de 2013

Como viajar sem dinheiro

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Como viajar por três meses pela Europa sem dinheiro

18NOV
Você quer viajar, mas não tem um tostão no banco? A artista plástica Aline Cambpell, 24 anos, mostra que é possível correr o mundo de forma absurdamente econômica: ela passou, entre junho e setembro deste ano, três meses viajando pela Europa sem nenhum dinheiro. É isso mesmo: fora as passagens do Rio até Amsterdam e de Zurique até o Rio, ela não gastou absolutamente nada, e partiu sem nem um cartão de crédito pra emergências.
Achou loucura? Pra justificar a empreitada, Aline elenca três objetivos: extrair a bondade que as pessoas têm, mostrar ao mundo que seres humanos são generosos por natureza e demonstrar que certas situações não são tão perigosas quanto pensamos. A viagem recebeu um nome: Open Doors, ou Portas Abertas, partindo da mesma metáfora que me fez batizar o blog, que faz referência ao exercício de abrir-se pra o mundo :) Eu não podia deixar de contar a história dela por aqui, né?
Aline viajou por três meses sem gastar nada. Foto: Acervo Pessoal/Aline Campbell
Aline viajou por três meses sem gastar nada. Foto: Acervo Pessoal/Aline Campbell
Ela viajou com uma pequena mochila com sete peças de roupa, pegou 54 caronas e dormiu em 38 casas diferentes. Nunca tinha ido aos países por onde passou e não conhecia ninguém na maioria deles. Usou muito Couchsurfinge confiou na sua intuição: “você sente se a pessoa está mal intencionada ou não com você”, afirma.
Aline criou uma página pra o projeto no Facebook, onde foi postando fotos e contando algumas histórias durante o percurso. Viajando sem roteiro definido, ela foi surpreendida positivamente várias vezes pelo caminho, como no dia em que pegou uma carona pra ir de Budapeste a Viena, foi convencida pelo motorista a ir até a Eslováquia e ainda ganhou um ingresso pra o Cirque du Soleil :) Em outra ocasião, saiu de Londres pra ir a Orleans, na França, e acabou embarcando numa viagem de três dias de carro até a Sérvia!
Aline e um dos muitos motoristas que lhe deram carona e acomodação. Foto: Acervo Pessoal/Aline Campbell
Aline e um dos muitos motoristas que lhe deram carona e acomodação. Foto: Acervo Pessoal/Aline Campbell
Voltou sã e salva, com mil histórias pra contar e um apelo: “Por favor: acreditem menos na mídia. O mundo não é tão perigoso quanto a gente pensa que é”. Inevitável lembrar de histórias como a de Arthur Simões, que deu a volta ao mundo sozinho de bicicleta, e outros viajantes cujas histórias eu contei aqui. Não precisamos ser tão radicais, mas inspiração é o que não falta pra conhecer o mundo de forma diferente, com maior contato com as pessoas e sem precisar gastar tanto, né?
Aline pretende publicar seu diário de viagem, mas enquanto ele não sai, confira a entrevista que fiz com ela e saiba mais sobre essa aventura:
Quando e como surgiu a ideia do projeto?
O projeto surgiu em abril de 2013, apenas dois meses antes da viagem. Porém foi no meio do ano passado, 2012, que comecei a pensar sobre a ideia de fazer uma viagem sem dinheiro, quando abri as portas para um hóspede americano (Couch Surfing) e ele estava viajando sem mala (exatamente, sem mala, só com a roupa do corpo e uma pochete com documentos e dinheiro). Achei o troço bem esquisito, mas depois de conversarmos comecei a entender suas razões e ele me abriu as portas para uma nova perspectiva de vida. Ele dizia que as coisas materiais o distraiam do que para ele era mais importante: as relações interpessoais e os momentos que vivia durante a viagem. Por isso resolveu viajar sem nada. E disse que seu próximo passo seria viajar sem dinheiro. Pra quê?… (risos) Jesse nunca realizou a segunda parte do sonho, mas ficou bem feliz quando soube da minha aventura :-)
Você se inspirou em algum projeto parecido?
Na verdade fiquei sabendo de mais projetos assim após minhas viagem. Mas dois em particular me inspiraram bastante. Um foi o Living Without Money, de uma senhora que vive há mais de 16 anos na Alemanha sem dinheiro nenhum (muito feliz por ter tido a oportunidade de encontrá-la pessoalmente); e o outro foi oTroca por um Quadro, do pernambucano Pedro Melo, pois o meu projeto também teve um grande enfoque artístico (Aline trocou arte por acomodação em um hostel em Budapeste e presenteou alguns de seus hosts).
O encontro com uma senhora alemã que vive sem dinheiro há 17 anos.  Foto: Acervo Pessoal/Aline Campbell
O encontro com uma senhora alemã que vive sem dinheiro há 17 anos. Foto: Acervo Pessoal/Aline Campbell
O que seus amigos e família pensaram quando você disse que ia viajar sem dinheiro nenhum?
O mesmo que todos pensavam mesmo durante a viagem: “você é louca!” Mas as coisas mudaram um pouquinho agora que eu voltei, e voltei bem :-)
Quais foram os maiores “perrengues”?
Sem dúvida as vezes em que tive que pegar carona à noite ou com chuva, sozinha na estrada. Teve uma vez que eu estava na autoestrada, mas na direção contrária da que eu precisava ir. Era impossível de se atravessar as pistas a pé, porém havia uma pista que passava por debaixo das vias de auto-velocidade. Só que (esses “só que” é que matam a gente… risos) além de estar de noite e chovendo muito (caia um temporal naquele dia), esta pista subterrânea estava desativada e não havia iluminação nenhuma. Sim, eu respirei fundo e atravessei, no escuro, sozinha, a bendita. Nesse dia eu confesso que tremi na base.
Preparativos para mais uma parte da jornada.  Foto: Acervo Pessoal/Aline Campbell
Preparativos para mais uma parte da jornada. Foto: Acervo Pessoal/Aline Campbell
E os momentos mais especiais?
Tiveram muitos… Muitos mesmo. Mas para citar um, no final da jornada, quando fui à neve pela primeira vez na vida. Meu anfitrião me levou para os alpes suíços, com direito a bola de neve na cara e tudo! E o melhor de tudo, foi que eu estava na neve e estava Sol! Não fazia frio!!! Ah, Suíça…
O que você aprendeu, além de confirmar sua ideia de que as pessoas são naturalmente generosas?
Os ricos também podem ser muito generosos mesmo com desconhecidos. E esse negócio de que europeu é frio é bem questionável. Eu aprendi que o ser humano em geral reflete as ações do outro. Digo, você acaba recebendo de volta o que projeta. É assim na vida, é assim com vidas. Se você chegar a alguém já com “medo”, esperando que vai ser maltratado ou algo do tipo, lembre-se do efeito espelho. Faça você o teste… Vá falar com um estranho de forma super entusiasmada e sorridente para ver a reação dele.
Você fez alguma coisa pelas pessoas que encontrou na viagem?
Além de compartilhar histórias e momentos, eu procurava sempre ajudar nos afazeres de casa. Por exemplo, se via que a casa estava suja, eu fazia uma faxina enquanto o anfitrião estava fora (gostava sempre de fazer isso como surpresa). Também fiz bastante arte durante a viagem e dava os quadros aos anfitriões como forma de agradecimento pela hospitalidade. Mas às vezes também eu não fazia “nada”. É importante a gente saber que essa troca não deve se tornar uma obrigação, mas sim vir de forma natural. Quando você pode, você faz algo, mas quando não pode, não deve forçar a barra. Cedo ou tarde você vai fazer por outro, sem receber em troca daquela pessoa que ajudou. A corrente se fortalece assim, criando elos em lugares diferentes.
Em algum momento você se cansou, ou pensou “o que danado eu tou fazendo aqui?”?
Por incrível que pareça, não. E talvez por ter sempre mantido um pensamento positivo, unido à certeza de que tudo cedo ou tarde acabaria bem, pouquíssimos foram os momentos difíceis, que sempre vieram seguidos por momentos maravilhosos. Um momento complicado, que me fez repensar minha decisão, foi no trajeto Londres – Sérvia, pois quando topei entrar nesta aventura, mal tinha noção da onde raios ficava a Sérvia… (risos) Foram três dias de viagem! Mas valeu cada momento… Coloca no Google “Plitvička jezera” só para ter um gostinho do que eu tive no caminho… ;-)
Em paradas inesperadas, Aline conheceu lugares incríveis como esse.  Foto: Acervo Pessoal/Aline Campbell
Em paradas inesperadas, Aline conheceu lugares incríveis Europa afora. Foto: Acervo Pessoal/Aline Campbell
O fato de ser mulher e estar viajando sozinha não lhe fez sentir vulnerável?
Riscos existem em qualquer lugar. Qualquer lugar. Por isso não gosto nem de utilizar essa palavra. Eu estava sempre com pensamentos positivos. Buscava acreditar e a confiar nas pessoas que pelo meu caminho passavam, e ao fazer essa conexão, mostrar a elas que eu não estava com medo nem nada, elas se abriam e me ajudavam.
Você acha que em países com maiores problemas estruturais e um maior abismo social seria mais difícil fazer algo do tipo com segurança?
Bom, eu estive na Sérvia e foi lá que encontrei um dos povos mais amigáveis que conheci durante a viagem. E estamos falando de um país pobre, com grande histórico de guerras e problemas sociais. Ano que vem, Brasil me espera. Eu não gosto de criar conceitos com base no achismo ou no “ouvi dizer”, portanto ou eu tenho certeza de algo (com base em experiencias e vivencias) ou eu não comento sobre.
Tem mais alguma coisa que você queria dizer sobre o projeto?
Às vezes a mim soa meio estranho dizer “projeto”, pois na verdade foi só uma maneira de amarrar os ideais aos quais eu acredito. Quero levar esses conceitos para mais e mais pessoas, sobre o poder de estar aberto ao desconhecido, confiar no mundo e fazer o bem, que o bem vem. É assim que na prática funciona. Gentileza gera gentileza. Menos coisas e mais momentos.
Quer saber mais sobre a viagem e os ideais de Aline? Veja um dos vídeos que ela fez (tem mais no canal dela no Youtube):
ATUALIZAÇÃO:
Depois de um post em outro blog, Aline fez outro vídeo respondendo a muitas perguntas que também surgiram nos comentários aqui: “Como ela entrou na Europa sem dinheiro?”, “Como conseguia comida?”, entre outras. Assista abaixo pra conferir o que ela tem a dizer ;) Quanto a mim, sou do time dos precavidos e sempre tento evitar riscos, seja na minha cidade ou fora dela (talvez mais fora dela, já que em “território desconhecido” me sinto mais vulnerável). Mas acredito que dá pra quebrar muitas barreiras e ao mesmo tempo tomar precauções.
Obviamente, o que Aline fez não é nada simples: em troca das experiências incríveis que ela viveu, teve que lidar com mil circunstâncias que não podia controlar e seguir as condições dos seus hosts, o que pode ser difícil pra muita gente. Também acredito que existiu uma boa dose de sorte envolvida, como em muita coisa na vida.
Quis contar a história dela aqui porque achei curiosa e inspiradora. Não que eu pense que devamos todos fazer o mesmo, mas acho que os princípios que tão por trás (entre outras coisas, fazer um “turismo” diferente, se abrir pra conhecer novas pessoas e viver coisas inusitadas e desapegar, na medida do possível, de bens materiais) são bem interessantes pra suscitar reflexão:) Ah, e eu já tinha contado várias histórias de viagens bem aventureiras aqui na tag Histórias de viajantes. Pra quem quiser mais inspiração, se joga por lá!
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Ponto de partida: Recife

23SET
Tou em Valla e tá tudo ótimo, mas vou explorar um pouco mais a cidade antes de dar mais notícias por aqui. Finalizando a longa série com histórias de viajantes ambiciosos, trago duas histórias de conterrâneos.

Um bom tempo depois de escrever a matéria que me fez entrar em contato com o pessoal dos últimos posts, tive a incumbência de achar gente do Recife que tivesse feito algo parecido, pra complementar outra matéria do JC. Pensei que seria difícil, mas que nada! Encontrei, em algumas horinhas, duas histórias massa. Uma delas de uma pessoa que eu já conhecia, mas de quem não tinha notícias há anos. Dessa vez, pedi pra que eles mesmos contassem suas histórias em primeira pessoa, mas pra vocês ficarem com ainda mais vontade de ler os relatos, vou dar aqui um gostinho ;)

Desbravando o mundo depois da faculdade

Ao concluir a graduação em psicologia, o recifense Rodrigo Gaião, 26 anos, decidiu levar uma vida pouco convencional. Conheci Gaião nos tempos de colégio e só fui saber recentemente que desde 2010 – com uma breve pausa de três meses pra matar as saudades do Brasil – ele tá na estrada, matando os amigos de inveja. Já passou por vários países na Oceania, Ásia e América Latina, e tá agora no Canadá, onde vai fazer um curso de pós-graduação. 

Fotos: Rodrigo Gaião/Acervo pessoal
Na Austrália, vez de apenas fazer um curso de inglês, ele também trabalhou lavando pratos, entregando panfletos e em um albergue. Depois de juntar uma grana, foi explorar a Ásia, onde viveu experiências incríveis, muitas delas enquanto vivia em uma ilha paradisíaca. Como se não bastasse, ele ainda aproveitou a companhia de um amigo pra conhecer a fundo o próprio continente. Quer saber mais? Clica aqui.

Casal de advogados sai em mochilão durante sete meses

Outra história incrível foi a do casal Ana Beatriz Paiva, 53 anos, e Bruno, também 53. Ele recifense, ela carioca. Em 2010, os dois advogados passaram nada menos que sete meses viajando, período que serviu como culminância de várias outras aventuras já vividas por aí, juntos e separados. Com três filhos crescidos, o casal decidiu deixar o Recife por tempo indeterminado e ir atrás do sonho de conhecer a realidade de outros países, sem pressa nem muito planejamento.

Fotos: Ana Beatriz e Bruno/Acervo pessoal
Estados Unidos, México, França, Polônia, Dinamarca, Holanda, Hungria, Rússia, Noruega e Suécia foram alguns dos países explorados pelo casal, que no total contabilizou visitas a 83 cidades. E o melhor é que, segundo Ana Beatriz, a experiência inspirou muitos amigos, que sempre pedem mais informações sobre a viagem, sonhando em um dia fazer o mesmo. Também quer conhecer mais detalhes sobre essa jornada? Vá em frente e clique aqui ;)

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Desafiando seus Sonhos

18SET
Todo mundo sabe que viajar vicia, né? Não satisfeitos com apenas uma grande viagem, muitos fazem questão de repetir a dose. Foi o caso da paulista Grace Downey, 35 anos, e do inglês Robert Ager, 47, idealizadores do Challenging your dreams (Desafiando seus sonhos). Entre 2002 e 2005, eles partiram em uma Land Rover mundo afora. Na volta, lançaram um livro sobre a experiência (Challenging your dreams – Uma aventura pelo mundo). Mas queriam mais. 

Em dezembro de 2009, Grace e Robert começaram outra expedição, intituladaBrasil por Terra e concluída um ano depois. Dela, nasceu outro livro: Traços do Brasil, que compila fotos tiradas por eles durante a jornada. Hoje eles participam de eventos e ministram palestras pra empresas, faculdades e escolas. “O projeto se tornou nosso meio de vida e continua sendo um sonho e um desafio”, resume Grace.

Professores de educação física e apaixonados por viajar e acampar, eles deixaram famílias e amigos chocados ao avisar que iam largar tudo e viajar em busca de um sonho. “No começo, ficaram achando que éramos malucos. Mas depois nos apoiaram”, conta Grace. 

A escolha por ir de carro partiu da liberdade pra partir quando quisessem. No caminho, dormiam em uma barraca no teto do veículo. Na primeira expedição,visitaram 50 países nos cinco continentes. “Gostamos muito do sul da África (África do Sul, Namíbia, Botsuana). Essa região superou nossas expectativas, que já eram altas”, recorda. Entre os desafios, a travessia do deserto do Saara. “Se você se perder ali, pode morrer”. 

No segundo projeto, o casal queria mostrar que também é possível conhecer cada cantinho do Brasil. “Todo mundo fala que o Brasil é muito perigoso, mas basta ter bom senso. Esse País não é explorado à altura do seu potencial”, opina. No site, eles criaram uma seção com dicas úteis sobre boa parte dos Estados brasileiros.
Confira entrevista com Grace:
Quando decidiram partir pra primeira viagem?

Saímos em janeiro de 2002 e decidimos apenas seis meses antes. Sempre falávamos que um dia íamos sair para viajar, então marcamos a data e começamos a organizar tudo. Na verdade foi uma loucura total, mas queríamos marcar uma data pra não ter desculpa. Tem que ter planejamento, mas também uma data, uma meta. Foi correria, mas deu tudo certo. 
Você nunca vai conseguir planejar tudo, ter dinheiro suficiente, o tempo ideal, mas tem que fazer o que dá e o resto vai adaptando no caminho. 

Como bancaram o projeto?

Quando saímos de São Paulo, tínhamos dinheiro apenas pra o primeiro ano. Então paramos na Inglaterra por sete meses pra trabalhar e juntar mais dinheiro (porque meu marido é inglês) e continuamos por outros dois anos. 

Acampando na beira do Rio Juquiá (SP)
Visitaram todos os lugares que tinham planejado?

Alguns lugares estavam no nosso planejamento inicial, mas quando chegamos não deu, como o Sudão, que estava em guerra. Então mudamos um pouco o roteiro porque vimos que não valia a pena arriscar. O Iraque também estava com uma situação ainda ruim. Alguns riscos são maiores que outros e não valiam a pena.
Que países marcaram mais?

Vários lugares são especiais, mas uma região que gostamos muito foi o sul da África (África do Sul, Namíbia, Botsuana). Sempre tivemos uma expectativa enorme de conhecer essa parte do mundo, como se fosse um Discovery Channel particular, e superou todas as expectativas. Como tínhamos um carro estruturado pra isso, tínhamos liberdade para fazer os safaris pelo tempo que quiséssemos, então foi espetacular, marcou muito. É uma região que a gente com certeza recomenda e gostaria de voltar. O deserto do Atacama, o Canadá e a Índia também são interessantíssimos.

Rio Amazonas
E qual foi a parte mais desafiadora?

A travessia do deserto do Saara. Passamos por um cantinho dele, nesse trecho nos juntamos com mais dois carros por questões de segurança. Caso você se perca no meio do deserto pode morrer lá, porque ninguém vai lhe encontrar. A travessia foi super tranquila, sem problemas. Logo depois, fomos pra um percurso sozinhos numa região bem inóspita. Se alguma coisa tivesse acontecido lá estaríamos em sérios apuros. Tinha trilhas com pedras, alguns vilarejos não tão amigáveis.
Que balanço faz sobre essa primeira viagem?

No geral, tem muito mais coisa boa e pessoas boas no mundo do que problemas e pessoas ruins. Um dos nossos objetivos é falar isso, as pessoas sempre focam nas coisas negativas e queremos mostrar justamente o contrário.
Pra explorar o Brasil, como fizeram?

Queríamos passar por todos os Estados brasileiros e tínhamos um roteiro geral no mesmo estilo da primeira viagem. Dessa vez tínhamos que evitar não o frio, mas as épocas de chuva, porque as estradas ficam muito ruins. Começamos descendo pro Sul, depois subimos até o Pantanal. A região Norte do Brasil é totalmente diferente do Sul, foi muito interessante.

Búzios (RJ)
Esse segundo projeto foi mais fácil?

Foi, porque já tínhamos experiência e porque não tinha a questão de fronteiras, burocracias. Tem algumas estradas bem ruins, mas como temos um carro adaptado não foi tão complicado. Um dos maiores desafios é de Manaus pra Porto Velho, a única estrada que tem, uma BR, na verdade é uma trilha. São 600 km, 700 km sem ninguém e várias pontes que não são mantidas. Demoramos quatro dias pra fazer esse percurso, andando a 15 km por hora. Foi bem tenso, um desafio grande, mas graças a Deus a gente conseguiu passar. Outra parte difícil foi atravessar o rio Amazonas. É difícil conseguir uma balsa para ir junto com o carro. 

E o balanço dessa segunda viagem?

Quisemos mostrar que é possível. Todo mundo fala que o Brasil é muito perigoso. É claro que existe o risco, como em qualquer lugar, mas se você tiver bom senso, no fundo temos mais pessoas boas do que ruins. Outra coisa é que o Brasil é maravilhoso, tem muita coisa bonita para se conhecer, praia, floresta, sertão, chapada. É um país muito rico e não explorado à altura do potencial que tem. Os próprios brasileiros vão pra fora antes de visitar o próprio país.
Vocês pensam em ter filhos?
Sim. Se começarmos uma família realmente fica um pouco mais complicado no início, mas depois pretendemos levar junto. É outro ritmo de viagem, mas é totalmente possível. Conhecemos várias famílias viajando.

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Contei um pouco da história de Grace e Robert pela primeira vez no caderno de Turismo do Jornal do Commercio, em setembro de 2011. Todas as fotos que ilustram o post são creditadas ao projeto Challenging your dreams, de autoria de Grace Downey e Robert Ager.

Mil dias nas Américas

17SET
Foi a paixão por viagens que despertou o interesse do economista Rodrigo Junqueira, 42 anos, pela publicitária Ana Biselli, 30. “Ao ouvir Ana contar sobre sua viagem pra Indonésia pra uma amiga, Rodrigo quis conversar com aquela moça falante”, contam. Ele economista, ela publicitária, mas antes de tudo aventureiros: mergulhadores e alpinistas, praticam natação, ciclismo e corrida. Juntos, partiram de Curitiba em março de 2010 na expedição 1000 dias por toda a América. Como não podia deixar de ser, criaram um site pra compartilhar histórias e fotos da viagem, em que percorrem as Américas em uma caminhonete modificada.

Eles, que ainda estão na estrada, fazem questão de ressaltar que não é preciso ser super-homem ou super-mulher pra realizar uma viagem como essa. “No entanto, é preciso ter disposição pra vivenciar situações adversas e ficar longe da família, além de um grande poder de adaptação, pois estamos lidando o tempo todo com culturas, comidas e estruturas diferentes”, pondera Ana. 
A caminhonete Fiona enfrenta o granizo no Parque Cotopaxi, no Equador

Muitos se perguntam: e como bancar tudo isso? “Com nossas próprias economias. Gastamos em torno de R$ 5 mil por mês. Em vez de comprarmos um apartamento, resolvemos investir nessa viagem”, explica Ana. Quem duvida de que foi um bom investimento?

O casal viveu tanta coisa que não consegue eleger qual foi a mais incrível. “Nos encantamos com a revoada dos guarás em Trinidad, o mergulho em Noronha, a convivência com a comunidade na Ilha de Lençóis, no Maranhão, e o encontro com Tom, um inglês que viveu por dois anos na Antártida, nas Ilhas Virgens”, enumeram. Confira o roteiro aqui e acompanhe as viagens do casal nos blogs de Ana e Rodrigo.

Segue abaixo a entrevista que fiz com Ana:

Como surgiu a ideia da viagem?

Tudo começou por uma simples viagem de férias, com duração de 30 dias pelo litoral brasileiro de carro. Mas era pouco, 30 dias não seriam suficientes. “Precisamos de pelo menos 3 meses”, disse o Rodrigo. Aos poucos, o sonho começou a crescer e vimos que seria possível ampliar a viagem. Demorou quase um ano e meio para que ficasse definido que faríamos todo o continente.

Ana com crianças de San Marcos la Laguna, na Guatemala
Foi difícil convencer amigos e família de que largar tudo e ir pra estrada era uma boa ideia?

No começo todos estranharam, pois nós tínhamos bons trabalhos, vidas bem estabilizadas e havíamos casado fazia pouco tempo. O rumo normal seria unir as economias, comprar um apartamento, ter filhos, etc. Acredito que do meu lado foi mais fácil, todos apoiaram, a não ser o chefe que me fez uma proposta pra continuar na empresa. Meus pais e amigos já me conheciam e sabiam que esse era um sonho antigo. Rodrigo, por ser um pouco mais velho, enfrentou um pouco mais de resistência de seus pais, que achavam que já seria
hora dele fixar raízes e pensar no futuro, afinal já não era a primeira vez que ele partia pra uma longa viagem.

Qual foi o lugar que mais os encantou?

Essa pergunta é difícil, ela poderia ter inúmeras respostas e todas seriam corretas. Já que temos que escolher uma, o Sertão nordestino seria sem dúvida um destes lugares. Uma riqueza de vida e histórias, paisagens fantásticas nunca imaginadas por grande parte dos brasileiros que se contentam em achar que lá só há pobreza e caatinga seca. Lugares como Lage do Pai Mateus (Paraíba), a Serra da Capivara (Piauí), Parque Nacional do Catimbau (Pernambuco), entre outros. Foi mesmo uma surpresa!

Quais foram os maiores desafios que vocês enfrentaram?

Cruzar 200km em trechos sem estradas entre o extremo sul do Maranhão e o 
Jalapão em dois dias, chegar ao cume de um vulcão de 5820m no Perú, mergulhar a 60m de profundidade em Noronha. Os desafios surgem a cada dia e essa é uma das maiores motivações da nossa viagem.

Parque Nacional Cajas, na região de Cuenca, no Equador
O que mudou nas suas vidas desde o início da viagem? 

Aprendemos a dar valor a cada dia, respeitar e admirar cada vez mais a 
cultura e a história de cada povo e cada pessoa que encontramos no caminho. Treinamos o desapego e o jogo de cintura para enfrentar situações inesperadas e adversas, tudo que é tão diferente passa a ser parte do seu dia a dia.

Castillo San Felipe, em Cartagena, na Colômbia
O que tem de melhor e de pior em viver na estrada?

O melhor é vivermos intensamente todos os dias, sempre em lugares bonitos e diferentes. O pior é a rotina cansativa de fazer e desfazer malas, carregar e descarregar o carro.

Vocês dormem no carro?

Até podemos dormir em situações especiais, mas como regra, dormirmos em pousadas e hostals. Adoramos um chuveiro quente e lençóis limpos.

Iguana em Tortuga Bay, na Ilha de Santa Cruz, em Galápagos
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Histórias de Alice: casal de fotógrafos percorre o interior do Brasil numa kombi

Pedal na Estrada: jovem dá a volta ao mundo sozinho, de bicicleta

Grandes Jornadas: histórias de viajantes profissionais

Contei um pouco da história de Rodrigo e Ana pela primeira vez no caderno de Turismo do Jornal do Commercio, em setembro de 2011. Todas as fotos que ilustram o post são creditadas ao projeto 1000 dias nas Américas, de autoria de Ana Biselli e Rodrigo Junqueira. 

Histórias de Alice

13SET
Quando contei a história de Arthur, falei que apesar de encontrar muita gente querendo explorar turistas e até crianças que lhe apedrejavam (!), o que o marcou durante sua volta ao mundo de bike foi a bondade das pessoas. E também foi isso que chamou a atenção do casal de fotógrafos Inês Calixto, 48 anos (paranaense), e Franco Hoff, 38 (gaúcho), criadores do projeto Histórias de Alice.

Em maio de 2010, eles saíram de São Paulo pra viver viajando pelo interior do Brasil, a bordo de uma Kombi branca com adesivos laranjas, transformada em motorhome e apelidada de Alice. “As pessoas simples têm uma generosidade inacreditável. Isso foi muito marcante em todas as comunidades que visitamos”, me disse Inês, um ano atrás. O casal passou dois anos a bordo da Alice e hoje está de volta a São Paulo.

O projeto nasceu da vontade de investigar o modo de vida de pessoas simples, de comunidades do interior do Brasil, e documentar isso em textos, fotos e vídeos. “Gostamos de deixar algo em contrapartida, já que essas pessoas dividem tanto conosco”, diz Inês. Por isso, o casal ofereceu oficinas de leitura e fotografia, contação de histórias – com a participação de uma marionete chamada Chico, comprada aqui em Pernambuco – e sessões de cinema gratuitas. 

Ao todo, eles percorreram 60 mil quilômetros, visitando 21 estados e cerca de 400 cidades. Tanta estrada, conta Inês, fez com que eles se conhecessem melhor. Outra coisa que mudou foi a visão que têm do País: “A gente não tinha a dimensão do quanto a pobreza é extensa e intensa no Brasil. Vimos muita beleza, sabedoria e luta. Encontramos várias pessoas com histórias similares, que perderam a terra e os sonhos”, relata. 


E eles não pretendem parar por aí. “Nos descobrimos nessa vida de viajantes”.  Mas antes de cair na estrada novamente, tão trabalhando em três livros: o diário de viagem de Alice, Um Brasil de causos, contos e encantos e um livro de fotografia, Pelo retrovisor. O projeto foi aprovado pela Lei Rouanet e eles tão captando recursos pra financiá-lo.

Confira um trecho da entrevista que fiz com Inês:
De onde surgiu a ideia de oferecer oficinas?

O objetivo principal era a viagem, mas pensamos que pra fotografar, coletar cultura, pegar histórias, tínhamos que deixar algumas coisas pra as pessoas em contrapartida. Juntamos a ideia da viagem com a ideia da inclusão cultural. Achamos que seria uma forma legal de devolver isso para a comunidade. 

O que mudou em vocês?

Aprendemos a viver no limite. Nos impusemos um tipo de vida muito dura, sem ar condicionado, sem geladeira, com muito pouca grana comparado com o que a gente vivia em São Paulo. Vivíamos no improviso. Com insegurança da estrada, de onde dormir, onde ficar, às vezes falta de banheiro, falta de chuveiro. Não podíamos deixar a kombi em qualquer lugar, porque toda a pesquisa tá dentro, documentos, etc. Foi um desafio bem grande. A grande sacada é que a cada dia você conhece uma coisa diferente e se conhece também, nos seus limites. Para nossa relação, foi muito bacana. 24h por dia juntos e em situação limite. Fomos vivendo uma vida assim meio maluca e por incrível que pareça isso deu certo. 


O que viram de mais marcante?

Sempre encontramos muita bondade. As pessoas simples, embora não tenham estudo, têm uma generosidade inacreditável, surpreendente, e ausência de preconceito. Elas são abertas para o pouco que você dá para elas e fazem uma grande festa. Isso foi muito marcante em todas as comunidades. Procuramos os lugares menores, com menor infra-estrutura. Também vimos o quanto a pobreza é extensa e intensa no Brasil. Essas pessoas têm histórias muito similares de quem perdeu a terra, foram arrancadas dos seus sonhos. São pessoas que trabalham muito e não conseguem sair  de onde estão, então isso dói. Também doeu ver o quanto é tudo desmatado no sul do Pará, por exemplo. Quando chega uma mineradora em uma comunidade eles não são consultados, não têm o que fazer. Sofrem a consequência de um desenvolvimento que não nos inclui. Você vê a beleza, a sabedoria, a luta. Isso é o que mais causa impacto. Por mais que o Brasil tenha melhorado, mas para o padrão de vida que a gente tinha isso choca demais. Antes de viajar, a gente não tinha a dimensão do quanto isso era extenso. Você vai pro shopping, pro cinema, pra praia, sua casa é boa, mas de repente a gente passou a almoçar com pessoas que hoje têm carne, mas que em alguns dias não tiveram. Vêm de uma história de falta.

Como pagaram pela viagem?

Das nossas demissões não conseguimos juntar uma quantia muito grande. Ajustamos o carro e fizemos uma poupança para pagar a viagem. Assim, saímos com dinheiro suficiente para seis meses de viagem. Quando estávamos saindo de SP, duas editoras nos chamaram e compraram textos mensais do diário de bordo. Foram elas que praticamente sustentaram o projeto. Era um volume de dinheiro muito pequeno, mas pagava combustível e alimentação.

Contei um pouco da história de Inês e Franco pela primeira vez no caderno de Turismo do Jornal do Commercio, em setembro de 2011. Todas as fotos que ilustram o post são creditadas ao projeto Histórias de Alice, de autoria de Inês Calixto e Franco Hoff.

Pedal na Estrada

11SET
Começando as histórias de que falei no post anterior, chamo à palavra aquele de quem já falei: Arthur Simões, 30 anos, fotógrafo e nômade. “O mundo não é tão perigoso quanto mostram na televisão”, me garantiu. E se ele tá dizendo, pode confiar: entre 2006 e 2009, Arthur deu a “volta ao mundo” (roteiro aqui) sozinho, de bicicleta. É claro que não foi moleza. Ele sofreu dois acidentes, foi hospitalizado com problemas gastrointestinais na Índia e passou por momentos de pânico fugindo de pedradas na Etiópia, entre outros apuros. 

Ainda assim, ele afirma que tudo valeu a pena. “A cada dia eu via pessoas e paisagens diferentes. Era incrível poder viver tão intensamente”, relata. Pra ele, o maior impacto da viagem foi a gentileza de quem encontrava pelo caminho. “Sempre me ajudaram muito. As pessoas me recebiam em casa e me davam presentes. Chegaram a me parar na estrada pra me dar uma arma, pra eu me proteger”, conta.

Fotos: Arthur Simões
Mas espera aí: como foi isso? Mais uma vez, tou pulando o começo da história. Senta aí que eu conto. O ano era 2006. Aos 24 anos, Arthur Simões erabacharel em direito, mas não exercia a profissão. Em vez disso, dava aulas de ioga e sonhava em viajar. Até que surgiu a ideia de unir o sonho a uma paixão que alimentava desde criança: andar de bicicleta. Só o que faltava era dinheiro (ok, não é bem um detalhe), mas isso não o fez desistir. Determinado, Arthur decidiu correr atrás de patrocínio, batendo de porta em porta até achar quem topasse bancar a viagem. 

Pra consegui-lo, teve a ideia de criar o site Pedal na Estrada, onde registrou costumes e curiosidades dos lugares visitados em textos, imagens e vídeos. A ideia era usar o material como fonte de informação em escolas de todo o Brasil. O projeto educativo deu certo, mas a viagem foi além. Ela mudou a vida de Arthur, que no percurso descobriu-se fotógrafo, profissão que agora pratica, e mudou sua visão de mundo. 

Farol embeleza paisagem na Austrália
Foto: Arthur Simões
A viagem terminou em 2009 e, depois de 37 mil km rodados em 46 países durante três anos e dois meses, não faltam histórias pra contar. “Viajando sozinho, você tem uma imersão maior em cada cultura. Fui em lugares incríveis que não costumam receber turistas, como Mianmar e Iêmen. Tudo era muito autêntico, foi impressionante.” Pra potencializar ainda mais essa imersão cultural (e economizar dinheiro), quando possível Arthur se hospedava na casa de habitantes locais. “Não há melhor forma de ver como as pessoas vivem do que estando dentro da casa delas”, explica.

E além do site e das palestras que ele dá mundo afora, a viagem foi materializada em forma de livro, como eu contei antes. Lançado no fim de 2011, O Mundo ao Lado  traz relatos sobre o longo percurso, incluindo trechos de diários escritos na época. O livro peca em alguns aspectos, principalmente a revisão – errinhos de ortografia e principalmente de digitação não são poucos, infelizmente -, mas não deixa de ser interessante ver o que passou pela cabeça de um jovem que resolveudeixar pra trás uma vida confortável e passar mais de três anos sozinho (com exceção de breves intervalos em que algum amigo ou recém conhecido o acompanhava), vivendo em condições não muito agradáveis.

Não pude deixar de pensar que, em muitos momentos, Arthur poderia ter tido mais cautela - afinal, se arriscar nem sempre é necessário pra ter uma “experiência autêntica”, e partir pra uma volta ao mundo sem cuidados básicos como tomar as vacinas necessárias não é exatamente a coisa mais inteligente a se fazer, como ele mesmo pôde constatar. Em alguns momentos, me pareceu que ele estava mais lutando por sua sobrevivência do que qualquer outra coisa. Por outro lado, seus relatos me inspiraram a relativizar os inevitáveis perrengues e exercitar a flexibilidade diante das situações que a viagem nos apresenta

Sozinho e concentrando boa parte do roteiro em países pouco amigáveis a turistas (em muitos deles, conta, era visto como uma nota de dólar ambulante), cada dia era um desafio pra Arthur e exigia uma boa dose deadaptação aos costumes locais. Constatar que ele conseguiu resolver tais desafios (contando, às vezes, com uma boa dose de sorte) faz pensar duas vezes antes de reclamar pelo atraso de um voo ou algo do tipo.

As condições do barco que o levou do Iêmen a Djibouti não eram as melhores…
Foto: Arthur Simões

A hospitalidade foi marcante no Iêmen
Foto: Arthur Simões
Entre outras coisas, Arthur pôde observar a diferença na forma como é tratado o povo original da Austrália, os aborígenes, e os nativos da Nova Zelândia (esses últimos, conta, são mais respeitados e inseridos na sociedade). “Os aborígenes estavam ainda fortemente ligados a seus costumes primitivos e ancestrais que, para as condições do deserto, eram perfeitos. Mas também eram incompatíveis com a cultura trazida pelo europeu, que não conseguia aceitar o estilo de vida que essas pessoas levavam”, diz.

Passando pelo Iêmen, um dos países que mais o impressionou pela hospitalidade das pessoas, ele observou que há duas vidas distintas no mundo árabe: uma dentro de casa e outra fora dela. “As mulheres ficavam restritas a essa vida privada”, diz, enquanto os homens “na rua eram machões, cultivavam bigodes, cara feia, carregavam facas, pistolas e metralhadoras, fumavam cigarros, mascavam qat – a droga local – e podiam fazer o que bem entendessem. Mas dentro de casa, quase sempre se submetiam às regras das mulheres, quando casados”. Ele até ficou, vejam só, mais de um ano sem entrar em contato com mulheres (eu disse que a viagem foi difícil!).

Resumir três anos de viagens em 200 páginas não é tarefa fácil. Por isso, senti falta de mais informações a respeito dos lugares pelos quais Arthur passou e mais histórias sobre as pessoas que encontrou. Mas gostei da sinceridade com que ele relatou as experiências vividas, já que obviamente nem tudo são flores em uma jornada como essa e é muito bonitinho voltar de uma viagem falando apenas do que deu certo. “O mundo que eu havia visto não era assim tão romântico quanto as pessoas esperavam ouvir. Ele era maior e mais complexo do que geralmente estamos acostumados a pensar”, observou. Principalmente quando não estamos só batendo ponto nos lugares mais turísticos…

A convivência com a população de cada lugar, como essa família paquistanesa, foi o ponto alto da viagem
Foto: Arthur Simões
No final, Arthur tava cansado, como era de se esperar. “As mudanças pelas quais eu constantemente passava, de temperatura, idioma, costumes, país, comida e água esgotavam meu corpo”, conta no livro. Em muitos momentos, ele se sentiu perdido e se espantou com o quanto havia mudado. Por isso, a volta pra casa não foi fácil – foi, na verdade, uma das partes mais difíceis da jornada, diz. Mas tudo o que viveu fez de Arthur uma pessoa mais tolerante. Aprendi a respeitar mais e a julgar menos. Fiquei mais livre”, reflete. Pra quem quiser mais, o livro tá nas livrarias e o Pedal na Estrada tá também cheinho de histórias fotos :)

“Definitivamente, eu não ligava tanto para a paisagem e riquezas dos países – estes fatores me influenciavam também -, mas estava mais interessado nas pessoas e em como elas tratavam as outras pessoas. Para mim, um país não era feito apenas de paisagens, estradas, cidades, mas especialmente de pessoas.” (página 130)



Contei um pouco da história de Arthur pela primeira vez no caderno de Turismo do Jornal do Commercio, em setembro de 2011. Todas as fotos que ilustram o post são de autoria de Arthur Simões e foram publicadas no site Pedral na Estrada.

Grandes jornadas

10SET
Eu ia falar hoje do livro O mundo ao lado, de Arthur Simões, que acabei de ler há pouco. Arthur passou três anos dando a volta ao mundo de bicicleta e conta, no livro, um pouco sobre essa aventura. Mas achei melhor começar do começo. “Conheci” Arthur (por telefone) por causa de uma matéria que escrevi pra o JC. Foi das mais inspiradoras, viajantemente falando :)

O tal começo aconteceu quando fui descobrindo várias histórias de pessoas que partem em grandes jornadas. Gente que larga trabalho, amigos, família, vende todos os bens e sai pela estrada – com pouco mais do que algumas mudas de roupa – por anos, com objetivos ambiciosos como conhecer todos os países das Américas ou até dar a volta ao mundo, seja de carro, barco ou de bike. Muito tempo de viagem, muitas vezes em condições difíceis. Muitos quilômetros rodados, muitas fronteiras cruzadas. Como resultado, um sem fim de histórias e de aprendizado sobre si mesmos e sobre o mundo

A bike de Arthur foi sua única companhia durante boa parte da viagem
Foto: Divulgação/Arthur Simões – Pedal na Estrada
Todos, sem exceção (pleonasmo, beijo), responderam a mesma coisa quando perguntei o que mais os marcou na trajetória: a bondade das pessoas. Todos falaram que o mundo não é tão perigoso quanto pensamos e que há muito mais coisas boas do que ruins. Ouvindo os relatos desses grandes exploradores, impossível não morrer de vontade de partir em uma aventuraamanhã mesmo. Não só pela satisfação pessoal de ver com os próprios olhos todo esse mundão; sentir os cheiros, experimentar os diferentes sabores, ouvir os mais variados sons da natureza e da gente por aí afora. Mas também pra contribuir, assim como eles, pra que cada vez mais gente queira ir muito além do quintal de casa, do universo seguro a que estamos acostumados, da rotina confortável e sem grandes surpresas. Porque nada vale mais a pena do que correr atrás de um sonho

Nos próximos posts, vou contar a história de cada uma dessas pessoas – entre eles, Arthur -, pra vocês terem também esse gostinho que eu tive ao falar com eles. Quem sabe não é a sua história que eu venho contar aqui, daqui a um tempo?

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Não há fatos, apenas interpretações.



terça-feira, 12 de novembro de 2013

O Fim da Canção


O cantor, compositor e pianista José Miguel Wisnik e o compositor, violinista e escritor Arthur Nestrovski se uniram para um ciclo de aulas-show apresentando uma seleção de canções da música brasileira dos últimos 50 anos, compondo um minipanorama musical.

A cada encontro, Wisnik e Nestrovski abordam o assunto partindo de algumas canções-chave, interpretadas ao vivo e depois comentadas em contraponto com novos questionamentos.
Tendo como pano de fundo o debate sobre a "morte da canção", os dois artistas cantam e contam a música brasileira, além de situá-la no contexto artístico contemporâneo passando por temas que vão da formação do cancioneiro brasileiro ao artesanato de letra e música, das potências transformadoras da Bossa-Nova e do Tropicalismo ao novo estatuto da canção.





O fim da canção - Promessa de felicidade

http://ims.uol.com.br/Radio/D390

Programa 1 - Promessa de felicidade - Bloco 1
11:28
Programa 1 - Promessa de felicidade - Bloco 2
12:16
Programa 2 - Mas a base é uma só - Bloco 1
11:59
Programa 2 - Mas a base é uma só - Bloco 2
08:42
Programa 3 - O Tom de todos nós - Bloco 1
12:53
Programa 3 - O Tom de todos nós - Bloco 2
09:08
Programa 4 - A eterna garota - Bloco 1
13:18
Programa 4 - A eterna garota - Bloco 2

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O fim da canção - Visões do paraíso

http://ims.uol.com.br/Radio/D530

Programa 5 - O mito de Itapuã
19:52
Programa 6 - Caymmi e o pacto com o tempo
20:08
Programa 7 - O lugar da canção
21:18
Programa 8 - Amuleto antimelancolia

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O fim da canção - Tropicália

http://ims.uol.com.br/Radio/D628

Programa 9 - A canção tropicalista
33:56
Programa 10 - Tropicália: alegoria e intervenção
25:23
Programa 11 - Tropicália: alegoria e intervenção II
21:45
Programa 12 - Tropicália: prosa e canção
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O fim da canção - O fim do fim da canção

http://ims.uol.com.br/Radio/D695

Programa 13 - O fim da canção
15:55
Programa 14 - Chico Buarque: A canção no limite
25:36
Programa 15 - Caetano Veloso: Transamba e transrock
35:18
Programa 16 - Los Hermanos: A canção expandida



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Artigo de Fernando de Barros e Silva publicado na edição # 3 da revista serrote
(clique aqui para ver outros destaques da publicação).
 O Fim da Canção

Foi numa tarde de dezembro de 2004, durante uma longa entrevista concedida em seu apartamento, em Paris, que Chico Buarque levantou dúvidas a respeito da relevância e do lugar da canção no mundo contemporâneo. Quem sabe ela fosse um gênero do século passado, e a irrupção de um fenômeno como o rap, o sinal mais evidente de que seu tempo passou.[1] Vindo de quem vinha, causou um discreto alvoroço. Ainda que enunciada na forma de uma interrogação e cercada de cuidados, a declaração daria outro alcance a uma discussão que já havia se insinuado em círculos especializados, mas sem maiores repercussões. Chico instaurava a questão para um público amplo. Mais do que isso, dava lastro e rosto a um mal-estar de que era não só observador, mas protagonista, tocando mais uma vez em um nervo sensível da cultura brasileira. 
 
Convém iniciar relembrando o núcleo do que ele disse, para então procurar discernir, sob o primeiro impacto que a ideia provoca, qual é seu peso real, o que nos permite tratar de alguns mal-entendidos que ela engendrou. Tomar o “fim da canção” ao pé da letra, pelo valor de face, parece tão equivocado quanto imaginar, na ponta oposta, que estamos diante de um artifício retórico, um mero truque de linguagem.[2] Nem uma coisa nem outra, a pedra, também aqui, está no meio do caminho. 
 
Com isso, espera-se, enfim, esclarecer como a obra recente de Chico irá traduzir a desconfiança aguda de que sua existência se tornou, mais do que nunca, problemática, a despeito da consagração do artista. Em outras palavras, em Carioca, naquilo que ele tem de melhor, a canção, apesar de tudo, se constitui como cifra de uma experiência social que parece transbordar seus limites, desafiando-a. 
 
Chico especulava naquela entrevista: 
 
Talvez tenha razão quem disse que a canção, como a conhecemos, é um fenômeno próprio do século passado. […] A minha geração, que fez aquelas canções todas, com o tempo só aprimorou a qualidade da sua música. Mas o interesse por isso hoje parece pequeno. Por melhor que seja, por mais aperfeiçoada que seja, parece que não acrescenta grande coisa ao que já foi feito. E há quem sustente isso: como a ópera, a música lírica foi um fenômeno do século 19, talvez a canção, tal como a conhecemos, seja um fenômeno do século 20. No Brasil, isso é nítido. Noel Rosa formatou essa música nos anos 1930. Ela vigora até os anos 1950 e aí vem a bossa-nova, que remodela tudo - e pronto. 
  
Logo em seguida, depois de apontar esse “interesse pequeno” pela produção atual de uma geração que, no entanto, só “aprimorou a qualidade da sua música”, Chico faz a conhecida referência ao rap, fala da sua dificuldade para voltar a compor e termina por associar seu trabalho à figura e à influência soberanas de Tom Jobim: 
 
Quando você vê um fenômeno como o rap, isso é de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos. Talvez seja o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou. Estou dizendo tudo isso e pensando ao mesmo tempo que talvez seja uma certa defesa diante do desafio de continuar a compor. Tenho muitas dúvidas a respeito. 
[…] 
Esse pessoal [do 
rap] junta uma multidão. Tem algo aí. Eu não seria capaz de escrever um rap, e nem acho que deveria. Isso me interessa muito, mas não como artista e criador. O que eu posso é refazer da melhor maneira possível o que já fiz. Não tenho como romper com isso. E quando penso na melhor maneira possível, penso imediatamente em Tom Jobim. Ele foi meu mestre desde o começo. E, depois que ele morreu, eu sinto paradoxalmente ele mais presente na minha maneira de pensar a música e mais presente no panorama geral da música brasileira.[3] 
 
No final de 2004, é muito possível que Chico tivesse em algum lugar da memória a entrevista com José Ramos Tinhorão, publicada poucos meses antes. Nos termos daquele seu marxismo, movido a golpes de tacape, o crítico havia decretado sem mais o fim “dessa canção que nasce contemporânea do individualismo burguês”, para saudar, com ares de vingança, a “grande novidade” do rap, que vinha “restaurar a música da palavra”. Mas dizia isso ressalvando - porque então não seria ele - que “a maior parte desses raps é bronca de otário da periferia”.[4] Não é o caso de perder muito tempo com Tinhorão. Basta lembrar o esclarecimento feito por José Miguel Wisnik a respeito da paternidade da ideia (ou da origem da discussão em torno da ideia) de que o rap era “a grande novidade” no cenário musical brasileiro. No posfácio que escreveu ao seu ensaio “Global e mundial”, transcrição de um debate realizado em 2001 numa universidade carioca, Wisnik recorda que, na presença do próprio Tinhorão, com quem dividia a mesa, ele havia chamado a atenção para o significado do rap no país, o que é fato:
 
Quero comentar, entre tudo o que se seguiu à época áurea da MPB (cuja centralidade no mercado musical brasileiro parece ter durado até o início dos anos 1980), um acontecimento forte e significativamente fora do esquadro popular-nacionalista: refiro-me ao rap de São Paulo, tal como se encontra realizado, por exemplo, no CD Sobrevivendo no inferno, dos Racionais MC’s. Para mim, esse é o mais marcante fato novo da música no Brasil desde muito tempo, como expressão social, como linguagem, como fenômeno de produção, distribuição e criação de público.[5]
 
Quando, na entrevista, retomou à sua maneira o problema, Chico vinha de um longo silêncio. Havia lançado Budapeste, em 2003, sem nada declarar, e atravessado o ano de 2004 praticamente recluso, “viciado em anonimato”, como o personagem do romance, o ghost-writer Zsoze Kosta/José Costa, esquivando-se, em particular, de um intenso assédio da mídia por ocasião dos seus 60 anos, completados em junho. É sintomático que ele tenha resolvido questionar a pertinência atual da canção, pondo sob suspeição a continuidade da tradição a que pertence, justamente no momento em que começava a se ocupar de seu novo CD. As cidades, então seu último trabalho musical solo, era de 1998, já do “século passado”. Entre as composições inéditas de Carioca, que seria lançado em maio de 2006, quase um ano e meio depois, apenas “Porque era ela, porque era eu”, título derivado de uma conhecida frase do filósofo Michel de Montaigne, estava pronta àquela altura. 
 
Chico também voltava à música porque praticamente iniciava naquela viagem a Roma e Paris uma longa sequência de depoimentos para a série de programas de TV (depois organizados em 12 DVDs) concebida por Roberto de Oliveira. Lembro-me de presenciar nos intervalos das gravações, que pude acompanhar, o interesse do compositor em conhecer alguns “proibidões” que o fotógrafo João Wainer ia lhe mostrando no iPod. Vertente do funk que anima os bailes nos morros cariocas, onde é comercializado de forma clandestina, o “proibidão” costuma exaltar em suas letras as façanhas do crime organizado ligado ao tráfico, valendo-se muitas vezes do humor para escarnecer da polícia. Responsável pela direção de fotografia das filmagens, autor de um trabalho importante sobre o extinto Carandiru e grande conhecedor do universo musical dos manos da periferia, Wainer ainda iria, em outras ocasiões, apresentar a Chico exemplos do rap paulista, dos Racionais MC’s a grupos menos conhecidos, assunto que ainda era objeto de discussões um ano depois, em novembro de 2005, quando voltamos a Roma para gravar o programa dedicado aos Saltimbancos
 
Roberto de Oliveira tinha acumulado ao longo de décadas um acervo precioso de gravações com Chico, que começou a registrar no início dos anos 1970, quando se conheceram. A iniciativa de reunir esse baú de imagens dispersas - muitas delas pouco conhecidas, algumas de valor histórico -, alinhavando-as com comentários recentes, embora tivesse um inegável aspecto convencional, acabou oferecendo ao artista uma oportunidade única para rever com calma a sua trajetória. Para alguém sabidamente avesso à ideia de se explicar, a desenvoltura, a descontração e o bom humor que ele demonstrou ao longo das suas intervenções é algo que chama a atenção. 
 
Mais tarde, Chico diria a respeito da maratona a que havia se submetido:
  
O Roberto foi me engambelando [risos]. A ideia inicial eram dois ou tres programas. Achei que a proposta de recuperar imagens de arquivo, que de outra forma ficariam perdidas, justificava o trabalho. Mas so fazia sentido se isso viesse acompanhado de algo mais.[6]
 
Vendo o resultado deste “algo mais”, deve-se imaginar que foi ele quem desde o inicio se deixou engambelar, aproveitando a ocasião para ensaiar um balanço de sua obra, que conduziu de maneira muito característica, ao mesmo tempo espontânea e refletida, como quem passa a vida a limpo e pinga os “is” contando casos, resgatando histórias, iluminando aqui e ali, com a lanterna da memória, detalhes ou pontos da estrada percorrida - e na qual vamos nos reconhecendo.
 
É essa mesma disposição do cronista que vai ao ponto como quem joga conversa fora, esse zelo compreensivo que não dispensa o gosto pelas coisas concretas que reaparece com forca nos depoimentos tao desprendidos quanto certeiros de Chico a respeito de Vinicius de Moraes, no filme Vinicius dirigido por Miguel Faria Jr. em 2005. Ali, já perto do fim do documentário, numa passagem fulcral, ele comenta que seria difícil imaginar o lugar do poeta nos dias de hoje:
 
Não sei onde estaria Vinicius de Moraes hoje em dia. Porque ele e o contrario de muita coisa que hoje é vitoriosa: a ostentação… Ele tinha uma coisa muito generosa, às vezes ingênuo, às vezes porra-louca, coisas que não existem mais hoje. Nem a porra-louquice, nem a generosidade, muito menos a ingenuidade. 
Existe sempre um resultado que se busca, um objetivo, uma coisa pragmática - tudo o que Vinicius não era. Então, ele faz muita falta, ou, talvez, ele não pudesse mesmo estar vivo sendo Vinicius hoje. Não imagino em que lugar ele estaria dentro deste país em que a gente vive - deste país e deste mundo.
  
Há, nesse testemunho, uma espécie de síntese feliz da alma e do significado histórico do personagem que vinha sendo retratado ao longo do filme: no momento em que se revela, ou é enfim revelado, Vinicius se distancia de nós. 
 
É curioso notar, no entanto, que no final, já depois da exibição dos primeiros créditos, Chico reaparece em cena narrando um episódio irresistivelmente engraçado de Vinicius, o que configura uma espécie de ressurreição do filme e vem atenuar, para não dizer neutralizar, a sensação de vazio e de desamparo provocada pelo depoimento quase imediatamente anterior. O personagem de quem nos vemos, a contragosto, irremediavelmente separados (sentimento que só se acentua com a cerimônia de adeus que é a execução de “Canto triste” pela voz de Mônica Salmaso), volta ao nosso convívio, reencarna na tela, na imagem de uma gargalhada geral, em que tudo e todos se reconciliam. O efeito de descompressão deste happy end inesperado, no qual a perda se torna logo uma gostosa piada e o riso vem enganar a dor, nos deixa de novo em casa. Não há neste mundo mais lugar para Vinicius (ou para a canção), mas ele (ou ela) permanece teimosamente entre nós.
 
O interesse do depoimento de Chico sobre Vinicius, ou do que ele recorda nos DVDs em que passa sua obra em revista, vai além da capacidade que ambos têm de entreter ou emocionar. Eles nos remetem a uma época em que a música popular funcionava como um espelho afetivo, um lugar privilegiado da cultura, no qual identidade coletiva e experiência interior se tocavam de maneira significativa, compondo uma atmosfera comum e um horizonte partilhado.[7] Isso, como se sabe, não existe mais, o que não deixa de configurar um certo fim da canção.
 
Entre parênteses, é preciso ficar claro que essa “atmosfera comum” de que a MPB era o catalisador nunca foi vivida ou experimentada pelo “povo brasileiro” enquanto tal, numa espécie de comunhão de classes inexistente na vida real. Quando falo em “identidade coletiva”, estou me referindo de forma implícita (é óbvio) às classes médias letradas dos grandes centros urbanos, que muitas vezes, inclusive no período em questão, confundiram suas aspirações (e ilusões) com os interesses nacionais. Num ensaio famoso em que se dedica às formas do pensamento radical no Brasil, o crítico Antonio Candido observa que o homem radical “pensa os problemas na escala da nação, como um todo” e “deste modo, passa por cima do antagonismo entre as classes”, tendendo “com frequência à harmonização e à conciliação, não às soluções revolucionárias”.[8] A descrição parece bastante adequada à sociedade civil progressista que se sentava ao redor da fogueira da MPB - quem não se recorda de “No Woman, No Cry”, em 1979?
 
Dito isso, com tudo o que há de impreciso nas periodizações, foi ao longo dos anos 1980 que a MPB perdeu sua centralidade na cultura brasileira. Primeiro, a redemocratização dispersou as energias mobilizadas no combate à ditadura, no qual a música popular teve o papel de destaque que se conhece. Segundo, a própria redemocratização frustrou as expectativas que havia criado no período anterior. Não só ficou logo visível que as demandas sociais represadas durante décadas não seriam nem de longe solucionadas, como, além disso, percebeu-se que o povo, essa entidade idealizada pelas esquerdas, havia sido abduzido pelos chamamentos do consumo e do entretenimento (caminho que as próprias esquerdas, em larga medida, fariam depois - afinal, é preciso ir aonde o povo está). Terceiro, a consolidação da indústria cultural no país, no caso da música, já então sob forte influência da onda pop e de tendências internacionalizantes, criava exigências inéditas, quando não um ambiente de franca hostilidade para os artistas da velha MPB. Os constrangimentos passavam a ter origem no mercado, onde o jogo ficava mais pesado. “A voz do dono e o dono da voz”, que Chico compôs em 1981, é uma resposta a isso.
 
Como pano de fundo, na base material dessa nova paisagem, a década de 1980 foi escancarando a desagregação do nacional-desenvolvimentismo, em torno do qual haviam sido feitas as apostas de modernização e integração social do país. A utopia da civilização brasileira forjada nos anos 1950, antes golpeada no seu coração democrático pelo golpe de 64, morria agora de falência múltipla dos órgãos, testemunhando a agonia de um ciclo histórico justamente no momento em que a democracia renascia - de mãos vazias. 
 
Que se pense, por exemplo, como forma de dimensionar o tamanho do enrosco no âmbito da música popular, no destino (e desatinos) de uma obra decisiva e mesmo genial como a de Milton Nascimento. Privada das referências nacionais, ela descarrila em meados daquela década e passa a flutuar no mercado internacional da world music, no qual emplaca, para exportação, na condição de curiosidade étnica embalada por uma voz divina. As novas gerações parecem não ter a menor noção da importância do que ficou para trás, no rastro daquele trem azul das Minas Gerais. 
 
Mas sigamos. A “fantasia desfeita” em torno da MPB não significa, é claro, que a canção, como tal, esteja à morte, a despeito do rebaixamento brutal do gosto, que é real e está bem caracterizado pela hegemonia conquistada na ciranda do entretenimento por gêneros como o neossertanejo, o axé ou o pagode. Se está em curso, de fato, um capítulo brasileiro do que um dia chamamos de regressão da audição, também é verdade que a canção popular, na sua enorme variedade e capacidade de se transformar, continuou a produzir artistas do quilate de Itamar Assumpção e Arnaldo Antunes, Cazuza e Renato Russo, Cássia Eller e Marisa Monte, Lenine e Zeca Baleiro, entre outros.
 
O que não se sustenta mais, para falar como José Miguel Wisnik, é o mito alimentado por gerações inteiras, segundo o qual “no Brasil, a possibilidade de haver música popular difundida em grande quantidade e com extraordinária qualidade ligou-se ao mesmo tempo ao horizonte de uma modernização progressista do país”.[9] Dizendo isso em 2001, na posição privilegiada e contraditória de um músico-intelectual, Wisnik comentava então que esse mito, no qual apesar de tudo ainda tinha confiança em meados dos anos 1980, “pode se dissolver e desaparecer como os mosaicos bizantinos”. É uma imagem forte e bela. Faz eco ao que Chico dizia sobre Vinicius, faz também pensar em Milton Nascimento. E não deixa de evocar os “vestígios de estranha civilização”, submersos, que um dia “os escafandristas virão explorar”, conforme essa canção arrebatadora de Chico Buarque, “Futuros amantes”, que vislumbra num futuro remoto amores que se valem sem saber do que se perdeu para sempre no passado: “Futuros amantes, quiçá/ se amarão sem saber/ com o amor que um dia/ deixei pra você”. Talvez aqui possamos ajeitar um pouquinho e dizer: alguém há de ouvir a canção que afundou no mar.
 
Na entrevista que nos serviu como ponto de partida, Chico afirma que o interesse pela música de sua geração hoje “parece pequeno”. É uma verdade. E tem a ver, em alguma medida, com seus desenvolvimentos internos. Ou com a maneira pela qual essa canção, desalojada pelas razões que vimos, foi se tornando mais arredia aos parâmetros e aos gostos do mercado, menos imediatamente desfrutável, menos afeita à empatia e à fruição instantâneas. Canção que foi, com o tempo, passando a requisitar uma atenção, por assim dizer, não natural, algo como uma dificuldade em segundo grau, ao mesmo tempo que se tornava mais exigente e consciente de seus procedimentos.
 
No caso específico de Chico, isso é evidente. E não parece fortuito que, a partir dos anos 1980, a própria música venha se constituir em tema e objeto privilegiado dessa “lírica mais reflexiva, que se recolhe em sua concha para escutar a si mesma. ‘Choro bandido’ (1985), ‘As minhas meninas’ (1987), ‘Morro Dois Irmãos’ (1989) e ‘Tempo e artista’ (1993) são exemplos eloquentes disso.”[10] As parcerias sublimes com Edu Lobo - “Beatriz” (1982), “Valsa brasileira” (1989), entre outras -, que frutificam desde o começo daquela década, são um sintoma, a um tempo causa e efeito, da sedimentação de um estilo maduro, mais introspectivo e depurado, para o qual contribui ainda o encontro de Chico com o maestro Luiz Cláudio Ramos, responsável pelos arranjos a partir do CD Chico Buarque, de 1989.
 
O traço decisivo e definidor dessa obra, no entanto, será a influência crescente que nela exerce o trabalho de Tom Jobim, configurando o que chamei de “jobinização” de muitas das composições de Chico.[11] Ela se dá, de um lado, de maneira explícita, em citações musicais e em vários depoimentos públicos; mas se dá, sobretudo, pela interiorização do legado de Jobim na criação de seu maior herdeiro. Ambas as coisas vão aparecer na forma de problema numa canção como “Subúrbio”, em que Chico fala na língua de Jobim, levando-a aos limites de suas possibilidades, ao mesmo tempo que constata que essa língua - que é a dele - já não é mais capaz de dar conta do recado, embora só ela possa exprimir essa sua impotência diante da realidade.
 
Voltemos um instante ao CD Paratodos, de 1993. Este é, sem dúvida, um dos trabalhos mais fortes de Chico Buarque, ponto de encontro e realização da maturidade. Nele, o acento lírico e certo retraimento que marcam a produção do período anterior finalmente explodem numa grande celebração, com ares de festa pagã (“evoé” é o grito festivo com que as bacantes evocavam Dionísio). Chico aí se reconhece como parte de uma tradição brasileira e traça, em júbilo, sua árvore genealógica musical. Um a um, vai homenageando, pelos nomes, seus pares, amigos e mestres queridos, com reverência, mas também com humor, malícia, alegria. Tom Jobim desponta na canção imantando tudo e abraçando a todos, na figura do maestro soberano, “quem soprou esta toada/ Que cobri de redondilhas/ Pra seguir minha jornada”. Não apenas a canção, mas o CD inteiro tem o sabor da reconciliação do compositor com a cultura nacional e popular, chancelada pela música, a despeito de tudo.
 
É totalmente diverso o contexto em que Chico vai recorrer a Tom Jobim em “Subúrbio”: “Perdido em ti/ Eu ando em roda/ É pau, é pedra/ É fim de linha/ É lenha, é fogo, é foda”, canta o compositor, já perto do final da letra, no único momento em que o eu lírico da canção faz uso explícito da primeira pessoa. Há aqui algo como um pedido de socorro. Chico já não segue mais sua jornada; ele agora anda em roda, às voltas com um fim de linha e diz estar “perdido em ti”. Mas quem é esse “ti”? O Rio, a cidade maravilhosa que dá as costas ao subúrbio. Sim, claro, mas é ao mesmo tempo a canção, o próprio Jobim. É nela (nele) que o compositor anda em roda, sem saber para onde ir.
 
O trecho em questão parodia, como se sabe, os versos iniciais de “Águas de março”, invertendo seu sentido. Na canção de Jobim, “É pau, é pedra, é o fim do caminho” representa menos uma limitação do que sugere que estamos no início da mata intocada, diante de um recomeço do mundo. O compositor fará que seja assim: envolvida pela repetição em espiral de melodia e de palavras, a matéria cantada (fragmentos da natureza, eventos naturais, objetos e cenas do cotidiano as mais prosaicas) vai se transfigurando em experiência subjetiva carregada de sentido, até desembocar no verso final: “É a promessa de vida no teu coração”.[12]
 
Canção de afirmação da vida, “Águas de março” é ao mesmo tempo a que melhor exprime e simboliza a passagem do período da bossa-nova (incluídos os anos 1960, vividos a maior parte nos Estados Unidos) para a fase “mateira” dos anos 1970, quando a natureza se impõe como tema e força atávica na obra de Jobim. Não é casual que ele se reaproxime do trabalho do seu grande mestre Heitor Villa-Lobos no final dos anos 1960. Jobim de alguma maneira se retira da história para ser feliz. Num artigo notável sobre a “Canção do exílio”, primeira parceria entre Tom e Chico, de 1968, o crítico Lorenzo Mammì escreve que “em ‘Águas de março’, Jobim enfim volta para casa”.[13] Em “Subúrbio”, podemos dizer, Chico está exilado dentro de casa.
 
Essa ideia se reforça quando nos voltamos para os aspectos propriamente musicais da canção. Sobre eles, Arthur Nestrovski explica que Chico desta vez levou as lições que vêm de Tom Jobim a um ponto extremo, a partir do qual, em termos formais, não haveria mais para onde ir. Em “Subúrbio”, a aceleração harmônica e os intervalos melódicos pequeníssimos preenchem todos os espaços possíveis da canção, obtendo o efeito de um deslizamento incessante, de um cromatismo levado aos seus limites, que faz com que tudo se mova ao mesmo tempo. “Não podemos mais imaginar o que ele possa fazer, em termos harmônicos e melódicos, para além deste ponto a que ‘Subúrbio’ chegou”, diz Nestrovski.[14]
 
Chico tensiona assim a corda de uma tradição da música popular dotada de extraordinária autoconsciência, da qual ele é o herdeiro encurralado. Levada ao paroxismo, a canção flerta com seu esgotamento formal, ao mesmo tempo que tematiza e se torna ela própria sintoma de um esgotamento histórico.
 
“Subúrbio” é um choro-canção que tem como assunto a invisibilidade social dos pobres, a cidade que “não figura no mapa”, o Rio ignorado por nós. Que se trata de algo que nos é distante e alheio, os primeiros versos já dizem: “Lá não tem brisa/ Não tem verde-azuis”, como a indicar, por meio de privações naturais e de ordem estética, uma carência de outro tipo, construída historicamente.
 
Num primeiro plano, a canção se esforçará justamente para chamar o “avesso da montanha” pelo nome (ou pelos nomes), apresentando-o a nós. Um a um, os morros são convocados a dar o seu recado: “Fala Penha/ Fala Irajá/ Fala Olaria/ Fala Acari/ Vigário Geral…”. Já se falou que essa voz evoca um conhecido bordão das escolas de samba. Mas será invocando a força dos estilos musicais presentes no subúrbio que a canção tentará nos aproximar deste mundo relegado, onde “não tem turistas”, “não sai foto nas revistas”: “Vai, faz ouvir os acordes/ do choro-canção/ Traz as cabrochas e a roda/ de samba/ Dança teufunk, o rock,/ forró, pagode, reggae/ Teu hip-hop/ Fala na língua do rap/ Desbanca a outra/ a tal que abusa/ De ser tão maravilhosa”.
 
Aqui, nessa simples enumeração de ritmos, as coisas se passam de forma complexa. Há nessa estrofe a sugestão de um resgate festivo da cultura popular, em toda a sua variedade de gêneros, entre os quais o próprio choro-canção, reforçando uma identificação possível entre os dois mundos. O movimento do conjunto, no entanto, não é esse, mas o de distanciamento e confronto. Quando Chico canta “Vai, faz ouvir os acordes/ do choro-canção/ Traz as cabrochas e a roda/ de samba”, a música, vagarosa, se distende, e a voz assume contornos melodiosos. Somos, por um instante, remetidos de volta ao imaginário nacional-popular. O ritmo da canção então logo se acelera, e a voz muda de registro, torna-se escapadiça, soa leitosa quando ouvimos “[dança] Teu hip-hop/ Fala na língua do rap”. A história aqui já é diferente, e o ânimo desafiador, de enfrentamento, fica mais evidente nos versos “Desbanca a outra/ a tal que abusa/ De ser tão maravilhosa”. A mesma estrofe se repetirá adiante, com outro final, de sentido semelhante, porém mais incisivo: “Fala no pé/ Dá uma ideia/ Naquela que te sombreia”.
 
Aquela que abusa de ser maravilhosa e sombreia o subúrbio é a zona sul do Rio de Janeiro, certamente. Mas, aqui de novo, parece ser a música, a canção, a MPB que estão por merecer um corretivo na língua do rap.15 Dar uma ideia em alguém é algo que sugere mais um ajuste de contas do que um diálogo possível.
 
No artigo “Nós aqui, e eles lá” (ver nota 15), o crítico Marcelo Coelho põe este “Subúrbio” de hoje frente a frente com o velho subúrbio de “Gente humilde”, canção de Chico em parceria com Vinicius de Moraes e Garoto, composta 40 anos atrás. O contraste é total, o que torna a comparação substantiva. Mais até do que a paisagem, que também mudou - para pior, apesar do progresso? -, o que se alterou mesmo foi a forma de nos relacionarmos com a pobreza - e vice-versa.
 
Identificar alguém pobre como “pessoa de origem humilde” é um velho eufemismo brasileiro, herança da nossa mentalidade cordial. Ora, se há algo estranho ao mundo do rap é o sentimento da humildade. Orgulho, revolta, afirmação da identidade grupal entre os manos, expressão violenta de uma sociedade partida e conflagrada - são esses os elementos que gravitam em torno do universo rapper. A psicanalista Maria Rita Kehl assinala que a mudança no comportamento e na autoimagem dos pretos e pobres impulsionada pelosrappers brasileiros é justamente “o fim da humildade, do sentimento de inferioridade que tanto agrada à elite da casa-grande, acostumada a se beneficiar da mansidão - ou seja, do medo - de nossa ‘boa gente de cor’”.[16] A frase de Chico, de que o rap “é de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos”, parece se iluminar com essas especificações históricas.
 
Entre parênteses, seria interessante contrapor o rap ao pagode, em que a manifestação do orgulho negro assume formas mansas, derramadas, carregadas de afetividade, e costuma vir acompanhada de sinais visíveis de ascensão social e ostentação, razões pelas quais esse gênero dominical talvez seja tão apreciado nos programas de auditório e premiado pelos critérios do mercado.
 
Mas voltemos a “Gente humilde”. Marcelo Coelho nota que a canção do final dos anos 1960, sentimental, ingênua, singela, seria impensável hoje em dia, mas se beneficia de maior coerência afetiva: “E aí me dá uma tristeza no meu peito/ Feito um despeito de eu não ter como lutar/ E eu que não creio, peço a Deus por minha gente/ É gente humilde, que vontade de chorar”. Deus, minha gente, gente humilde, vontade de chorar… Que mundo é esse, feito de “casas simples, flores na varanda e cadeiras na calçada”, capaz de despertar sentimentos cristãos e provocar a solidariedade diante do drama alheio? “Subúrbio” irá responder nos termos atuais: “Lá não tem claro-escuro/ A luz é dura/ A chapa é quente/ Que futuro tem/ Aquela gente toda”. A impotência, agora, não deságua na vontade de chorar. Desidentificada afetivamente “daquela gente”, ela assume contornos de ressentimento, descaso, desprezo, até de autodepreciação.
 
Essa espécie de desistência de tudo, de cansaço histórico acumulado, é algo que corre ao longo de “Subúrbio” como pano de fundo, de forma meio escondida e dissimulada quase até o final, quando então se explicita. Imediatamente depois de afastar de si “aquela gente toda”, Chico assume a primeira pessoa e confessa, em tom de derrota: “Perdido em ti/ Eu ando em roda/ É pau, é pedra/ É fim de linha/ É lenha, é fogo, é foda”. A estrutura da canção é circular e reiterativa, mas a hélice gira na direção do fastio, da privação da experiência e da dissipação, se quisermos marcar mais um contraponto com “Águas de março”, em que há acúmulo de sentidos a cada volta. Na parte final da letra de “Subúrbio”, desagregação social e desordem interior estão amalgamados. A imagem duplicada deste fim de linha vai ecoar ainda uma vez no último verso da canção: “Fala, paciência…”. A voz que canta soa didaticamente cansada, dá a impressão de manter uma distância teatral do mundo, como se Chico imitasse a própria impaciência, deixando suspensa no ar uma ponta qualquer de sarcasmo.
 
“A oposição entre ‘lá’ e ‘aqui’”, diz Marcelo Coelho, “muito marcada na letra de ‘Subúrbio’, produz um certo mal-estar, que afinal é o de todo sujeito que, sem abrir mão de seus privilégios, reconhece que a situação brasileira é insustentável”.[17]
 
“Subúrbio” foi a última música composta por Chico para o CD Carioca.
 
Aí percebi que o disco tinha uma estranha unidade. Apesar da variedade de temas, de levadas, o disco resultou uma coisa una. […] Foi aí que notei que faltava uma música pra fechar o disco. Veio ‘Imagina’, uma parceria com Tom.[18]
 
Há duas questões a destacar aqui. Comecemos pela “estranha unidade” do disco. Ela talvez resida menos numa figuração variada do Rio, que não deixa de ser, do que no fato de que o CD acabou tomando a forma de um “Museu de tudo”, para emprestar aqui o título de um livro de João Cabral de Melo Neto, de 1975. Cada canção ali é um mundo, ninguém duvide, mas quem notou que o disco é também um “acervo de modos de fazer canção” foi Arthur Nestrovski: “À francesa (‘Porque era ela, porque era eu’), à americana (‘As atrizes’, ‘Sempre’), à bossa-nova (‘Ela faz cinema’), à italiana (‘Renata Maria’), à moda clássica brasileira (‘Leve’), à vanguarda (‘Bolero blues’)”.[19] A relação deve incluir também “Dura na queda”, um samba de gafieira, “Outros sonhos”, mistura de xote e foxtrote, e “Ode aos ratos”, baião feito em 2001 com Edu Lobo, para o qual Chico acrescentou uma embolada, que também chama de “rap-baião”.
 
Música que faltava para fechar o disco, “Imagina” é a primeira composição de Tom Jobim, uma valsa clássica feita entre 1945 e 1946, quando ele tinha 18 anos. A letra que Chico lhe deu em 1983 preserva as marcas dessa adolescência, criando um enredo em torno de uma fantasia amorosa, um conto de fadas no qual o jovem casal apaixonado brinca na noite com os encantos e os mistérios da natureza. Letra e música compõem uma atmosfera mítica, atemporal, reforçando a sensação de que, nessa canção, fomos levados à companhia de um Tom Jobim anterior à bossa-nova, pré-histórico em certo sentido. Como contraponto, abrindo o CD, o Tom de “Subúrbio”, como já vimos, é pós-histórico, uma presença póstuma, alguém cuja influência atinge ali um ponto tal de saturação que a própria canção irá questionar. Carioca se constrói e se resolve, assim, entre os dois extremos de Tom Jobim, o princípio e o fim da canção - e de certa modernidade, na qual Chico ainda se move.
 
Diante do emaranhado de questões que uma obra como essa é capaz de levantar - para o país, sim, mas também para a canção -, parece simplesmente regressivo o que diz Luiz Tatit a respeito do assunto: “Não nos preocupemos com a canção”, escreve ele, tranquilizando a todos e dando o tom do seu recado já na abertura de um artigo publicado em 2006.
 
Um dos equívocos dos nossos dias é justamente dizer que a canção tende a acabar porque vem perdendo terreno para o rap! Equivale a dizer que ela vem perdendo terreno para si própria, pois nada é mais radical como canção do que uma fala explícita que neutraliza as oscilações “românticas” da melodia e conserva a entoação crua, sua matéria-prima. A existência do rap e outros gêneros atuais só confirma a vitalidade da canção.[20]
 
Tudo não passava de um mal-entendido, em torno do qual perdemos tempo à toa. Para não dizer que não falei das flores: o argumento oscila entre a platitude (rap também é canção!) e a satisfação (a canção vai muito bem!). Se Tinhorão é mesmo um pensador grosseiro, Tatit acaba sendo fino demais. Tomado como fato consumado (Tinhorão) ou como quimera (Tatit), o “fim da canção” deixa de ser um problema substantivo inscrito no presente, sobre o qual tem algo a nos dizer. Em ambos os casos, para falar naquela outra língua em desuso, falta negatividade à reflexão.
 
Se essa discussão vai além de um cabo de guerra tolo entre especialistas, para tocar, como sugerimos, em um nervo sensível da cultura, é também porque ela transborda por todos os lados e exprime uma dúvida de fundo a respeito do momento histórico atual. A sensação de que as coisas estão aos poucos se ajeitando no país voltou a ter vigência no campo da esquerda. Essa compreensão do presente se baseia na aposta pragmática de uma integração social paulatina, sem mágicas nem rupturas, escaldada pela ruína do castelo socialista e beneficiada agora pelo provável fim da fase de euforia liberal. Não haveria mais razões para ficar chorando o leite derramado das promessas que o nacional-desenvolvimentismo frustrou. Essa visão mais otimista e, digamos, mais complacente com o destino dos abismos brasileiros, rivaliza, no entanto, com a percepção de que a dinâmica do capitalismo contemporâneo carrega a água para o moinho da destrutividade social, pouco importando o luxo a que se permitiu o país, governado há quase duas décadas pelo que de melhor a antiga esquerda conseguiu produzir. O Brasil seria, aliás, um imenso parque temático à disposição da evidência de que modernização da economia e avanço social podem não coincidir.
 
As palavras acima são, como se sabe, uma paráfrase do que disse o ensaísta e crítico Roberto Schwarz, para quem, embora seja útil e deva ser feita, a “comparação entre patamares de desgraça esvazia a ideia de progresso”. E, apesar de reconhecer obviamente alguma espécie de progresso nos últimos decênios, Schwarz sustenta que sumiu da nossa frente “a perspectiva do progresso orientado e acelerado, fruto do conflito e da consciência coletiva, que tornasse o Brasil um país decente em tempo de nossas vidas. Bem ou mal, era essa a aspiração da esquerda”.[21]
 
Voltando ao nosso quintal, é claro, por exemplo, que, de um ângulo democrático, o protagonismo do rap deve representar um avanço em relação à passividade daquela gente humilde cantada em verso e em prosa pela condescendência brasileira. O que não quer dizer que o rap, ao implodir o mito da nossa utopia cordial, não seja ao mesmo tempo, como expressão cultural e fato social, o sintoma furioso de um fim de linha histórico. Emancipação ou regressão? As duas coisas? “Não existe nenhum documento de cultura que não seja também um documento de barbárie”, como escreveu Walter Benjamin.
 
Estamos, ao que parece, diante de um aporia, que pode significar tanto a dúvida decorrente da impossibilidade objetiva de obter uma resposta como, também, uma situação insolúvel, sem saída. Ou, ainda, numa terceira acepção do dicionário Houaiss, a figura retórica pela qual o orador simula uma hesitação. Todos esses sentidos concorrem na reflexão de Chico Buarque em torno do “fim da canção” e, mais ainda, estão de alguma maneira plasmados no tratamento que ele deu à questão em sua obra musical recente. Uma coisa parece certa: o último Chico comunga com Schwarz a ideia de que desapareceu do nosso campo de visão a perspectiva de sermos ainda um país decente.
 
Diante do cortejo triunfal dos progressistas de hoje, podemos vê-lo cantar e depois se recolher em silêncio: “Não me leve a mal/ Me leve à toa pela última vez/ […] Pense que eu cheguei de leve/ Machuquei você de leve/ E me retirei com pés de lã/ Sei que o seu caminho amanhã/ Será um caminho bom/ Mas não me leve”.
Fernando de Barros e Silva é jornalista da Folha de S.Paulo, autor do livro Chico Buarque (Publifolha, 2004)
1. “Chico contra o cinismo”, entrevista publicada na Folha de S.PauloIlustrada, 26.12.2004, cuja íntegra encontra-se disponível em:http://www.chicobuarque.com.br/ . O trecho em questão encontra-se na p. E4, sob o título “A canção, o rap, Tom e Cuba, segundo Chico”.
2. A entrevista de Chico foi discutida em detalhes por Francisco Bosco no texto “Cinema-canção”, além de ser assunto implícito do ensaio de Lorenzo Mammì, “Os sonhos dos outros”, ambos reunidos em Arthur Nestrovski, Lendo música – 10 ensaios sobre 10 canções. São Paulo: Publifolha, 2007. O tema do “fim da canção” surge ainda no ensaio de Luiz Tatit, “Cancionistas invisíveis”, publicado pela revista Cult em agosto de 2006 e reunido no livro Todos entoam – Ensaios, conversas e canções. São Paulo: Publifolha, 2007, além de constar como título da última de uma série de quatro aulas-show apresentadas por José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski, nos meses de junho e julho deste ano, em São Paulo e no Rio de Janeiro, sob o patrocínio do Instituto Moreira Salles.
3. Cf. “Chico contra o cinismo”, op. cit.
4. “O homem que saiu do frio”, entrevista com José Ramos Tinhorão, publicada na Folha de S.PauloMais!, 29.8.2004.
5. José Miguel Wisnik, “Global e mundial”, in Sem receita – Ensaios e canções. São Paulo: Publifolha, 2004. Seguido do posfácio “Eu, você, nós dois”, pp. 319-333. O grifo é meu.
6. “Chico diz que vota em Lula de novo”, entrevista publicada na Folha de S.PauloIlustrada, 6.5.2006.
7. Recupero com minhas palavras um argumento que foi formulado por José Miguel Wisnik, primeiro no ensaio “O artista e o tempo”, escrito em parceria com Guilherme Wisnik, e reunido no livro Sem receita – Ensaios e canções,op.cit., e, mais recentemente, retomado por ele na aula-show sobre “O fim da canção”, realizada em 30 de junho deste ano, no Centro de Extensão Universitária Maria Antonia, da Universidade de São Paulo.
8. Ver “Radicalismos”, in Antonio Candido, Vários escritos, 3ª ed. São Paulo: Duas Cidades, 1995, p. 266.
9. Ver “Global e mundial”, op. cit., p. 328.
10. Conforme meu livro Chico Buarque. São Paulo: Publifolha, 2004, p. 99. Coleção Folha Explica.
11. Cf. a expressão na p. 100 do meu livro citado, embora o assunto seja discutido ao longo dos capítulos 5 (“Bye Bye, Brasil”) e 7 (“Cidades impossíveis”).
12. Sigo, com acréscimos, o que diz Cacá Machado no livro Tom Jobim. São Paulo: Publifolha, 2008, p. 57.
13. Lorenzo Mammì, “Canção do exílio”, in Três canções de Tom Jobim. São Paulo: Cosac Naify, 2004, p. 29.
14. Procurei resumir aqui uma explicação técnica feita por Arthur Nestrovski na aula-show sobre “O fim da canção”.
15. Marcelo Coelho faz a mesma interpretação no artigo “Nós aqui, e eles lá”, publicado na Folha de S.PauloIlustrada, 14.6.2006.
16. Maria Rita Kehl, “A fratria órfã”, in A fratria órfã. São Paulo: Olho d’Água, 2008, p. 71.
17. “Nós aqui, e eles lá”, op. cit.
18. Trecho da entrevista de Chico Buarque, publicada no release de lançamento do CD Carioca, em maio de 2006.
19. Em “Carioca de Chico Buarque”, artigo publicado na revista eletrônicaErrática. Disponível em: http://www.erratica.com.br/ . Acesso: 25.9.2009.
20. Cf. “Cancionistas invisíveis”, op. cit., p. 231.
21. Entrevista de Roberto Schwarz a Marcos Augusto Gonçalves e Rafael Cariello, publicada na Folha de S.Paulo, Ilustrada, 11.8.2007.


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