domingo, 4 de outubro de 2015

MUDAR O MODO DE PENSAR DA ESQUERDA OU DA DIREITA

POR QUE É TÃO DIFÍCIL MUDAR O MODO DE PENSAR DA ESQUERDA OU DA DIREITA

Publicado originalmente no Facebook em 24 de outubro de 2014

Fonte: https://www.facebook.com/notes/augusto-de-franco/por-que-%C3%A9-t%C3%A3o-dif%C3%ADcil-mudar-o-modo-de-pensar-da-esquerda-ou-da-direita/940315659333966


 

O modo de pensar não depende de um modelo mental (no sentido de uma impossível mente individual). O modo de pensar depende da rede de relacionamentos em que uma pessoa está emaranhada. Depende das circularidades inerentes às conversações recorrentes nos clusters em que uma pessoa está situada.

Este é, precisamente, o caso da chamada esquerda (e também o da chamada direita: na verdade é a mesma coisa, uma só existe em função da outra, são um par enantiodronômico, cada oposto existindo em função do oposto). Trata-se do mesmo programa.

Por isso tenho afirmado que, do ponto de vista das redes e da democracia, esquerda e direita são a mesma coisa.

Uma vez configurado um ambiente hierárquico com base em uma narrativa assimilada e reproduzida pelos seus membros, ele criará uma carapaça para não se dissolver no fluxo interativo da convivência social. Para que isso aconteça, o conteúdo da narrativa não é tão importante quanto o seu modo-de-ver ou o seu esquema de interpretação da realidade. O esquema interpretativo é crucial porque ele funciona como um programa executável. Ele ensejará conversações que mantêm as mesmas circularidades inerentes e, com isso, conservará uma cultura, transmitindo comportamentos.

Vamos examinar então o exemplo da cultura da chamada esquerda. Toda vez que o esquema interpretativo segundo o qual a realidade pode ser sempre cindida em dois lados - o lado dos explorados, oprimidos e dominados x o lado dos exploradores, opressores e dominadores - e que isso seria capaz de explicar toda e qualquer situação de injustiça ou iniquidade social, é inventada a esquerda. Não importa se é a mesma esquerda originária, cujas raízes são buscadas na Assembléia da Revolução Francesa ou nas facções do Partido Operário Social-Democrata Russo. A esquerda é inventada toda vez que uma rede social roda esse programa. Por isso se diz que a esquerda inventou a esquerda e, pelo mesmo movimento, a direita (sem a qual se desconstitui a ideia de esquerda). Isso só foi possível porque um esquema interpretativo se reproduziu e não um conteúdo específico, um conhecimento sobre as causas da injustiça ou da desigualdade social baseado em ideias sobre a exploração, a opressão e a dominação.

O programa é resiliente e tem autonomia em relação aos fatos e acontecimentos. Não importa muito se as experiências de condução de sociedades por governos, regimes ou Estados dirigidos por atores que se reivindicam de esquerda tenham sido bem sucedidas ou mal sucedidas. A esquerda vai renascer sempre, enquanto tal esquema interpretativo estiver rodando. E com isso renascerá também, por contraposição, uma direita levada, por enantiodromia, a adotar um esquema interpretativo semelhante. 

As narrativas apenas descreverão, para cada pólo da contraposição, as razões a posteriori (e legitimatórias) da divisão. Assim, a esquerda dirá, sobre si mesma, que está preocupada com a igualdade e com os direitos coletivos e que a direita está preocupada com a liberdade de explorar, oprimir e dominar e com a conservação de um status quo que permite que alguns tenham mais direitos do que outros. E a direita retrucará que a liberdade de iniciativa dos indivíduos é a condição fundamental para a emancipação de todos et coetera. Ao fazer isso, a direita já caiu na armadilha da esquerda. Ao tentar contrapor sua narrativa à narrativa da esquerda, a direita já aceitou que compõe um pólo de um bipolo; ou seja, já está usando o mesmo esquema interpretativo da esquerda e já está admitindo a divisão do mundo em lados como método válido de interpretação. 

A esquerda jamais pode ser desconstituída pela direita. Se houver direita, haverá esquerda. 

As pessoas que são conservadoras porque querem preservar ou manter culturas particulares, são apenas conservadoras, não são de direita. Mas toda cultura é conservadora - ou seja, tem que conservar parâmetros de adaptação e padrões de organização ou, em outras palavras, trajetórias de fluxos e modos de fluição - do contrário não subsistiria (ou não se prorrogaria o ambiente em que se realiza tal cultura). Assim, temos conservadores na chamada esquerda e na chamada direita.

A esquerda é conservadora no que tange à manutenção de padrões de organização (hierárquicos) e de modos de regulação (autocráticos): sempre deve haver quem manda e quem obedece, quem dirige e quem é dirigido, quem lidera e quem é liderado e os dilemas da ação coletiva, quando não resolvidos pelo comando centralizado, devem ser regulados por procedimentos que produzem artificialmente escassez (como a votação e a construção administrada de consenso) aumentando a verticalização do ambiente social ou a centralização da rede. Ora, não há nada mais conservador do que isso. E, no entanto, a narrativa da esquerda descreve tal comportamento como revolucionário, pois a disciplina e a obediência seriam atitudes necessárias para a vitória contra a direita, para dar coesão e operacionalidade a um contingente de combatentes na guerra do bem (a esquerda) contra o mal (a direita). Com isso a narrativa da esquerda ressignifica o que é reacionário como revolucionário. Se a esquerda não fosse conservadora nesses temas não existiria como tal.

O mesmo se pode dizer da direita, quando reproduz tal esquema; ou melhor, quando se deixa constituir como tal (como direita em contraposição à esquerda). As pessoas não percebem isso porque estão presas aos conteúdos de suas narrativas. Mas, como vimos, o conteúdo pouco importa. O que importa de fato é o esquema de interpretação, o programa, ou melhor, a programação.

Essa programação, entretanto, depende da configuração do ambiente, da sua estrutura e da sua dinâmica, do corpo e do seu metabolismo. Ela está no firmware da rede. Por isso que, do ponto de vista das redes e da democracia, esquerda e direita são a mesma coisa na medida em que adotam padrões de organização hierárquicos e modos de regulação autocráticos. É é também por isso que, ainda que queiram fazer discursos diferentes (em geral opostos), ambas replicam, com seu comportamento, a mesma cultura conservadora característica da civilização patriarcal em que vivemos.

Impregnadas dessa cultura patriarcal (e do seu emocionar próprio) as pessoas - tanto de esquerda quanto de direita - acham que o mundo social só pode ser interpretado por meio de um conjunto de crenças básicas de referência, que tomam por verdades evidentes por si mesmas, axiomas que não carecem de corroboração. Exemplos dessas crenças são as de que: 

# O ser humano é inerentemente (ou por natureza) competitivo

# As pessoas sempre fazem escolhas tentando maximizar a satisfação de seus próprios interesses materiais (ao fim e ao cabo egotistas)

# Sem líderes destacados não é possível mobilizar e organizar a ação coletiva

# Nada pode funcionar sem um mínimo de hierarquia.

Os parâmetros básicos são esses (expostos acima). Vejam que tanto a esquerda quanto a direita acreditam nessas sentenças. As narrativas, depois, vão divergir. Assim a esquerda acreditará (entre muitas outras coisas, apenas para dar alguns exemplos) que:

=> A superestrutura da sociedade (a política, a cultura etc.) é determinada em última instância pela sua infraestrutura econômica.

=> Existem classes sociais (grupos sociais estáveis relativamente homogêneos) cujos interesses distintivos são formados em razão de sua posição no processo de produção, na divisão social do trabalho ou no processo de acumulação ampliada do capital e que determinam (que tais classes travem) uma luta permanente entre si.

=> A luta de classes é o motor da história.

=> Existe uma História (assim mesmo, com H maiúsculo) e ela tem leis (que podem ser conhecidas por quem tem a teoria e o método corretos de interpretação da realidade).

=> O Estado - quando nas mãos certas, quer dizer, das vanguardas que têm o método correto de interpretação da História - é o grande agente transformador da sociedade e a ele compete educar as massas para produzir o Homem Novo e transitar para uma sociedade sem classes (num reino da liberdade e da abundância).

=> Quem não defende que o Estado tenha tal papel é liberal, liberal-conservador ou neoliberal.

=> Não pode haver liberdade sem igualdade (e, portanto, sem que o Estado tenha sido posto a serviço de conquistar cidadania plena e universal, a liberdade não passa de liberdade dos mais iguais de explorar, oprimir e dominar os menos iguais).

É claro que tudo isso remete novamente à bipolarização originária que constitui a esquerda, pois:

[ ] Quem confere mais importância à liberdade do que a igualdade é liberal (liberal-conservador ou de direita).

[ ] Quem não é de esquerda é de direita (ou pode ser utilizado como inocente útil pela direita); ou, quem não é socialista é neoliberal (ou serve de algum modo aos objetivos do capitalismo).

Fecha-se assim o círculo ou completa-se a rotina em looping que faz parte do kernel do sistema operacional onde pode rodar tal programa.

Enquanto tal programa estiver rodando (não propriamente na cabeça, mas na rede: no emaranhado de relacionamentos em que uma pessoa está imersa) é quase inútil tentar convencer essa pessoa a adotar outros pontos de vista. Se não houver mudança nos fluxos interativos dentro desse emaranhado, nada feito.

Em geral movimentos capazes de operar essas mudanças dependem da eclosão de fenômenos interativos da própria rede. Por exemplo, um único swarming é capaz de operar mais mudanças do que um milhão de tentativas discursivas de mostrar que tal ou qual posição é mais justa ou melhor. Qualquer discurso será anulado por um contra-discurso, o que significa que o programa se recupera quando a contraposição bipolar que o constitui se instala. Assim, uma pessoa que esteve presente em Woodstock, ou na queda do Muro de Berlin, ou no Largo da Batata em 17 de junho de 2013, fica mais vulnerável à interação fortuita (e, portanto, à mudança) do que participando de inumeráveis debates de salão ou conversas no Facebook

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Vittorio Storaro "Writing with Light" (1992)

Vittorio Storaro - "O Mago da Luz"



Writing with Light : Vittorio Storaro (1992)



Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Vittorio Storaro
Vittorio Storaro recebendo um prêmio em Cannes, em 2001
Nascimento24 de Junho de 1940 (74 anos)
Roma
NacionalidadeItália italiano
OcupaçãoDiretor de fotografia
Oscares da Academia
Melhor fotografia
1980 - Apocalypse Now
1982 - Reds
1988 - The Last Emperor
IMDb(inglês)
Vittorio Storaro (Roma24 de junho de 1940) é um diretor de fotografia italiano, conhecido como "o mago da luz". Tem um grande modelo para a fotografia dos seus filmes, o pintor também italiano Caravaggio. O próprio Vittorio diz que quando estava andando em Roma, entrou em uma galeria de arte e viu o quadro de Caravaggio "O Chamado de São Mateus". Diz que aquela imagem mudou sua vida.
Vittorio iniciou sua carreira fazendo filmes para a universidade, ficou conhecido por usar as técnicas de luz dos quadros de Caravaggio. Para Storaro, criar a fotografia de um filme para o Cinema é como "scrivere con la luce" (escrever com a luz).1
Seu filme mais conhecido é Apocalypse Now, ele aparece segurando uma câmera ao lado de Francis Ford Coppola e o desenhista de produção Dean Tavoularis.
Vencedor de três Oscars: Apocalypse NowReds e The Last Emperor.

Filmografia[editar | editar código-fonte]

Referências

Ligações externas[editar | editar código-fonte]


https://pt.wikipedia.org/wiki/Vittorio_Storaro



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Tango (1998)

PG-13  |   |  DramaMusical  |  6 August 1998 (Argentina)
7,1
Your rating:
  -/10 
Ratings: 7,1/10 from 2.223 users 
Reviews: 40 user | 34 critic
Mario Suarez is a forty-something tango artist, whose wife Laura has left him. He leaves his apartment and starts preparing a film about tango.

Director:

 

Writer:

 





O que é Anima e Animus na visão de Jung

13.07.2015
O que é Anima e Animus na visão de Jung

Denise Ribeiro - Palas Athena

Fonte: http://www.palasathena.org.br/noticia_detalhe.php?noticia_id=163

 “O processo terapêutico, vivenciado nas sessões de análise entre o cliente e o terapeuta, como fez o próprio Jung, tem como um de seus objetivos a gradual conscientização dos padrões de manifestação da anima ou do animus nas atitudes do paciente. Dessa maneira, podemos enriquecer nossas vidas com a integração de um certo grau dessas entidades autônomas e, assim, também evitar suas manifestações mais exageradas e fora de proporção em nossas vidas”. O professor e psicanalista Marcelo Jordão tratará desses temas com maior profundidade nas palestras que dará em julho na Palas Athena. Nesta entrevista, ele antecipa parte dos conceitos que discutirá nas aulas.


O que são anima e animus na visão de Jung? 
O animus e a anima constituem aspectos psicologicamente autônomos dentro de todos nós, isto é, temos pouco controle consciente sobre suas influências em nossas atitudes. Isso ocorre porque a raiz do animus e da anima está em nosso inconsciente. A anima é tida como o aspecto feminino presente em todo homem e que tanto pode atuar como uma mulher primitiva, tomada de um sentimento de fúria ou de ciúme, quanto como uma sabedoria feminina capaz de intuir sobre o funcionamento do mundo e da vida.
O animus é o correspondente aspecto masculino presente na mulher, que pode atuar como um homem frio e violento ou apresentar a determinação masculina de se levar algo até o fim ou, ainda, como uma entidade que acaba inspirando espiritualmente a mulher.

Uma mulher com grande capacidade de acolher as pessoas sem julgar, que goste de se relacionar e de receber pessoas e que se sinta viva e empolgada com a vida, apesar de suas complexidades, desafios e injustiças, pode, de repente, responder friamente a uma pessoa querida, falando “verdades” chocantes e trazendo para o presente situações há muito ocorridas que ficaram “atravessadas na garganta”.
Um homem calmo e racional poderá, de repente, se surpreender com um ataque de mau-humor e então a menor provocação de fora despertará nele uma enxurrada de ressentimentos e reclamações de cunho emocional. A mudança é brusca e impressiona profundamente quem o observa, pois é como se algo houvesse tomado conta dele, algo que não tem nada a ver com sua personalidade dominante.

Jung observou atentamente que, às vezes, ele próprio era tomado por esse repentino ataque de mau-humor e, aos poucos, reconheceu que suas reações nesse estado não correspondiam ao que ele pretendia conscientemente. Ele observou, ao longo dos anos, o mesmo tipo de padrão em seus clientes e, assim, ele elaborou os conceitos de anima e de animus.


Como se deve proceder em relação à anima e ao animus? Com trabalho psicológico é possível integrar essas entidades do inconsciente? 
A integração de nossa contrapartida de gênero constitui um imenso desafio para o homem e para a mulher. Esse é um processo de trabalho árduo e contínuo e sem limite para acabar, já que não há um limite final para a integração. Trata-se de um trabalho para a vida toda.

É importante avisar, no entanto, que as pessoas não devem se candidatar a esse trabalho guiadas por uma ambição de lucrar com tal integração. O trabalho de individuação (integração de conteúdos inconscientes) é muito diferente de um curso de pós-graduação ou de uma academia de ginástica, já que nele não há espaço para objetivos imediatistas e ambiciosos do tipo “quanto mais, melhor!”. O trabalho de individuação, como o da integração da anima/animus, é extremamente difícil e pode levar o candidato até mesmo para um resultado oposto ao de suas ambições conscientes! Sempre digo aos meus clientes: procure a terapia, se sentir uma necessidade de se melhorar como ser humano, não de melhorar seu currículo profissional para o mundo.

Caso a pessoa já sinta há muito tempo a necessidade de se conhecer melhor ou até mesmo esteja sofrendo com a constante e inadequada manifestação (fora do controle consciente) de sua anima ou de seu animus, a terapia junguiana é indicada. Se o trabalho de integração dos conteúdos de anima/animus, para esse perfil, for bem sucedido, a pessoa irá aos poucos diminuir as manifestações exageradas da anima/animus em sua personalidade.

Há como manter a anima/o animus em equilíbrio? Por que a identificação excessiva não é recomendável? 
Sim, há como manter a anima (para o homem) ou o animus (para a mulher) em equilíbrio com nossa personalidade. Para isso é preciso muito preparo e atenção para notar suas manifestações em nossas atitudes cotidianas e entender o que a anima/o animus quer de nós. Não para fornecer-lhe exatamente o que é exigido, mas sim para abrir uma espécie de canal de discussão que possa encontrar maneiras de integrar (ou apenas reconhecer) suas demandas à nossa vida.

Um homem muito másculo, que pense quase sempre em conquistas e poder, por exemplo, poderá perceber um chamado interno (da anima) para voltar sua atenção a coisas mais sensíveis e imateriais. Talvez ele atenda a essa demanda interna e, aos poucos, encontre nisso o necessário equilíbrio à sua intensidade masculina primária. Pode também ocorrer, no entanto, que tal chamado apenas o irrite e ele o reprimirá, evitando sua mudança e cortando o canal de comunicação com sua anima.

Se esse canal de comunicação e de negociação não estiver aberto e funcionando de modo saudável, a anima (ou o animus) irá se tornar cada vez mais forte e ameaçadora até o momento em que seus conteúdos irão irromper em nossa personalidade, por bem ou por mal. O homem másculo de nosso exemplo acima pode, eventualmente, caso esteja reprimindo a manifestação de sua anima, cair num choro compulsivo ao entrar em contato com algum conteúdo emotivo. A anima potencializada se fez manifestar para seu grande incômodo e vergonha.

O cenário descrito até aqui se refere à anima (ou animus) que não encontra espaço para ser ouvida ou integrada à personalidade de alguém. Há, no entanto, uma outra ocorrência bastante comum atualmente: quando o homem está demasiadamente identificado com a anima, ou a mulher, com seu animus.
Nesse caso, o homem irá promover predominantemente seus aspectos femininos em detrimento de sua natureza masculina (independentemente de sua opção sexual), valorizando sua sensibilidade, dotes artísticos e espontaneidade, em detrimento de sua agressividade e assertividade primitivas. No caso da mulher, ocorrerá o oposto: ela desenvolverá atributos masculinos em detrimento dos femininos.

Essa identificação excessiva com a anima (ou animus) traz outra gama de conflitos ao indivíduo. Pacientes homens, desse perfil, normalmente se queixam de insegurança em seu contato com o mundo. São pessoas normalmente muito afáveis e sensíveis que se associam a outras pessoas mais fortes no mundo (muitas vezes suas próprias mulheres ou mães) para que os ajudem a enfrentar os desafios da vida.
As mulheres, nessa situação de identificação excessiva com o animus, queixam-se de falta de espontaneidade e de energia para enfrentar suas inúmeras obrigações cotidianas, como se a vida se resumisse a uma lista muito grande de desafios que é automaticamente renovada a cada dia. Tais mulheres também normalmente se associam a pessoas mais sensíveis e espontâneas, tentando complementar assim o que lhes falta.

É importante destacar que aqui não há espaço para conceitos simplistas de certo ou errado ou de melhor ou pior. Tudo depende de como o indivíduo se sente e do que seus sonhos pedem dele. Eu posso até achar que uma pessoa está excessivamente identificada com sua anima (ou animus), mas, se ela não sente isso como um problema e não há nenhuma demanda específica em seus sonhos, não há indicação de mexer nessa questão. No caso específico das mulheres, por que a “revolta contra as injustiças do mundo” pode ser um problema e não uma vantagem para o indivíduo?

Essa é uma questão complexa e novamente vai muito além de avaliações simplistas sobre o que é certo ou errado. É natural querermos melhorar as condições de nossas vidas e das pessoas de que gostamos; muitas vezes, queremos até mesmo melhorar o mundo. No entanto, em minha experiência, mulheres que se incomodam com uma identificação excessiva com o animus (ou o espírito da verdade), apresentam, como uma das principais queixas, um sentimento de raiva e impotência diante das injustiças da vida e do mundo. Essa situação pode gerar atitudes neuróticas incapacitantes.

Tive uma paciente, por exemplo, que não conseguia desligar do noticiário, ela pulava de um canal a outro na televisão e também checava a internet em busca de notícias. Isso a incomodava mas ela não conseguia se conter. Não é nenhuma surpresa o fato de que, quando eu a confrontava, pedindo para ela citar algo positivo que havia ouvido em todas essas noticias, ela raramente conseguisse relatar algo. Estava à caça de injustiças 24h por dia! Ela estava permanentemente revoltada com o mundo e pensava possuir várias soluções (simplistas) para os conflitos da humanidade.

Não creio que o mundo possa ser “consertado”, pois ainda que existisse um gênio da lâmpada que nos concedesse tal realização, esse mundo ideal variaria demais dependendo de que quem o idealizaria. Cada um de nós tem ideais próprios para o mundo e não necessariamente representativos.
Portanto, ainda que o mundo pudesse ser consertado, quem disse que chegaríamos a um consenso sobre o modelo final? Costumo provocar os pacientes dizendo que, se a questão das injustiças fosse simples de resolver, nós poderíamos dispensar advogados e juízes de suas funções! E não somente eles, poderíamos acabar com toda a complexidade dos trâmites da justiça! Se a verdade e a justiça fossem tão simples de se definir, qualquer um saberia julgar e condenar e todos os demais concordariam imediatamente com o veredicto de qualquer indivíduo.

Conceitos como o de justiça, da verdade e até mesmo do que é certo dependem de uma elaboração coletiva e possuirão, portanto, um grande grau de subjetividade. Buscar a verdade e a justiça coletiva absolutas é o mesmo que tentar definir a mulher mais bonita do mundo ou o melhor vinho já produzido! Como eu disse, essa é uma questão bastante complexa e, quando a pessoa sofre das neuroses resultantes de um insaciável senso de injustiça, talvez seja melhor considerar lidar com esse problema por meio da terapia junguiana. Assim como o conceito da verdade absoluta, aqui também não existe uma saída simplista a ser ofertada a essas pessoas.

A Neurociência do Pensamento Abstrato

O Pensamento Abstrato
Dr. Jorge Martins de Oliveira e Dr. Júlio Rocha do Amaral

Fonte: http://www.cerebromente.org.br/n12/opiniao/pensamento.html


Conceituar alguma coisa é um indispensável primeiro passo para entende-la. Assim, faz-se mister que a gente se conscientize de que a complexidade do assunto “pensamento abstrato” já começa pela própria dificuldade em definir o que é “pensamento” e o que é “abstrato”.
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# Iniciemos tentando conceituar “pensamento”.

Na lingua portuguesa, consultando o Dicionário do Aurélio e deixando de lado diversas definições lá existentes, que não esclarecem absolutamente nada, como: “é o ato ou efeito de pensar” ou “é a faculdade de pensar logicamente”, conceituações que nos deixam rodando em círculo, conseguimos encontrar duas que nos parecem um pouco mais cabíveis: “é um processo mental que se concentra nas idéias” e “é o poder de formular conceitos”.


Buscando na lingua inglesa, através do The Oxford Desk Dictionary and Thesaurus, voltamos a girar em torno de um mesmo ponto, frente à definições como: “é o processo ou poder de pensar” ou, pior ainda, “é o que alguém está pensando”, até que encontramos um conceito mais aceitável: “é a faculdade da razão”.


Porém, definitivamente, as conceituações dos filólogos de lá e de cá, não satisfazem às exigências de filósofos, psicólogos e neurocientistas.


Mas, de que forma estes conceituam “pensamento”?


Para Jung o “pensamento é uma função psicológica racional, que estabelece relações de ordem comportamental entre conteúdos representativos, através da utilização de categorias como ‘verdadeiro’ ou ‘falso, ou como ‘certo’ ou ‘errado’.”


Para Jolivet “pensamento é a capacidade que tem o ser humano de conhecer em que consistem as coisas e as relações que elas têm entre si.”


Porque admitimos que outras espécies também pensam, temos um conceito que, conquanto, parecido com o de Jolivet é, a nosso ver, menos restritivo e mais adequado.

Assim, para nós, “pensamento é a capacidade que tem o ser de, através de três operações mentais distintas:
- ‘a formação de ideias’,
- ‘o juízo sobre as relações de conveniência  entre essas ideias’
e
- ‘o raciocínio, que estabelece relações entre os juízos’, compreender o significado das coisas concretas e das abstrações, bem como das relações que elas guardam entre si.”


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# E quanto ao conceito de “abstrato”?

Voltemos aos filólogos:

Na lingua portuguesa, novamente de acordo com o Dicionário do Aurélio, “ ‘abstrato’ é o que expressa uma qualidade ou característica separada do objeto a que pertence ou a que está ligada.”

Na lingua inglesa, de novo recorrendo ao The Oxford Desk Dictionary and Thesaurus, temos conceitos mais simples, como este: “abstrato é o que existe no pensamento ou na teoria e não na matéria ou na prática.”


Consultando outras fontes, científicas e filosóficas, obtivemos conceituações bem mais lúcidas, as quais, conquanto aparentando, à primeira vista, um certo grau de complexidade, nos permitiram, a partir de palavras relacionadas, como ‘abstração’ e ‘idéia', definir e compreender, mais claramente, o significado de ‘abstrato’.

Assim, temos que a ‘abstração’ é um conceito no qual não se leva em conta um valor específico determinado e sim qualquer entre todos os valores possíveis daquilo com que estamos lidando ou ao que estamos nos referindo. Por exemplo, em álgebra, quando dizemos que x é uma variável, desconsideramos o seu valor atual, mas consideramos todos os possíveis valores de x como sendo números, os quais não são objetos físicos e sim objetos linguísticos, formados pela abstração durante o ato de contar.

Daí ser talvez a matemática o exemplo ideal do ‘abstracionismo’, uma vez que, como regra, não estuda o mundo real, e sim modelos, que são abstrações do mundo real. 

[ Ver documentário "A história da matemática" ]

Exemplificando: ‘três’ é uma idéia abstrata e não uma coisa concreta do mundo real. Mas ‘três’ é uma abstração muito útil, porque nos permite ter certeza de quanto ‘três’ representa e que, adicionando-se mais ‘um’, sempre teremos ‘quatro’, independentemente de estarmos nos referindo à pessoas, casas, bananas, ou a qualquer outra coisa.

Existem outras considerações interessantes e até mesmo contraditórias sobre o tema em questão. Vejamos:

Para o filósofo George Berkeley, idéias abstratas são não entidades, ou seja, não constituem idéias que na realidade temos e sim descrições incoerentes de ideías que imaginamos ter. Assim, para ele, as idéias não possuem existência própria, necessitando, sempre, da presença de alguém que as perceba. Uma opinião oposta aos clássicos pensamentos de Platão, para quem as idéias (abstratas ou não) existem de fato, independentemente de haver ou não uma mente humana para percebê-las, uma vez  que se encontram fora de nós, no universo, concebidas por um Ser Superior.

Allan Randall, ao concordar, parcialmente, com o filósofo grego, diz que, uma vez que a idéia abstrata possui uma existência própria, devemos imaginá-la como uma idéia de alguma coisa específica. E explica: se, por exemplo, “abstraímos”, ou retiramos, uma maçã do mundo real em que ela se situa, passamos a ficar, apenas, com uma idéia muito particular- a da palavra ‘maçã’. A idéia, em si, embora obtida através de uma abstração, não é inerentemente abstrata. Trata-se, na verdade, de uma idéia particular de algo concreto. Neste caso, uma espécie de imagem mental de uma maçã com cor, forma e tamanho definidos.

A idéia abstrata, que alcançou seu grau maior de desenvolvimento em nossa espécie, tornou-se a fonte da criatividade. Sem esta, a raça humana teria sido privada de uma das mais belas expressões que vida pode prover:  a arte. Como, por definição, o 'abstracto' não tem massa, forma, tamanho e cor, quase todas as obras de arte são, definitivamente, concretas. Tomemos como exemplo uma pintura original, não uma cópia, é claro. Ela foi o resultado de uma concepção abstrata inicial da mente do artista, da qual ele construiu uma certa imagem e a pintou. Assim, o trabalho dele ficou concreto, porque tem massa, cor e dimensões.

Por outro lado, a música de uma canção, outra admirável criação artística, é, também,  privada de cor, massa e dimensões. Então, por definição, seria uma abstração. Porém, a música é capturada por uma de nossas percepções sensoriais: a audição. Então, segundo nosso ponto de vista, a música não representa uma abstração "pura”. Assim, nós a consideramos uma semi-abstração ou abstração parcial, enquanto reservando o conceito de abstração " pura " ou absoluta para aquelas que, além de serem privadas de cor, massa e dimensões, também não são percebidas pelos órgãos sensoriais.  Elas são apenas  “sentidas " pela mente.

[ Gismonti diz "a música é algo que não existe" ]

Como exemplos de abstração absoluta nós temos sentimentos como ciúme, paixão ou ira, amor ou ódio, felicidade ou tristeza, todos eles profundamente inseridos dentro dos neurônios do nosso sistema límbico ou, como diria John Eccles, nas profundidades de nossas almas...

Mais tarde, citaremos outros exemplos de abstração absoluta.

São também importantes e significativas, para a compreensão do processo do pensamento em geral e do abstrato particular, as conceituações apresentadas por James D. Weinland em seu livro How to Think Straight. Para este autor “o pensamento é uma atividade mental, de natureza ensaio e erro, que precede a ação física. Ocorre quando o próximo passo a ser tomado é desconhecido, porque alguma dificuldade interfere com a ação. Nestes casos, ensaios imaginários indicam um caminho para uma solução, evitando assim respostas inadequadas.”

Esta definição faz-nos lembrar, imediatamente,uma outra do grande neurofisiologista Aleksandr Romanovich Luria, segundo a qual “o pensamento surge somente quando o sujeito é confrontado por uma situação para a qual não tenha uma solução previamente preparada, seja ela inata ou habitual.”

Na concepção defendida por Weinland, o pensamento é um ato complexo, no qual podemos isolar os perceptos (isto é, as impressões de um objeto obtidas pelos nossos sentidos), os conceitos e as generalizações, relacionados entre si pelos processos de indução e dedução, sujeitos à ação de processos subordinados, como a classificação e a formação de hipóteses.

Analisando as definições de Weinland em relação aos diferentes elementos constitutivos do pensamento, concluímos que apenas os perceptos têm um caráter concreto, individual, uma vez que se referem a informações captadas pelos diferentes órgãos sensoriais e à sua análise pelos centros corticais correspondentes. O autor ressalta que, embora constituam unidades fundamentais do pensamento, os perceptos “não são as experiências mentais mais elementares dos seres humanos”, uma vez que são “um composto consistindo de sensação e memória”.

Na elaboração dos conceitos (ou idéias) predomina o não concreto, o grupal , pois os mesmos são formados a partir de uma série de vários exemplares individuais de objetos e seres, dos quais eliminamos as diferenças e conservamos as qualidades comuns através da abstração.

Ainda segundo Weinland  os conceitos podem ser classificados de alto ou baixo nível. “Os conceitos de baixo nível, baseados em perceptos verdadeiros de coisas individuais, resultam diretamente do contato pessoal com essas coisas e ajudam a formar nossa experiência prática”. Os conceitos de alto nível, ao contrário, “são menos dependentes da experiência de uma única pessoa, derivando, em grande parte da educação e, portanto, da cultura do  mundo civilizado”. Ou seja, (acrescentamos nós), do universo em que ela está inserida.

Os conceitos são relacionados entre si pela generalização, atividade abstrata que identifica similaridade entre os mesmos.

Generalização (pensamento abstrato) é o motor da capacidade de síntese.
Mas qual é a saída -output- da abstração? (como conceito formalizado)


A importância da abstração na formação do pensamento já era ressaltada há séculos por autores como Condillac (apud Cuvillier), o qual, já em 1798, afirmava que o processo abstrato tinha início já na percepção, pois, “com efeito, nossos sentidos decompõem cada objeto”

Laromiguiere (apud Cuvillier), nesta mesma época e seguindo uma linha similar, dizia ser “o nosso corpo, uma máquina de abstrações” A abstração pode, portanto, ser entendida como uma análise redutora e simplificadora do complexo ‘mundo senso – perceptivo’ em que vivemos, fundamentando o pensamento que nos permite tomar as decisões adequadas, visando garantir nossa sobrevivência como indivíduos e como espécie.


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# Substratos Neurofisiológicos do Pensamento Abstrato

São conhecimentos importantes para a compreensão dos substratos neurofisiológicos do pensamento abstrato, os conceitos de unidades funcionais do cérebro, propostos pelo neuropsicólogo russo Luria. 


Segundo este autor, as diversas estruturas que compõe o cérebro podem ser consideradas como partes constitutivas de três unidades funcionais principais:

1. Uma unidade responsável pela regulação do estado da atividade cortical e do nível de vigilância, formada pela substância reticular e outras estruturas existentes no tronco cerebral e no diencéfalo e pelas regiões mediais do córtex;

2. Uma unidade para a recepção, análise e armazenamento de informações – constituídas por regiões laterais do neocortex situadas na superfície convexa dos hemisférios cerebrais, compreendendo as regiões occipital (visão), temporal (audição) e parietal (sensibilidade geral);

3. Uma unidade para programação, regulação e verificação da atividade – formada por estruturas localizadas na região anterior dos hemisférios cerebrais, à frente da circunvolução para-central.

O pensamento, assinala Luria, depende da ação conjunta destas três unidades funcionais mas, as duas últimas parecem ter maior importância para o  pensamento abstrato.

A segunda unidade funcional, conforme o já exposto, é formada pelas regiões occipital, temporal e parietal. Distinguem-se nestas regiões três áreas anatômica e funcionalmente distintas:

a) As áreas primárias ou de projeção – formadas, principalmente, por neurônios da camada aferente IV, muitos dos quais apresentando alta especificidade modal; são eles que recebem fibras aferentes provenientes dos órgãos dos sentidos e funcionam como analisadores das informações sensoriais específicas.

b) As secundárias ou gnósticas – intimamente relacionadas com as primeiras e constituídas, principalmente, pelos neurônios das camadas celulares II e III, dotados de menor especificidade modal. A presença de muitos neurônios de axônios curtos permite que a excitação ‘entrante’ seja combinada em padrões funcionais, realizando, assim, uma função sintética.

c) As terciárias (ou de superposição dos terminais corticais de vários analisadores), compostas quase inteiramente por neurônios das camadas associativas II e III. Situam-se entre as regiões corticais occipital, temporal e pós-central, formando, em sua maior parte, a região parietal inferior que, no ser humano, adquire um máximo desenvolvimento.

Essas estruturas terciárias estão situadas nas clássicas áreas de Brodmann: 5, 7, 39 e 40 (na região parietal), 21 (na região temporal) e 37 e 39 (na região têmporo-occipital).

As referidas áreas encarregam-se de integrar as excitações provenientes de diversos analisadores. Segundo Luria seu principal papel é o de promover a organização espacial dos impulsos aferentes vindos de diferentes regiões e o de converter “os estímulos sucessivos em grupos simultaneamente processados, único mecanismo possível para explicar o caráter sintético da percepção, que Sechenov originalmente discutiu há muitos anos”.

Ainda segundo Luria, estas áreas “desempenham um papel essencial na conversão da percepção concreta em pensamento abstrato”.

As abstrações, formadas na segunda unidade funcional, são utilizadas pela terceira unidade para as programação das atividades do ser. Especialmente importantes, nessa terceira unidade, são as áreas préfrontais, formadas por neurônios granulares, que mantém conexões de dupla via, não só com o diencéfalo e o tronco cerebral mas também, praticamente, com todas as demais áreas do córtex. As áreas préfrontais, que atingem no homem o seu máximo desenvolvimento, desempenham papel fundamental na formação de intenções e programas, bem como na regulação e verificação dos comportamentos humanos mais complexos.

Lesões nas áreas terciárias da segunda unidade funcional provocam diversas alterações neuropsicológicas, dentre as quais destacam-se a incapacidade de captar o sentido global de uma construção verbal, embora mantenha-se preservado o entendimento de palavras individuais. Os pacientes continuam capazes de entender comunicações de acontecimentos (por exemplo, papai e mamãe foram ao cinema), porém não mais captam comunicações de relações (por exemplo, uma senhora veio da fábrica para a escola onde Nina estuda, a fim de dar uma palestra). E se confundem quando diante de expressões como “muito maior que”  ou “muitas vezes mais”.

[Não são informações absolutas, mas comparativas e co-referenciadas, de sentido lexical emergente (imanente?)]

Por outro lado, lesões nas áreas terciárias da terceira unidade funcional, isto é, nas áreas préfrontais, levam a diversas alterações motoras e cognitivas pela impossibilidade de se realizar programas de atividades e a verificação de seus desempenhos.

Lhermitte (apud Miller), estudando dois pacientes que sofreram ablações extensas, bilaterais, dos lobos frontais, observou que eles são incapazes de captar o sentido global de uma situação social, respondendo, apenas, a detalhes da mesma, o que o levou a cunhar, para descrever esse tipo de comportamento deficitário o termo “síndrome de dependência ambiental”. Estes pacientes tornaram-se, no dizer de Laurence Miller, “escravos virtuais de ‘deixas’ contextuais isoladas”.

Embora nem todos aceitem, nós acreditamos que outras espécies são capazes de desenvolver abstrações. Alguns primatas e cetáceos, sem dúvida, têm concepções abstratas, mas elas devem ser muito tênues e, certamente, nunca evoluem, como em nós, humanos, para um estágio de alta criatividade. E, mesmo se isso ocorresse, seria uma criatividade inócua, pois eles não disporiam dos atributos físicos para, a partir dela, construir alguma coisa que se pudesse considerar relevante e concreto. Não obstante, o exercício de pensamentos conscientes e abstratos, entre golfinhos e símios superiores, tem sido ampla e nitidamente evidenciado.

=)


Premeditação, ainda que de pequenos atos, ações conjugadas e astúcia racionalmente concebida são comportamentos que envolvem, necessariamente, o emprego de abstrações.

Ressalte-se que estamos nos referindo a um tipo de astúcia calcada na lógica, não na intuição. A astúcia intuitiva é, em maior ou menor grau, inerente a todos os animais, por se tratar de um importante instrumento do arsenal de sobrevivência dos seres e das espécies.
Os famosos estudos realizados por Wolfgang Kohler nas ilhas Canárias demonstram, claramente, o uso dessa astúcia racional e de ações conjugadas por macacos superiores. Entre as inúmeras observações conduzidas por esse cientista, existe uma que, não só por seu aspecto humorístico mas por caracterizar a existência de componente abstrato, merece ser aqui assinalada. Ela tem a ver com a atitude maliciosa e maldosa praticada por dois chimpanzés contra uma galinha: um dos macacos apresenta um alimento para a ave, encorajando-a a se aproximar. Tão logo ela o faz, recebe uma pancada, desferida pelo outro macaco, com um pedaço de arame que este mantivera escondido atrás das costas.  A galinha se retrai mas logo cai de novo na armadilha, já que não consegue estabelecer a associação entre a oferta do alimento e a pancada recebida. E a coisa prossegue até que os macacos, possivelmente cansados da brincadeira, afastam-se do estúpido galináceo. O componente abstrato se denuncia pela evidente premeditação de uma conspiração elaborada e executada, em uma ação conjunta, pelos dois chimpanzés.

O pensamento abstrato pode surgir de estímulos externos captados pelos órgãos sensoriais, de lembranças evocadas da memória ou simplesmente de mensagens provenientes de locais indeterminados nos recônditos da mente e sem qualquer traço de lembrança consciente. Era como se tivessem surgido do nada!

Contudo, independentemente da origem do estímulo desencadeante, os pensamentos abstratos representam idéias ou sentimentos, não dimensionáveis, desprovidos de forma, tamanho ou cor, como amor, paixão, ódio ou tristeza - abstrações límbicas, ou algo assim como sentido ético e moral, música ou matemática - abstrações neocorticais.

Também a habilidade que tem a mente de selecionar novas rotas ou novos meios para alcançar um determinado objetivo é algo que, certamente, tem a ver com o pensamento abstrato.

As vezes, o pensamento abstrato, tal como a concepção espacial de alguma coisa – possivelmente processada algures no hemisfério direito, adquire um caráter tridimensional. Essa tridimensionalidade permite que o processo mental evolua para uma criatividade mais definida, ou seja, para a capacidade de, a partir da associação inteligente de idéias abstratas, “formar” um pensamento tridimensional que permita a concepção, e depois, eventualmente, a construção de novas coisas concretas.

Em outras ocasiões, a abstração inicial gera novos conceitos, igualmente abstratos, mas que evoluem para a formulação de leis ou princípios físicos do mais alto sentido prático.

Afff... ¬¬


É o caso da concepção geométrica do matemático Hilbert sobre a intercepção de linhas paralelas, que acabou se tornando a base da teoria da gravitação elaborada por Einstein.
Ou da idéia do mesmo Hilbert de "construir" espaços abstratos multidimensionais, através da aplicação de funções matemáticas simples que, 25 anos depois, iriam constituir um dos fundamentos da mecânica quântica.

[ Ver o que o Kubrusly escreveu: "Fim do Sonho de Hilbert" + (Goedel, Cantor etc...) ]

[ Lacan e quase toda a galera Psi apontam claramente para o "furo" inevitável em qualquer tentativa de mapeamento do pensamento humano... é meio obvio que um sitema descritivo não pode se descrever a si mesmo de maneira plena... ag porque caralhos nego insiste nessa merda eu não entendo... enfim... ]

[ Maturana usa exemplos baseados em experiências biológicas para evidenciar a nossa clausura operacional e nossos limites fenomenológicos da percepção, acho que é o mesmo papo...]


[ Falência do projeto de sistematização absoluta do pensamento/conhecimento humano - (Pierce e cia...) >>> re-direcionados para a salada louca das escolas de complexidade francesa que estão na moda ag no Brasil... >>> procurar outros eixos de análise contemporâneos que possam estar rolando por aí para dialogar com isso! ] 

Mas o pensamento abstrato proporciona algo mais: quando envolvido num processo de criatividade, ele adquire uma tal magnitude, que acaba por se constituir em forte estimulo, capaz de promover a proliferação dendrito-axonial, criando novas sinápses. Torna-se, assim, um poderoso estimulador do aprendizado, do conhecimento e da potencialidade de memorização.

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Os Autores

Jorge Martins de Oliveira, MD, PhD 
Professor Titular e Mestre da UFRJ. Livre-Docente da UFF. Coordenador Científico e Diretor do Departamento de Neurociências do Instituto da Pessoa Humana (RJ). Fellow em Pesquisa pelo Saint Vincent Charity Hospital, Cleveland, USA. Membro Titular da Academia Brasileira de Medicina Militar. Membro da Academia Brasileira de Médicos Escritores, Diplomado pela Escola Superior de Guerra (ESG). Membro do Corpo Editorial da revista Cérebro & Mente. Autor de "Princípios de Neurociências", entre diversos outros.jmartins@rio.nutecnet.com.br
Júlio Rocha do Amaral, MD - Professor de farmacologia clínica, anatomia e fisiologia . Gerente Médico Científico da Merck S/A Indústrias Químicas. Redator de manuais didáticos sobre anatomia, fisiologia e farmacologia para uso da Merck. Supervisor de editoração das publicações científicas: Senecta, Galenus e Sinapse. Redator de protocolos e relatórios de pesquisas clínicas de produtos, a partir de 1978. Coordenador adjunto dos cursos de formação de especialistas em Oxidologia, promovidos pelo Instituto da Pessoa Humana (IPH) e Universidade do Grande Rio (UNIGRANRIO). Chefe do Serviço de Psiquiatria do Departamento de Neurociências do Instituto da Pessoa Humana (IPH). Co-autor do livro 'Princípios de Neurociências, entre outros. Email: julioamaral@pobox.com